‘Crises polÃticas não são justificativa para se atentar contra direitos humanos’, diz Anistia
Publicado 25/02/2018 às 21:55
O ano de 2017 foi marcado por enormes retrocessos, segundo a organização, que critica intervenção federal no Rio de Janeiro e manutenção de polÃtica de segurança “militarizada e falida”
Reportagem de Luiza Sansão O ano de 2017 no Brasil foi marcado por retrocessos, pela ascensão de lÃderes polÃticos que incentivam o ódio na população, pelo aprofundamento da intolerância, da repressão do Estado à s liberdades democráticas e do encarceramento em massa, além do aumento da violência letal. É o que mostra o relatório “O Estado dos Direitos Humanos no Mundo 2016/2017â€, publicado pela Anistia Internacional Brasil na quinta-feira (22/02). Fruto da experiência e da presença da organização em diferentes paÃses, o documento é produzido anualmente a partir da análise de avanços e retrocessos no que diz respeito a diferentes temáticas: segurança pública, condições prisionais, liberdade de manifestação, conflitos por terra, liberdade religiosa, direitos dos povos indÃgenas, das crianças e da população LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e intersexuais), entre outras. “Entre 2017 e 2018, o mundo assistiu a crises, a uma série de iniciativas de lÃderes polÃticos incentivando o ódio, incentivando o medo. Na nossa região, das Américas e Caribe, o relatório assinala que, nesse contexto polÃtico, as discriminações, as violências, as desigualdades permaneceram e, em alguns casos, se ampliaram. No Brasil, o quadro segue, infelizmente, esse padrão de retrocessoâ€, afirmou a diretora executiva da Anistia Brasil, Jurema Werneck, em coletiva de imprensa realizada no lançamento do relatório.
Ponta de fuzil de policial militar em operação no Complexo do Alemão em 2017. | Foto: Bento Fábio / Coletivo Papo Reto
“Quase 200 propostas diferentes de emendas constitucionais, novas leis e modificações da legislação existente ameaçavam uma série de direitos humanos. Entre essas medidas retrógradas, estavam propostas que reduziam para menos de 18 anos a idade em que crianças podem ser julgadas como adultos; alteravam ou revogavam o Estatuto do Desarmamento, facilitando o licenciamento e a compra de armas de fogo; restringiam o direito de manifestação pacÃfica e criminalizavam os protestos sociais; impunham a proibição absoluta do aborto, violando os direitos sexuais e reprodutivos de mulheres e meninas; mudavam o processo de demarcação de terras e a exigência do consentimento livre, prévio e informado dos povos indÃgenas e das comunidades quilombolas; e diminuÃam a proteção aos direitos trabalhistas e o acesso à previdência social. A Lei Nº 13.491/2017, assinada pelo Presidente Temer em 13 de outubro, estabelecia que violações de direitos humanos, inclusive homicÃdio ou tentativa de homicÃdio, cometidas por militares contra civis seriam julgadas por tribunais militares. Esta lei viola o direito a um julgamento justo, uma vez que os tribunais militares no Brasil não oferecem garantia de independência judicialâ€, diz o relatório.Este cenário desolador motivou, no ano passado, a criação da campanha Direitos não se liquidam (leia matéria minha sobre a campanha aqui), em que a Anistia mapeou projetos que, se aprovados, afetariam principalmente as parcelas mais vulneráveis da sociedade, conclamando os brasileiros a mobilizar-se para evitar tais retrocessos.
