Plataforma de denúncia de violência policial recebe prêmio internacional
Publicado 04/03/2018 às 12:03
DefeZap foi premiado por inovação no acesso à Justiça em competição que reconhece organizações que trabalham para “colocar o poder da lei nas mãos das pessoasâ€
Reportagem de Luiza Sansão Em um paÃs onde defender os direitos humanos é uma atividade de alto risco — e mesmo a compreensão do que significam direitos humanos sofre grandes distorções —, uma plataforma que tem desempenhado um papel fundamental na denúncia de violência de Estado no Rio de Janeiro teve seu trabalho reconhecido internacionalmente. O DefeZap, ferramenta que recebe vÃdeos-denúncias de violência praticada pelo Estado por meio de suas forças policiais, realiza apurações preliminares e encaminha casos aos órgãos competentes, ganhou, na categoria de inovação no acesso à Justiça, o Grassroots Justice Prize, competição bienal que reconhece organizações e instituições de todo o mundo que trabalham para “colocar o poder da lei nas mãos das pessoasâ€, como diz o site da organização. A cerimônia de premiação ocorreu, simbolicamente, no dia 20 de fevereiro — que marca o Dia Mundial da Justiça Social —, na Argentina. Desenvolvido pela organização Nossas e lançado em 9 de maio de 2016 com o objetivo de potencializar a participação de cidadãos na questão da segurança pública e defesa dos direitos humanos, o DefeZap é um importante apoio ao trabalho de base que já vem sendo realizado por vários grupos nas favelas e periferias na região metropolitana do Rio, como destaca a jornalista Lana de Souza, responsável pelo setor de comunicação do projeto e moradora do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro.
Equipe do projeto DefeZap em maio de 2016. | Foto: Arquivo pessoal
Ferramenta de proteção de direitos
Para o ativista Raull Santiago, integrante do Coletivo Papo Reto, do Complexo do Alemão, o projeto tem sido fundamental no combate à s violências praticadas pelo Estado contra a população das favelas por meio de suas polÃcias. “O DefeZap foi peça fundamental para que a gente conseguisse chamar a atenção para as violações do Estado aqui na favela, denunciar e conseguir solucionar o que estava acontecendo, principalmente no ano de 2017â€, diz, referindo-se ao perÃodo em que policiais militares invadiram sem mandado e ocuparam casas de moradores da Alvorada, no Alemão.
Ponta de fuzil de policial em buraco na parede de casa invadida e ocupada por PMs no Alemão. | Foto: Bento Fabio / Coletivo Papo Reto

Guilherme Pimentel e Lana de Souza, da equipe do DefeZap, em audiência sobre ocupação de casas pela PM no Alemão em 2017. | Foto: Bento Fabio / Coletivo Papo Reto

PMs em laje de casa de moradores no Alemão em 2017. | Foto: Bento Fabio / Coletivo Papo Reto
“Nunca foi mais importante defender os direitos humanos no Brasilâ€
Em seu discurso durante a cerimônia (leia abaixo), o coordenador do DefeZap Guilherme Pimentel enfatizou que o prêmio é um recado importante aos setores conservadores do Brasil, que se incomodam com aqueles que lutam contra as violações de direitos humanos que o próprio Estado pratica contra as parcelas mais vulneráveis da população.“Este prêmio é muito importante porque é mais do que o reconhecimento. No meio de tantos projetos qualificados, ser selecionado é uma grande honra. Mas, sem dúvida, a maior importância deste prêmio é a mensagem que atinge os setores autoritários no Brasil, que já estão desconfortáveis ​​com o nosso trabalho e tentaram nos empurrar de volta através de ataques de ódio e boatos nos últimos meses. Quando recebemos esse prêmio, uma mensagem ecoa alto e claro no Brasil: DefeZap não está sozinho. Fazemos parte de uma comunidade internacional que defende o estado de direito e os direitos humanos. Nunca foi mais importante defender os direitos humanos no Brasil. Enquanto outros insistem em polÃticas autoritárias no campo da segurança pública brasileira, continuaremos a apostar na cidadania. Continuaremos atendendo a população e exigindo que as autoridades respeitem os direitos constitucionais. Enquanto outros engavetam investigações de assassinatos cometidos por funcionários públicos, continuaremos documentando a evidência e relatando tudo. Embora eles digam que os direitos do cidadão já não são úteis, continuaremos fazendo workshops sobre direitos e pensando formas de implementar o que já foi feito em papelâ€.

O coordenador executivo do DefeZap Guilherme Pimentel. | Foto: Philippe Souto
Distorções sobre o significado de direitos humanos são problema grave que também motiva ataques
Há quem distorça o significado de direitos humanos propositalmente, por questões ideológicas — como os adeptos do bordão “bandido bom é bandido mortoâ€. Por outro lado, existe também uma parcela da sociedade que reproduz clichês como “direitos humanos são para bandido†e outros discursos equivocados simplesmente porque ignora o real significado de direitos humanos — não por acaso também chamados de direitos fundamentais, isto é, inerentes a todo e qualquer cidadão, independentemente de raça, nacionalidade, etnia, idioma, sexo, religião ou qualquer outra condição.
PM no Alemão no perÃodo da ocupação de casas. | Foto: Bento Fabio / Coletivo Papo Reto
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