PMs do Ceará não podem debater segurança pública sem autorização
OutrasPalavras
Publicado 17/04/2018 às 10:14
Decisão do Comando Geral da corporação viola direito constitucional de liberdade de expressão
Reportagem de Luiza Sansão O Comando Geral da PolÃcia Militar do Estado do Ceará (PMCE) determinou que policiais fora do horário de serviço somente poderão participar de eventos sobre segurança pública se a instituição autorizar. Publicada no boletim interno da corporação no dia 23 de março último, a portaria representa um verdadeiro atentado ao direito de seus policiais militares à liberdade de expressão garantida pela Constituição Federal de 1988. Trata-se, notoriamente, de uma acentuação à subcidadania de policiais militares, que, diferentemente de qualquer outra categoria de trabalhadores, não têm direito a fazer greve, a sindicalizar-se, a filiar-se a partidos e, como reforça a referida portaria, à liberdade de pensamento. “Em nenhum momento, um policial do paÃs ou do Ceará se colocou falando sobre problemas atinentes à segurança pública como se representasse o comando da instituição. Ao contrário, estamos nos expressando a partir de uma perspectiva da construção de um modelo de segurança que seja humano, justo, correto e respeite a cidadania e os direitos humanos. Esta é a lógica de todos os policiais progressistas do Brasil: falar sobre segurança pública a partir de um modelo que tenha por meta central o respeito à s liberdades, aos direitos, aos direitos humanosâ€, afirma o sargento da PM de Santa Catarina Elisandro Lotin, presidente da Associação Nacional de Praças (Anaspra) — que publicou uma nota de repúdio à criação da portaria.
Lotin considera especialmente lamentável que a medida tenha sido endossada por um governo petista — no caso, do governador Camilo Santana (PT-CE). “É um tanto contraditório que um partido que sempre militou e lutou junto com os trabalhadores do Brasil, por liberdade de expressão, por direitos, pela democracia, concorde com essa aberração que é proibir policiais de se expressarem sobre segurança públicaâ€, critica. “Ela contraria qualquer tipo de busca por um modelo de segurança pública diferenciado. E é lamentável que isso aconteça em um governo do PT. Com essa portaria, o governador Camilo Santana se iguala a governos de cunho neoliberal, que optam por forçar policiais a se calarem em detrimento do caos que está colocado na segurança pública e que tem sido a tônica dos últimos 20 anosâ€.

O sargento Elisandro Lotin, presidente da Anaspra. | Foto: Arquivo pessoal

Ilustração: Vitor Flynn

O tenente Anderson Duarte, da PMCE. | Foto: ThaÃs Tostes

Reginauro Sousa, bombeiro militar do Ceará e presidente da APS. | Foto: Arquivo pessoal
“Estrutura militar na segurança pública é incompatÃvel com a democraciaâ€, diz especialista
O antropólogo Luiz Eduardo Soares, um dos maiores especialistas em segurança pública no paÃs, afirma que a portaria da PM cearense “é lamentável, mas não surpreende em se tratando de uma estrutura militarâ€. “A grande demonstração de que a estrutura militar não convive pacificamente com a Constituição Federal são muitos dos regimentos que regem a vida militar nas polÃcias militares Brasil aforaâ€, diz Soares.
O antropólogo Luiz Eduardo Soares. Foto: Arquivo pessoal
Governo, Secretaria de Segurança e PMCE não comentam
Questionei a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS-CE) sobre a medida, por meio de sua assessoria de imprensa, que respondeu apenas que “a demanda deve ser tratada com a própria PMCEâ€. À PolÃcia Militar do Ceará, por meio de sua assessoria, enviei os seguintes questionamentos:- O que motivou a criação de tal portaria?
- Considerando que PMs são submetidos a um estatuto militar que os impede de sindicalizar-se, fazer greve, filiar-se a partidos e até mesmo a manifestar livremente suas posições, esta portaria não representa um retrocesso ainda maior no que diz respeito aos direitos dos policiais?
- Os policiais que participam de eventos fora de seu horário de serviço, sem farda, não estão representando a instituição, mas exercendo seu direito à livre manifestação de pensamento, ou seja, trata-se de um direito garantido pela Constituição: o da liberdade de expressão. Portanto, a referida portaria afronta um direito constitucional de todo cidadão, independentemente de profissão, cor, raça, religião e qualquer outro fator. O que a instituição tem a dizer sobre isso?
- Como o governador Camilo Santana entende essa portaria que restringe os direitos dos policiais à manifestações mesmo fora de serviço?
- O governador acredita que, partir desta restrição imposta pela portaria em questão, a participação dos policiais no debate sobre segurança pública deva ser discutida, tendo em vista que eles são parte diretamente envolvida em qualquer processo de mudança que possa ocorrer no modelo atual?
- O que o governador pensa sobre a proposta de desmilitarização da polÃtica de segurança pública?
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