Desmilitarizar a segurança pública: o que é isso?
Publicado 02/04/2018 às 14:57
Policiais explicam o que significa uma polÃtica de segurança pública militarizada, por que é necessário desmilitarizá-la e desconstroem equÃvocos sobre o tema. Afinal, desmilitarizar não é sinônimo de extinguir a PM ou retirar seu caráter militar
Reportagem de Luiza Sansão “Não acabou! Tem que acabar! Eu quero o fim da PolÃcia Militar!â€. Quem nunca ouviu esta palavra de ordem, entoada a cada manifestação popular? Não importa o motivo do protesto, ela sempre aparece diversas vezes ao longo das passeatas. Até porque é geralmente a PM — que, por ser polÃcia ostensiva, tem a responsabilidade de fazer o controle da multidão — que reprime violentamente as manifestações, com bombas de gás, sprays de pimenta, cassetetes e nenhuma empatia. A cena é clássica e o que o grito pelo fim da PM pede, na realidade, é a desmilitarização — o que, entretanto, não tem nada a ver com a extinção da PM ou a retirada de seu caráter militar, pura e simplesmente. O que ocorre é que, embora a bandeira da desmilitarização seja praticamente uma unanimidade no campo progressista do paÃs, na prática não vemos avançar o debate sobre o que realmente representa a militarização e, consequentemente, o entendimento real sobre por que a desmilitarização se faz tão necessária. Vamos começar pela compreensão de que não se trata de uma polÃcia militarizada, mas de uma polÃtica de segurança pública militarizada. Não basta retirar o caráter militar das polÃcias — e a PM não é a única polÃcia militarizada —, é preciso desvincular as forças policiais das Forças Armadas. “Pode ter estética militar. Só não pode ter uma coisa, e é isso que caracteriza uma polÃcia militar: ser uma força auxiliar do Exército. Isso é uma polÃcia militar: uma força auxiliar do Exército. E o que significa isso? A gente ainda não aprofundou esse debateâ€. As palavras do delegado Orlando Zaccone, da PolÃcia Civil do Estado do Rio de Janeiro, introduziram um dos mais importantes temas tratados no II Seminário dos Policiais Antifascismo, que ocorreu nos dias 14 e 15 de março, como parte das atividades do Fórum Social Mundial 2018, em Salvador (BA).
Policiais militares durante operação no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro. | Foto: Bento Fabio / Coletivo Papo Reto
A primeira mesa do evento discutiu a intervenção militar no controle das polÃcias — debate mais do que oportuno, sobretudo no contexto que vivemos hoje no estado do Rio de Janeiro, sob intervenção federal desde fevereiro. Uma das principais pautas do movimento é justamente a necessidade da desmilitarização da polÃtica de segurança pública: os policiais se colocam contra a participação das Forças Armadas na área de segurança e a existência de uma polÃcia que seja auxiliar do Exército — o que, segundo Zaccone, quebra a estrutura de uma democracia no que diz respeito à s suas polÃcias.
