Torcida única nos estádios esconde omissão policial e premia intolerância
Publicado 05/04/2016 às 04:03
Poder público deseduca ao perpetuar o pensamento binário excludente; proibição do governo paulista naturaliza lógica do “nós ou eles”, presente também na polÃtica
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
Nove entre dez analistas sérios de futebol rejeitam a decisão do governo paulista de impor a torcida única nos estádios. Mas a medida é ainda mais preocupante se pensarmos que ela não apenas reprime de forma irresponsável as torcidas organizadas (e não suas facções violentas), para eleitor ver. Pois ela, na prática, naturaliza a intolerância, torna-a a baliza para nossas formas mais elementares de organização, de expressão popular. E não estamos a falar aqui apenas de lazer, o que já seria muito; mas também de polÃtica.
Eu, palmeirense, aprendi a admirar a torcida do Corinthians em um jogo no Morumbi, nos anos 90. Ela pulava tanto do outro lado que o estádio tremia. E se tratava de uma festa, da alegria de torcedores (terrivelmente equivocados em suas escolhas clubÃsticas) apaixonados por um time que não é o meu. Para os sábios que comandam com jogo de cena a Secretaria de Segurança Pública, a solução para as brigas de torcedores – que ocorrem fora, e não dentro, dos estádios – é acabar com essa alteridade.
O que faz o mundo ficar ao mesmo tempo mais triste e mais perigoso. Em um contexto de emergência dos fascistas, por todo o Brasil, de gente intolerante à cor vermelha porque ela representaria um determinado partido (ou o comunismo que conseguem enxergar em um governo de centro), esse tipo de medida ensina a cada criança – corinthiana, palmeirense, são-paulina – que o lugar de cada pessoa é amontoada ao lado de quem pensa e se veste igual; e não interagindo com as demais. Com as diferenças.
Triste o paÃs que deseduca. E deseduca para disfarçar as omissões históricas desse governo (o paulista, no caso, embora valha para os demais) no que se refere à prevenção efetiva da violência. Pois então não temos inteligência policial suficiente para detectar quais são as lideranças truculentas, quais as movimentações de risco entre os torcedores? A mesma polÃcia que investe fortunas em mais equipamentos para reprimir estudantes e manifestantes não consegue identificar quais são aqueles que incitam o ódio e comandam os espancamentos de adversários?
Essa polÃcia não consegue identificar ou não quer identificar? Será interessante para um governo conservador ter vilões de plantão, identificáveis somente após cometerem os crimes (e depois, serem soltos), já que ninguém fala mais mesmo do PCC (até mesmo a taxa de homicÃdios diminuiu, por conveniência da própria facção criminosa)? A narrativa desse embate está sendo negativa ou positiva para os polÃticos? Será que de fato se trata de uma ação impotente do governo estadual ou de uma projeção calculada de demonstrações de potência pontual?
Os torcedores violentos serão os novos black blocs possÃveis? Aqueles que o governo pode invocar – pelo medo cuidadosamente cultivado na população – para criminalizar todo um movimento muito maior, mais amplo? (Coincidentemente são os torcedores organizados que têm sido, com seus cartazes que a Globo não mostra, a maior mÃdia sobre os desvios da merenda em São Paulo.) E, com isso, afirmar seu tom repressor, para agradar eleitores de direita, cada vez mais binários, mais linchadores, mais excludentes e intolerantes?
Teorias conspiratórias (ou análises polÃtico-partidárias) à parte, voltamos à questão: é legÃtimo jogar a toalha em relação à possibilidade de que tenhamos arenas, de fato, públicas? Que, como tais, possam ser utilizadas pela população como um todo, por indivÃduos livres, e não apenas adeptos de determinado pensamento único? (Torcida única, uniforme único etc.) Será mesmo impossÃvel que os paulistas possam conviver, entre si, como se convive em uma democracia, com respeito à s divergências? A quem interessa unificar os que odeiam e separar os que se respeitam?
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