Segundo o antropólogo e especialista em segurança pública, é preciso competir, por meio de polÃticas públicas, com o foco de recrutamento do crime, “para que nós nos tornemos, como sociedade e como Estado democrático de Direito, capazes de atrair, cooptar, recrutar esses jovens, oferecendo-lhes benefÃcios”
Entrevista de
Luiza Sansão, originalmente publicada na revista
Nova Escola
Com a atual estrutura das polÃcias e das polÃticas públicas de repressão ao crime, as escolas do Rio de Janeiro em áreas de conflito continuarão apresentando graves problemas de aprendizagem e perdendo jovens para o tráfico. Essa é a constatação do antropólogo e escritor fluminense Luiz Eduardo Soares. Considerado um dos mais respeitados especialistas de segurança pública do Brasil, ele chegou a ser subsecretário da segurança pública do estado, entre 1999 e 2000, mas acabou demitido pelo então governador Anthony Garotinho após fazer denúncias de corrupção na polÃcia.
Luiz Eduardo se dedica a estudar o assunto e enfatiza a importância dos investimentos em Educação e cultura, num momento de crise profunda na segurança do estado, como conta aÂ
reportagem que produzi para a edição de setembro da revista Nova Escola. Para ele, não adianta investir no ambiente escolar sem mudar a realidade no entorno.
Temos um cenário desolador no que se refere à educação nas comunidades do Rio. O que está provocando isso?
Enquanto nós tivermos as polÃcias que temos, organizadas e estruturadas em um molde herdado da ditadura militar; policiais, trabalhadores, cidadãos que operam nessas instituições, submetidos a essas condições de trabalho indignas e desumanas; enquanto nós tivermos as orientações nas polÃticas de segurança e nas polÃticas criminais que temos, voltadas para a guerra, a destruição do suspeito tratado como inimigo, e com leis de drogas irracionais e absurdas, continuaremos tendo criminalização da pobreza, estigmatização dos territórios vulneráveis e seus moradores, genocÃdio de jovens negros e pobres nas periferias, encarceramento em massa, com todas as consequências, que são o crescimento das facções criminosas e a contratação de violência futura com destruição da vida de jovens que, na prática, são inocentes, ainda que transgridam a patética lei de drogas.

O antropólogo Luiz Eduardo Soares. Foto: Arquivo pessoal
Que perspectivas o senhor vê em meio a essa realidade?
Esse é o quadro que vamos continuar tendo enquanto as armas não forem o grande foco de atenção por parte de todo o aparato de segurança pública, enquanto continuarem essas condições dramáticas de pobreza que se agrava, desigualdades que se aprofundam, falta de saneamento, de condições minimamente adequadas de vida, com educação em um ambiente precário, com toda a evasão escolar que estamos vendo, com uma juventude sem perspectivas e uma sociedade que vai se desagregando.
Desigualdade se aprofundando, as elites absolutamente cegas e vorazes, uma agenda neoliberal extrema que cassa direitos e viola direitos elementares. Os resultados só podem ser desastrosos, inclusive, claro, para a própria educação. Pesquisas realizadas pela Redes da Maré têm mostrado as implicações desse ambiente de violência do qual o Estado é cúmplice e até promotor, em boa parte, pela forma irresponsável com que atua, pela brutalidade letal que nós conhecemos.
O senhor poderia fazer uma análise sobre os dados revelados por essas pesquisas?
A Redes da Maré tem demonstrado a quantidade de dias perdidos de aulas, e são números incrÃveis. O cálculo mostra que, numa trajetória escolar, no mÃnimo um ano é perdido. Então, há uma defasagem de um ano para aqueles que atravessam, que percorrem o itinerário de formação escolar nos territórios em que há conflitos armados. Isso é dramático. Estamos falando de vidas humanas. Não só aquelas que são ceifadas pela violência diretamente, mas aquelas que sofrem outros impactos.
Além da questão quantitativa, temos a qualitativa: viver e respirar num ambiente desse tipo é muito difÃcil. Os traumas, as implicações são muito graves. E estudar nesse ambiente tem implicações também longe de serem conhecidas, pesquisadas. Então estamos diante de uma situação que não pode ser naturalizada. Não podemos considerar que isso se mantenha estável como parte da nossa paisagem. “Há escolas que vivem nesses ambientes? Vamos pensar em polÃticas para essas escolas.†Não, nós temos que pensar em mudar essa ambiência.
Se não, nós vamos continuar criando mais muros para as escolas, blindar paredes e janelas das escolas, e esse certamente é muito mais um sintoma do problema e espelha a naturalização e a resignação irresponsável e criminosa por parte do Estado. É preciso considerar essa situação inaceitável e agir de modo a que se transformem todas as condições geradoras desses problemas.