O auditório da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia (UFBA) estava lotado. Eram dezenas de civis e agentes de instituições policiais de várias partes do paÃs. Talvez o interesse pelo tema nunca tenha sido tão grande quanto nesses tempos em que o modelo atual de segurança mostra-se tão absolutamente fracassado e ineficaz, baseado na lógica do confronto, da violência, sustentado principalmente pelo discurso falacioso da “guerra à s drogasâ€. Lá não estavam policiais adeptos do pensamento reacionário representado pela Bancada da Bala, que, infelizmente, ainda predomina nas instituições policiais, amparado por significativa parcela da sociedade. A maioria dos agentes queria conhecer as ideias dos policiais progressistas que propuseram os dois dias de debates — e se juntar a eles, como vi acontecer ao final do segundo dia do evento. Criado em 2016, o movimento Policiais Antifascismo reúne agentes das forças de segurança de diferentes estados brasileiros unidos na luta por transformações na polÃtica vigente. O grupo defende a necessidade da construção do policial como um trabalhador, para que, uma vez identificado com outras categorias de trabalhadores, ele seja também um cidadão pleno de direitos e garantidor dos direitos de todos os cidadãos — em vez de um violador, como é frequente observarmos na relação das forças policiais com a sociedade, notoriamente com as parcelas pobres que habitam as periferias. Tive a oportunidade de acompanhar a idealização e o surgimento do movimento, tendo publicado, em janeiro de 2016, a reportagem especial Eles querem uma nova polÃcia — para a qual entrevistei grande parte dos policiais que o fundaram pouco depois. E, mais de um ano antes, quando conheci policiais da LEAP Brasil (Law Enforcement Against Prohibition) — cuja tradução, no Brasil, é Agentes da Lei contra a Proibição —, escrevi sobre suas ideias na matéria Grupo de policiais defende a legalização de todas as drogas, publicada em dezembro de 2014.“A garotada na rua pede o fim da polÃcia militar. É a maneira como eles se expressam. Mas, no campo polÃtico, isso não avança em nada. Porque pode trocar de nome, mas não adianta nada se ela continuarsendo uma força auxiliar do Exércitoâ€, explica o delegado.
Militarização desumaniza e rebaixa policiais à categoria de subcidadãos
É cada vez mais conhecido pela sociedade o preço que as parcelas mais vulneráveis da população pagam pela militarização, sobretudo no que diz respeito à s constantes violações de direitos humanos praticadas por policiais contra moradores de favelas, cotidianamente. Mas muita gente ainda ignora a relação dessa realidade violenta que resulta em altas taxas de letalidade com o preço pago pelos próprios policiais dentro das instituições militares. “Policiais militares estão submetidos a condições de subcidadania. Não podem se sindicalizar, não podem fazer greve, não têm direito à livre manifestação de pensamento, não podem ter filiação partidária. São subcidadãosâ€, afirma Zaccone.
Orlando Zaccone, delegado da PolÃcia Civil do Rio de Janeiro, durante Seminário dos Policiais Antifascismo. | Foto: Luiza Sansão
Afinal, como o policial pode cumprir sua função de garantidor dos direitos dos cidadãos se ele mesmo não tem seus direitos garantidos? Esta é uma das questões que se colocam quando estamos diante das graves violações de direitos praticadas por policiais contra, principalmente, as populações faveladas e periféricas. Como esperar que pessoas sem direito à cidadania realmente respeitem a cidadania de outrem? “O que leva um policial a baixar a borracha numa manifestação de professores pela melhoria da Educação, sabendo que muitas vezes o filho do próprio policial está naquele sistema de Educação pública? É que ele não consegue se reconhecer, ele é desconstruÃdo na sua condição de trabalhadorâ€, defende Zaccone. “Só existe um momento em que o policial se reconhece como trabalhador: quando ele fica sem salário. É só quando cortam seu salário que ele lembra que é um trabalhador. Mas não pode ser isso, não podemos continuar nessa perspectiva. Nós temos que mudar esse jogoâ€.“Precisamos construir os policiais como trabalhadores para que eles possam se reconhecer na luta dos outros trabalhadoresâ€
Obediência cega e tentativa de acabar com diferenças são marcas do militarismo, diz policial LGBT
Para muitos, as principais marcas do militarismo são a hierarquia e a disciplina. Mas, para o policial rodoviário federal FabrÃcia Rosa, que foi PM durante cinco anos, as principais caracterÃsticas do militarismo são a obediência cega que sustenta essa estrutura e a tentativa de destruir diferenças. “Hierarquia e disciplina existem em qualquer lugar. Em famÃlias, em empresas. Em alguns lugares mais, em outros menos. Não são a hierarquia e a disciplina de fato que diferenciam as organizações militares. O que as diferencia, primeiro, é a obediência. É a obediência em fazer com que essa hierarquia seja implementada de tal forma que nos leva ao ponto de não questionar ordens, mesmo que elas sejam ilegais e ilegÃtimasâ€, critica.
