PM invade casas sem mandado e agride pessoas na Maré, relatam moradores
OutrasPalavras
Publicado 28/11/2017 às 13:12
Durante operação no conjunto de favelas, na Zona Norte do Rio, nesta segunda-feira (27), ONG Redes de Desenvolvimento da Maré atendeu casos de violência de Estado contra moradores. Um deles foi o de um jovem negro mantido em cárcere privado por policiais
Reportagem de Luiza Sansão Moradores da Maré, conjunto de favelas na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, relatam diversas violações de direitos praticadas por policiais militares durante operação realizada nesta segunda-feira (27). Invasões de casas sem mandado, agressões fÃsicas e ameaças contra moradores estão entre as violências relatadas. Equipes dos batalhões de Choque (BPCHq) e de Ações com Cães (BAC) deram inÃcio à operação por volta das 5h da manhã nas favelas Nova Holanda, Parque União e Rubens Vaz. No inÃcio, ouviram-se alguns disparos, segundo moradores, mas os tiroteios intensos que aterrorizam a comunidade quando há operações deram lugar, ao longo de horas, a um profundo silêncio — aterrador —, com muitos policiais a pé pela Maré, além do Caveirão. No meio da tarde, o silêncio foi rompido por mais barulhos de tiros. A operação só terminou por volta das 17h. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, 19 unidades escolares municipais foram fechadas — 11 escolas, três creches e cinco Espaços de Desenvolvimento Infantil —, deixando 6.616 estudantes sem aulas.
Foto enviada à ONG Redes de Desenvolvimento da Maré
Moradores relatam violências em redes sociais
Diversos moradores da Maré, cujos nomes não serão revelados para evitar expô-las a riscos, manifestaram-se, em redes sociais, sobre situações ocorridas durante a operação, que durou cerca de dez horas. “Mais cedo, logo no começo da operação, arrombaram portão onde minha irmã mora, entraram na casa dela. Fizeram várias perguntas, mostraram fotos, porque antes de ela ir morar lá parece que encontram maconha que eles disseram. Eles quebraram a parede e falaram ‘se tiver alguma coisa aqui vocês vão conversar em Bangu’â€, escreveu uma pessoa moradora em rede social. Uma pessoa relatou que policiais quebraram sua loja toda: “Como pode isso!!! Meus sorvetes que comprei ontem, comeram tudo jogaram no chão os pães de hambúrguer! Minhas balas estão tudo no chãoâ€, revoltou-se, na postagem. “Quando isso vai acabar? Estes policiais que abusam de sua autoridade e humilham os moradores. Em vez disso poderiam requerer seus salários e ir pra cima do governo que é o verdadeiro culpado por tanta coisa ruim está acontecendo no Brasilâ€, questionou outra. A página Maré Vive denunciou que policiais incendiaram uma moto, como mostra a imagem abaixo:
Imagem: Reprodução Facebook
A página fez atualizações, ao longo do dia, relatando outros abusos praticados na operação:
Questionada sobre violações, PM responde sobre apreensões
A reportagem perguntou à PMERJ, por meio de sua assessoria de imprensa, que equipes participaram da operação, qual a motivação exata da operação e seu tempo de duração. E questionou: há relatos de moradores de que policiais invadiram casas sem mandado, agrediram e ameaçaram moradores, além de terem mantido um jovem em cárcere privado por horas. Como a PMERJ se posiciona a esse respeito? A instituição nada respondeu acerca dos relatos de violações, limitando-se a enviar a seguinte nota, que dá conta somente das equipes que participaram da operação e apreensões de drogas, armas e munições:“Na manhã dessa segunda-feira (27/11), policiais militares das Unidades subordinadas ao Comando de Operações Especiais (COE) – BOPE, BPChq, BAC e GAM –  além do setor de inteligência do COE, realizaram operação nas comunidades Parque União e Nova Holanda no Complexo da Maré. Na ação os policiais apreenderam  um fuzil AK 47, um revólver calibre 32, cinco munições calibre 32, 720 kg de maconha, 15 kg de pasta base cocaÃna, cerca de 30 gramas de cocaÃna, 25,5 gramas de crack, um veÃculo, duas empunhaduras de fuzil G3, uma armação de fuzil 762 sem a coronha, quatro carregadores de fuzil G3, um rádio comunicador com base e duas CNH com nomes diferentes. Um homem ainda não identificado foi preso. Operação encerrada. As ocorrências seguiram para registro na 21ªDPâ€.À PolÃcia Civil, por meio de sua assessoria de imprensa, a reportagem perguntou que ocorrências relacionadas à operação foram registradas e, especialmente, se moradores prestaram queixas sobre violações de direitos humanos praticadas por policiais, tais como invasões de casas sem mandado, agressões, ameaças ou cárcere privado. Até esta publicação, o único retorno foi de que as informações seriam verificadas junto à unidade da área.
Outras Palavras é feito por muitas mãos. Se você valoriza nossa produção, seja nosso apoiador e fortaleça o jornalismo crÃtico: apoia.se/outraspalavras