O único dado animador no relatório publicado esta semana diz respeito à mobilização dos brasileiros no ano que passou, segundo a diretora da Anistia. “A sociedade se mobilizou, em diferentes áreas, de diferentes modos, e foi capaz de mandar uma mensagem ao Congresso Nacional. No campo dos direitos reprodutivos, por exemplo, diante da tramitação da PEC 181, mulheres mandaram uma forte mensagem ao Congresso Nacional, que, felizmente, foi capaz de ouvir essa mensagem e essa PEC, que retrocederia no direito ao aborto não foi aprovada. E isso ocorreu graças à força da mobilizaçãoâ€, celebrou. De fato, alguns dos protestos mais acalorados que tomaram as ruas das capitais do paÃs em 2017 foram pela descriminalização do aborto e contra a PEC 181 — como contei em matéria sobre a manifestação das mulheres no Rio de Janeiro em novembro. Em outros casos, entretanto, não vimos manifestações tão fortes — nem mesmo contra a “reforma†Trabalhista do governo Temer. Além da diretora da Anistia Internacional Brasil, participaram da coletiva sobre o relatório a assessora de Direitos Humanos da organização, Renata Neder; a antropóloga Juliana Melo, que pesquisa o sistema prisional; a moradora do Complexo do Chapadão, conjunto de favelas na Zona Norte do Rio de Janeiro, Glaucia Santos, cujo filho, FabrÃcio, foi assassinado por policiais; o lÃder indÃgena Getúlio Juca, do Conselho Continental da Nação Guarani (CCNAGUA); a cearense Raimunda Dias, do grupo de mulheres mães do sistema socioeducativo do Ceará; e o advogado José Vargas Sobrinho Júnior, professor de Direito Constitucional, Direitos Humanos e Direito Eleitoral da Faculdade de Ensino Superior da Amazônia Reunida (FESAR).“Direitos devem ser garantidos. Governantes têm a obrigação de respeitar os direitos e garantir o pleno funcionamento dos mecanismos para que os direitos sejam respeitados. Crises institucional, polÃtica e econômica não são justificativa para se atentar contra os direitos humanos”, disse Werneck
Quem mais viola os direitos humanos é exatamente aquele que tem o dever constitucional de garantir os direitos de todos os cidadãos: o Estado
O Estado brasileiro, segundo a Anistia, é duplamente responsável pelo aumento da violência letal no Brasil — que registrou mais de 61 mil homicÃdios em 2017, o número mais alto de sua história. “De um lado, o Estado é responsável por conta de sua omissão e por não implementar polÃticas públicas de redução de homicÃdios. De outro, é responsável porque uma porcentagem significativa dos homicÃdios é cometida por policiais em serviço. Ou seja, são os próprios agentes do Estado que violam diretamente o direito à vidaâ€, criticou a assessora de Direitos Humanos da Anistia, Renata Neder. Parte significativa do total de homicÃdios registrados em 2017 foi cometida por policiais em serviço. Como a maior parte dos estados, segundo Neder, não compila os homicÃdios praticados por policiais em serviço, esses dados são subnotificados. “Nos estados que registram dados confiáveis de mortes praticadas por policiais, vimos que esses homicÃdios aumentaram significativamente. Um desses estados é o Rio de Janeiro, onde mais de mil pessoas foram mortas pela polÃciaâ€, afirmou.Das 644 pessoas mortas por policiais no Rio de Janeiro em 2015, 77,2% eram negras ou pardas, de acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). De acordo com o relatório, “os casos de ‘homicÃdios múltiplos’ (evento único com mais de três vÃtimas) e de ‘chacinas’ (homicÃdios múltiplos com caracterÃsticas de execuções) aumentaram em diversas cidades; geralmente, sem que as autoridades investigassem adequadamenteâ€.“Segundo estatÃsticas oficiais, policiais em serviço mataram 494 pessoas no estado de São Paulo até setembro, 1.035 no estado do Rio até novembro e 148 no Ceará até novembroâ€, diz o documento

Gláucia dos Santos, moradora do Complexo do Chapadão, na Zona Norte do Rio, onde seu filho, FabrÃcio, foi morto por policiais em 1º de janeiro de 2014. | Foto: Luiza Sansão
Também retrocedemos quando o assunto é desmilitarização. “A polÃtica de segurança seguiu o modelo já falido dos últimos anos, voltado ao confronto, focado na ‘guerra à s drogas’, com uma polÃcia profundamente militarizada”, criticou Neder. Além da manutenção de um modelo de segurança pública fracassado, “as Forças Armadas foram cada vez mais designadas a cumprir funções policiais e de manutenção da ordem pública†em 2017, de acordo com a Anistia. O maior exemplo disto está ocorrendo no Rio de Janeiro, que vive uma intervenção federal, decretada no dia 16 de fevereiro pelo presidente Michel Temer, que ocupa, desde 2016, o posto para o qual não foi eleito. Hoje o Exército está atuando na segurança pública do estado, um desvio de função que afeta especialmente a população das favelas, que já sofre cotidianamente os efeitos diretos da militarização da segurança pública. “Acreditamos que é uma medida inadequada e extrema que nos preocupa terrivelmente porque coloca em grave risco os direitos humanos da população”, disse Jurema Werneck. “A presença militar não garantiu nenhuma melhora nos indicadores de violência e na preservação dos direitos. Ao contrário, vimos graves violações de direitos humanos”.“Em janeiro [de 2017], o Ministério da Justiça anunciou um Plano Nacional de Segurança Pública que deveria se concentrar na redução dos homicÃdios, no enfrentamento do tráfico de drogas e numa revisão do sistema prisional. Entretanto, um plano detalhado e abrangente jamais foi apresentado ou implementado, e a situação da segurança pública se deteriorou durante o anoâ€, diz o relatório.