FabrÃcio Rosa, da PolÃcia Rodoviária Federal, durante o Seminário dos Policiais Antifascismo. | Foto: Luiza Sansão
“Há uma tentativa de acabar com as subjetividades, de padronizar o pensamento, o cabelo, a roupa, a unha, o brinco. Uma padronização de tudo. Essas são, para mim, as caracterÃsticas principais do militarismo. E elas não deveriam estar presentes na segurança pública que nós propomos, que é uma segurança plural e inclusiva, na qual a comunidade policiada se pareça com quem vai lhe policiar. Que tenha mulher, imigrante, gay, que tem uma diversidade de pessoas, como existe no mundo. Esta é a segurança pública que nós propomos, com maior participação popularâ€, afirma.

Policiais militares durante operação no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio de Janeiro. | Foto: Bento Fábio / Coletivo Papo Reto
Construção de estereótipo e discriminação de gênero
Não é difÃcil imaginar que a realidade das mulheres nas polÃcias militares é dura, especialmente das praças, que sofrem assédios morais e sexuais desde que ingressam no processo de formação da PM. No Especial Assédios na PM, publicado em março do ano passado, contei histórias de policiais de diferentes regiões do paÃs, que evidenciam diversas maneiras com que o preconceito de gênero se manifesta no interior de instituições militares. “Nós construÃmos o perfil de um policial como um homem forte, que carrega o arquétipo de guerreiro. Então ele vai ser um cara bom de briga, que vai lutar, que vai estar armado. Um cara. Um cara. Porque as mulheres são excluÃdas dos processos de segurança pública. A gente tem que se juntar contra isso. É um absurdo que estejamos em 2018 e ainda precisemos falar sobre issoâ€, diz Rosa, que é gay e integra a Rede Nacional de Operadores de Segurança Pública LGBT (RENOSP).
PM no Complexo do Alemão. | Foto: Bento Fabio / Coletivo Papo Reto
Militarização não se limita à PM
O inspetor da PolÃcia Civil de Pernambuco Ãureo Cisneiros chama a atenção para o fato de a militarização não se restringir à s polÃcias militares. “A PolÃcia Civil, que era para ser diferenciada, de investigação, de inteligência, também é militarizadaâ€, afirma. “Em Pernambuco temos o Grupo de Operações Especiais (GOE), que faz treinamento militar na academia da PolÃcia Militar. Temos, na PM, o Comando de Operações Especiais (COE), que faz treinamento no Exército, uma polÃcia do Exército. E não era pra ter GOE, não era pra ter COE. Era pra focar em investigação. Porque a cada 100 homicÃdios em Pernambuco, a polÃcia só esclarece oito. Porque não assume a sua função de investigação, sua função de inteligênciaâ€, critica. “A gente cansa de ver policial fardado na própria delegacia, fazendo investigação fardado. A gente cansa de ver o GOE ajudando a PolÃcia Militar na rua em vez de fazer seu trabalho de investigação, principalmente de homicÃdiosâ€. No Rio, a situação não difere muito da descrita pelo policial pernambucano. Aqui, a Coordenadoria de Operações Especiais (Core), embora seja da PolÃcia Civil, nas operações realizadas em favelas, opera de forma semelhante à s unidades da PM, como o Batalhão de Operações Especiais (Bope), por exemplo, praticando as mesmas violações de direitos humanos. “A Core é treinada para atuar de forma militarizada. O uso do Caveirão revela que uma PolÃcia  Civil pode ser tão militarizada quanto uma PolÃcia Militarâ€, diz Zaccone, referindo-se ao veÃculo blindado da PM, considerado como o “carro da morte” por moradores de favelas — como mostrei em reportagem publicada em dezembro. “As polÃcias civis em geral têm atuado de forma militarizada. Usam os mesmos equipamentos e operam na lógica do confronto, do enfrentamentoâ€, completa.