Alunos têm aula de arte, música, gênero, ética e cidadania, além de escolinha de futebol. Crédito: Valda Nogueira
Como o Estado poderia combater essa violência?
A questão chave não pode ser a guerra de destruição, por todas as questões que nós conhecemos. Se nós queremos esvaziar, não eliminar, liquidar aqueles que chamamos criminosos, que estão envolvidos, por exemplo, com o tráfico de drogas. Se nós queremos esvaziar esse grupo para que ele deixe de existir, além das questões atinentes à lei de drogas e outras, aquelas relativas à s desigualdades estruturais etc., há uma abordagem a ser adotada, em vez da perspectiva estática em que nós identificamos um grupo determinado praticando tais crimes, e pensamos então como a justiça criminal e os agentes da polÃtica de segurança, como as polÃcias poderão atuar.
Nós devemos é nos perguntar, de uma perspectiva dinâmica, como esses grupos se perpetuam ou até se ampliam. Eles precisam se reproduzir e, para existirem e se reproduzirem, eles precisam cooptar, recrutar outros atores, outros indivÃduos, e em geral são os jovens os mais vulneráveis a esse recrutamento. Aqueles que acabam aderindo ao tráfico o fazem porque recebem benefÃcios. Esse recrutamento não se faz pela força, pela imposição. Este é um caso excepcional. Em geral, esse recrutamento acontece porque há benefÃcios, assim considerados por quem se deixa recrutar e passa a integrar um determinado grupo que pratica crimes.
Desde a década de 1990, o senhor vem falando sobre uma dimensão mais ampla dos benefÃcios oferecidos pelo tráfico e que acabam atraindo os jovens. Que benefÃcios são esses?
São os óbvios, materiais, que todos reconhecem, que é o acesso a algum dinheiro para sobreviver, consumir, melhorar sua qualidade de vida e de sua famÃlia. Mas também, e eu diria sobretudo, benefÃcios imateriais, que têm um impacto extraordinariamente importante. O reconhecimento, a valorização, o acolhimento. Esses que se sentem perdidos, sem lugar e invisÃveis socialmente, passam a compartilhar uma identidade, a vivenciar o pertencimento a um grupo.
E mesmo aqueles bens materiais, como uma camisa que protege o corpo, ou um calçado que protege os pés, além de proverem vantagens propriamente materiais, têm um valor simbólico, psÃquico, subjetivo e intersubjetivo. São fetiches de status que diferenciam positivamente, status que também proporciona um reconhecimento. E, por outro lado, são indicadores de pertencimento a um grupo que assim se qualifica. O tênis de marca não é apenas um calçado que protege os pés, mas uma marca que atribui um status ao seu detentor. Então, essa marca, esse fetiche, esse sÃmbolo de valorização de status e de pertencimento são elementos de grande importância nesse contexto de vulnerabilidade.
Como isso provoca e aprofunda esse cenário de violência que afeta cotidianamente esses territórios?
A experiência do pertencimento a um grupo é tão maior, mais intensa e gratificante, quão mais coeso for o grupo. E o grupo será tão mais coeso quão mais intensas forem as rivalidades vividas por esse grupo contra outros grupos. Por isso as ditaduras em declÃnio, e decadência, buscam guerras com inimigos externos, como aconteceu na Argentina, por exemplo. É para reforçar a unidade interna. A experiência de torcida no futebol se alimenta desse totenismo, para usar uma expressão antropológica. Quer dizer, o sujeito do Flamengo experimenta o ser flamenguista, pertencer a um grupo, na medida em que se opuser ao Vasco, ao Fluminense, ao Botafogo, aos outros clubes. Quão mais intensa for a rivalidade, mais forte será a experiência do pertencimento. E, assim, portanto, esses conflitos armados intensos entre os grupos de tráfico e destes com os grupos policiais acabam tendo uma função que reforça a coesão interna, intensifica a gratificação do pertencimento e realimenta, portanto, todo esse ciclo da valorização de quem participa.
Ora, se é assim, se nós devemos observar como se dá o recrutamento, a reprodução e crescimento do grupo, nós devemos pensar que, em vez de uma luta de destruição, trata-se de, com inteligência, interceptar a dinâmica de recrutamento e reprodução.