Helicóptero da PolÃcia Militar sobrevoa favela no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio de Janeiro. | Foto: Bento Fábio / Coletivo Papo Reto

Parede de casa perfurada por tiros no Complexo do Alemão. | Foto: Bento Fábio / Coletivo Papo Reto
“Enquanto eu viver vou ser a voz do meu filhoâ€
Moradora do complexo de favelas do Chapadão, na Zona Norte do Rio, Glaucia dos Santos teve o filho, FabrÃcio, morto aos 17 anos por policiais na favela na virada do ano de 2013 para 2014. “Ele foi abastecer a moto e calibrar o pneu e, saindo do posto, foi baleado na testa, com tiro de fuzil, por dois policiais militaresâ€, disse. Ela contou como a morte do filho transformou sua vida em luta e falou sobre as violações praticadas por agentes do Estado contra moradores de favelas e aintervenção federal na segurança pública do Rio. “Quando a gente vê eles já estão dentro da nossa casa, abrem nossa porta, roubam nossas coisas. Se a gente falar alguma coisa, nos xingam dos nomes mais absurdos que você pode imaginar. Misturam nosso sabão em pó, misturam nossa comida, além de matarem, mexerem na cena do crime e incriminarem os trabalhadoresâ€.Sistema prisional superlotado e presos em condições degradantes
Em janeiro de 2017, houve rebeliões em diversos presÃdios do paÃs, com pelo menos 123 mortes. “A população carcerária era de 727.000 pessoas, das quais 55% tinham entre 18 e 29 anos e 64% eram afrodescendentes, segundo o Ministério da Justiça. Uma parcela significativa dos internos – 40% no âmbito nacional – estava detida provisoriamente, situação em que costumam permanecer por vários meses até serem julgadosâ€, diz o relatório. A situação do sistema prisional do Rio de Janeiro foi agravada em 2017. De acordo com a Anistia, “no estado do Rio de Janeiro, as condições prisionais desumanas foram ainda mais degradadas pela crise financeira, pondo em risco o abastecimento de comida, água e medicamentos para mais de 50.800 presos. A tuberculose e as doenças de pele atingiram proporções epidêmicas nas prisões do estadoâ€. Um dos maiores sÃmbolos brasileiros da seletividade do sistema penal, o ex-catador de latas Rafael Braga, preso injustamente em 2013 e em 2016, contraiu tuberculose em Bangu II. Diferentemente de outros jovens que também contraÃram a doença, ele ao menos pôde fazer o tratamento em prisão domiciliar, graças à persistência de seus advogados de defesa  – do Instituto de Defensores de Direitos Humanos (DDH). Mas a maioria passa pelo tratamento em condições inadequadas, dentro do próprio sistema onde a doença se espalha. A antropóloga Juliana Melo, professora da Universidade do Rio Grande do Norte (UFRN) que pesquisa o sistema prisional brasileiro e acompanhou de perto o episódio do massacre na Penitenciária Estadual de Alcaçuz (RN) em janeiro de 2017. “Quando as pessoas reproduzem o discurso de que ‘é bandido matando bandido, então eles que se matem’, o Estado é quem sai ganhando. E o resultado é terrÃvelâ€, disse. “Se naquele contexto, houve assassinatos brutais de presos que o Estado permitiu, hoje o que temos é um assassinato lento e gradual, porque, passado um ano, a situação de Alcaçuz é pior do que antes. Porque, se naquele perÃodo, de acordo com dados não oficiais, havia 1200 presos separados em facções, hoje temos quase 2100 presos e as facções estão juntas e ameaçando constantemente de começar uma nova guerraâ€, contou Melo. O quadro de Alcaçuz hoje, segundo Melo, é de superlotação e torturas sistemáticas, não só dos presos, com relatos inclusive de choques elétricos (método utilizado contra presos polÃticos no perÃodo da Ditadura Militar), mas de seus familiares, que são submetidos a revistas vexatórias. Além disso, não há mais visitas Ãntimas, presos estão