Caveirão circula por favela do Complexo do Alemão. | Foto: Bento Fábio / Coletivo Papo Reto
O embrião da militarização da segurança pública no Brasil
Após o fim da Ditadura Militar brasileira (1964-1985), os militares deram um jeito de não largar completamente o osso. No perÃodo posterior à promulgação da Constituição Federal de 1988, eles se entranharam na área da segurança pública com outros “dois golpesâ€, segundo Orlando Zaccone: além do estabelecimento de uma polÃcia que fosse uma força auxiliar do Exército, foi incluÃdo na Constituição o artigo 142, que o delegado chama de “ovo da serpenteâ€. É ele que regula as operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que “concedem provisoriamente aos militares a faculdade de atuar com poder de polÃcia até o restabelecimento da normalidadeâ€, de acordo com o portal do Ministério da Defesa. Trata-se, portanto, do dispositivo que possibilitou a militarização da intervenção federal que está em curso no Rio de Janeiro — sendo que a intervenção federal, em si, baseia-se no artigo 34.
Helicóptero da PolÃcia Militar sobrevoa favela no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio de Janeiro. | Foto: Bento Fábio / Coletivo Papo Reto
Uma “quebra†na democracia
“O povo escolhe o governador. Cabe a esse governador ter plena autonomia sobre essa polÃcia, porque nós, cidadãos, ao elegermos esse governador, podemos cobrar dele ações dessa polÃcia. Isso aconteceu no Rio de Janeiro no Caso Amarildoâ€, explica o delegado, que foi diretamente responsável pelo não arquivamento do referido caso, no qual atuou.O morador da Rocinha Amarildo de Souza desapareceu em 14 de julho de 2013, quando foi levado por policiais militares da Unidade de PolÃcia Pacificadora (UPP) local. Na época, afirmaram que ele era um traficante e o caso quase se tornou mais um entre os milhares de desaparecimentos do Estado, até Zaccone, então titular da 15ª DP (Gávea), assumi-lo e mudar o rumo das investigações, posteriormente passadas à s mãos da Divisão de HomicÃdios da Capital do Rio de Janeiro, que concluiu que a vÃtima havia sido barbaramente torturada até a morte pelos policiais, também responsáveis pela ocultação de seu cadáver.“As primeiras manifestações na rua eram: ‘Cabral, cadê o Amarildo?’. E foi só por isso que o caso teve uma atenção tão grande do estado e se transformou num caso Ãmpar. Quando é que a gente viu um estado investir tantos recursos para investigar o desaparecimento de um favelado? Só foi possÃvel porque o povo gritou e Cabral se sentiu cobrado politicamente. A partir do momento em que o governador não tem plena autonomia sobre suas polÃcias, isso vai se enfraquecendoâ€, afirma.

As ruas de diversas cidades do paÃs foram inundadas de cartazes com a pergunta “Cadê o Amarildo?”, entre 2013 e 2015. | Foto: Reprodução
“Precisamos ter o controle popular das polÃcias. O povo precisa ter algum canal por meio do qual ele possa cobrar a forma como as polÃcias agem. Quando você retira isso do governante, isso acaba. É um aspecto cruelâ€
Isto significa, segundo Zaccone, que hoje não vivemos de fato em uma democracia. “As polÃcias civil e militar estão governadas por um interventor, e um interventor indicado por um presidente ilegÃtimo! É o fim do mundo! Podemos falar que vivemos numa democracia? Um presidente ilegÃtimo indica um interventor que vai fazer o gerenciamento todo da polÃcia, inclusive no que diz respeito à questão econômica, à gestão dos recursos. É tudo com ele. O governador não tem hoje no Rio de Janeiro mais nenhuma gerência sobre as polÃcias. Isso, por si só, é o fim da democraciaâ€, encerra.Sem publicidade ou patrocÃnio, dependemos de você. Faça parte do nosso grupo de apoiadores e ajude a manter nossa voz livre e plural: apoia.se/outraspalavras