Escola na Maré tem na parede desenho em memória de aluno morto em tiroteio. | Foto: Valda Nogueira
E como se faz isso?
Disputando cada menino e cada menina, oferecendo os mesmos benefÃcios que são colhidos do lado de lá, digamos assim. Os mesmos, com sinal invertido. Então eles viviam a invisibilidade, a rejeição, a baixa autoestima, a falta de perspectiva, a estigmatização, sofriam todos os revezes derivados de sua condição social. Pois agora, com a experiência de pertencimento ao tráfico, eles têm aquelas vantagens que revertem esse quadro. Então cabe ao Poder Público oferecer justamente esses benefÃcios, essas vantagens. Acolhimento, reconhecimento, valorização e a possibilidade de experiência de pertencimento. Isso se faz com várias polÃticas públicas, diversas delas têm papel importante nisso, como educação, esporte e, muito particularmente –– e aà eu tenho experiência direta, aplicando polÃticas públicas desse tipo com sucesso ––, a de cultura.

Foto: Valda Nogueira
Por que polÃticas públicas de cultura são tão importantes?
Porque na cultura, particularmente nas artes, a realização é individual, mesmo sendo coletiva eventualmente, ela tem uma dimensão individual. Ela tem essa parte de sua realização que é expressiva. Diz respeito especificamente àquela criatividade que se realiza. Ela não se esgota nisso, é claro, mas ela abre também a possibilidade de que, por linguagens distintas, de dança, música, dramaturgia ou o que quer que seja, a individualidade se realize mesmo em atividades coletivas. Uma dimensão não anula a outra.
A cultura é uma dessas áreas que precisam ser privilegiadas. E é claro que ela não pode prescindir da educação. O esporte também oferece muitas possibilidades importantes. E o fato é que, havendo polÃticas multidimensionais, ou seja, intersetoriais, as diversas áreas acionadas, atingidas, mobilizadas pela violência, que são as áreas da subjetividade e da objetividade ––que vão desde a famÃlia, educação, meio ambiente, mobilidade, saneamento, perspectivas de integração no mercado de trabalho, entre outras –– podem ser objeto de ação consertada por polÃticas também intersetoriais. Então o problema é complexo, intersetorial, que requer polÃticas também intersetoriais, para dar conta dessa complexidade.

Foto: Valda Nogueira
Então o Estado precisa disputar os jovens com o tráfico por meio de polÃticas públicas?
No eixo disso tudo está essa perspectiva. A perspectiva correta é a de competição com o foco de recrutamento do crime, para que nós nos tornemos, como sociedade e como Estado democrático de Direito, capazes de atrair, cooptar, recrutar esses jovens, oferecendo-lhes benefÃcios. É claro que, para concluir, eu lembro que o benefÃcio tem o sentido aparentemente positivo no mundo do crime, mas acaba levando ao desastre, à morte precoce, ao desespero, desamparo. Acaba sendo destrutivo e autodestrutivo. O benefÃcio que nós oferecemos é um benefÃcio real, que é produtivo, construtivo e saudável.
Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, contribua com um PIX para outrosquinhentos@outraspalavras.net e fortaleça o jornalismo crÃtico.