passando fome e sede. “Bandido bom não é bandido morto, bandido bom é bandido ressocializado, porque ele volta e o tratamento que ele recebe dentro da prisão, absolutamente desumano, vai reverberar quando ele voltar para a sociedade. Então, tratando-os como monstros, que é o que fazemos tanto nas penitenciárias quanto no sistema socioeducativo, eles serão monstros mesmo. E este é um projeto do próprio Estado, legitimado por nossas polÃticas, principalmente por meio da ‘guerra à s drogas’ e pela sociedade, porque a gente pensa que não há relação entre quem está fora e quem está dentro da prisãoâ€, criticou a pesquisadora.“Foram nove vezes de tortura pra ele e também pra mim”
Com relação aos direitos das crianças, o cenário descrito pela Anistia é desolador. As unidades do sistema socioeducativo continuam superlotadas e os internos, submetidos a condições desumanas e degradantes. No caso do Ceará, há prática sistemática de tortura por agentes do Estado no interior das instituições. “No decorrer do ano, aconteceram pelo menos 20 rebeliões e 37 fugas das unidades do estado. De 200 denúncias formais de tortura de adolescentes nas unidades do sistema socioeducativo do Ceará entre 2016 e setembro de 2017, somente duas resultaram na abertura de inquérito formal pelo estado, para mais investigações. As denúncias sobre a situação caótica do sistema socioeducativo do Ceará motivaram uma visita formal do Conselho Nacional de Direitos Humanos em setembroâ€, diz o documento da Anistia.
A cearense Raimunda Dias, 63, avó de João Eduardo Macedo Dias, assassinado aos 18 anos em favela de Fortaleza, após nove detenções no sistema socioeducativo, em cinco anos. | Foto: Luiza Sansão
Outros retrocessos
Liberdade de manifestação: a polÃcia reprimiu protestos com violência em diversas regiões do paÃs ao longo de 2017, usando “força desnecessária e excessiva contra manifestantes pacÃficosâ€, de acordo com a Anistia. “No que se refere ao direito a protestos, vimos iniciativas que poderiam cassar nossos direitos de reclamar, dizer não e apresentar propostasâ€, disse Jurema Werneck. Defensores de direitos humanos continuaram a ser perseguidos, ameaçados, atacados e assassinados. “O Brasil em 2017 foi também um paÃs onde defender os direitos humanos foi uma atividade de altÃssimo risco. Esteve entre os principais paÃses onde defensores de direitos humanos tiveram sua vida ameaçada e muitos foram mortos. O Estado já conhece o problema, conhece essa realidade e, no entanto, não toma as medidas necessárias para proteger a vida dessas pessoas. A maioria desses defensores ameaçados ou mortos foram aqueles que entraram na questão das terras e dos recursos naturais. São quilombolas, indÃgenas, trabalhadores rurais ameaçados ou ameaçados e mortos. E enquanto o Estado brasileiro não avançar na demarcação, na titulação das terras, os conflitos e as mortes vão continuar. Está nas mãos do Estado brasileiro apresentar uma solução para essa situação o quanto antesâ€, cobrou a diretora da Anistia. Nossos históricos conflitos por terra resultaram em muitas mortes no ano passado. O relatório cita alguns episódios especialmente violentos, como o de Colniza, no Mato Grosso, quando homens armados atacaram o assentamento de Taquaruçu do Norte, mataram nove homens e feriram várias pessoas, em abril, e o Massacre de Pau D’Arco, no Pará, em que dez trabalhadores rurais foram mortos a tiros em uma operação conjunta das polÃcias civil e militar, em maio, e pouco depois, em julho, um dos lÃderes do grupo de trabalhadores rurais, Rosenildo Pereira de Almeida, foi assassinado.
O lÃder indÃgena Getúlio Juca, do Conselho Continental da Nação Guarani (CCNAGUA). | Foto: Luiza Sansão
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