Repressão histórica da PM em São Paulo tem centenas de testemunhos
Publicado 13/01/2016 às 05:23
“No momento meu primo de 19 anos, moleque de tudo, estudante de arquitetura, está no hospital sendo operado. ele tomou uma bomba de gás da PM na mão, teve fratura exposta e um tendão rompido”. (Paula Sacchetta, no Facebook)
“Foi um massacre, ontem! Todos apanhamos… Jogaram bombas na minha direção sendo que estava com uma mulher ferida nos braços”. (Erick Vinicius Borges, no Facebook)
“E as Bombas explodem no vale e por aqui na Xavier de Toledo. Truculência, violências generalizadas, espancamentos covardes”. (Ãtila Pinheiro, no Facebook)
ATROPELAMENTO
“Ninguém me contou, eu vi. Por volta das 20h, na esquina da Consolação com a Maria Antônia, meia dúzia de policiais em motocicletas perseguiam um manifestante que fugia pela rua da Consolação, subindo em direção à Paulista. As motos atropelaram propositalmente o manifestante, que caiu e bateu a cabeça no meio-fio”. (Ãcaro Vilaça, no Facebook)
“Depois de você ver um jovem ser atropelado por policiais de forma proposital e ser lançado no chão, perseguido por aproximadamente cinco motos, que lançaram o jovem na calçada que você estava e não poder fazer nada, porque muitos outros policiais te cercam e não deixam você filmar… Você se sente um impotente que não pode fazer nada”. (Fernando Rocha, no Facebook)
‘VOU QUEBRAR SEUS DENTES’
“O motorista tirou a arma de fogo letal de dentro do carro para me fazer parar. Joguei minha mala no chão e eles mandaram eu abrir as pernas e colocar a mão na cabeça de costas. Neste momento eles gritaram:
— Sua mala está pesada né? Tem explosivo a� – Fiquei com muito medo de eles implantarem algo. — Você tem passagem na delegacia? O que faz da vida?
Eu respondi que não tinha, que era estudante e trabalhador de carteira assinada, que estava lá porque era contra o aumento.
– Repete para mim: você tem sorte de estar vivo – repeti – é a primeira vez que te vejo aqui, se eu te ver de novo em manifestaçãozinha de esquerda vou quebrar seus dentes e você vai cuspir um a um.
Estava com muito medo, mas tentei olhar as identificações dele. Eles não deixavam.
— Olho nos meus olhos seu vagabundo, vou dar um tapa nessa orelha com brinco até rasgar ele fora.
Depois disso eles tiraram dezenas de fotos minhas, do meu rosto com RG etc.
— Você tá no meu “book†agora, se eu te pegar de novo vou te estraçalhar.
Eles revistaram minha mala inteira, ficaram me aterrorizando. Depois que terminou eu segurava minha camiseta para cima pois ela encostava no machucado do estilhaço da bala e ardia muito.
– Tomou bala é? Isso é menos do que você merece, eu tô com vontade de te encher de porrada aqui. Tira essa camiseta do partido e põe na mala que cê tá liberado, cê entendeu?
Foi horrÃvel, mas eu tive de tirar a camiseta que expressa minha posição polÃtica e colocar dentro da mala como se eu tivesse vergonha dela. Eu tinha outra camisa que ele me obrigou a vestir e fui embora”. (Raul Santiago, na página do PSOL)
‘OLHOS ARDIAM, MAS SEM LÃGRIMAS’
“A bomba de gás estourou no saguão externo do Instituto Cervantes, dali alguns segundos a fumaça iria se espalhar, fazer os olhos arderem, dificultar a respiração, atordoar ainda mais os sentidos. (…)
A primeira descida foi no momento do desespero inicial. Com bombas explodindo nas costas e uma numerosa tropa militar à frente restou a mim e a muitas outras pessoas encarar o confinamento. Respirar a fumaça que invadiu o espaço, ouvir o barulho das bombas lá fora e saber-se completamente sem saÃda. Voltar para o subsolo não era um horizonte razoável.
Mãos ao alto, tal como civil na linha de frente da guerra, caminhei na direção da avenida Paulista. Contei que o próximo disparo demoraria tempo suficiente para que pudesse me render. Ganhei a rua, mas a liberdade parecia inalcançável.
À frente o enorme buraco do túnel que cruza por baixo da praça do Ciclista, intransponÃvel trincheira. À esquerda duas fileiras de policiais militares em formação perfilados na frente dos homens com escopetas em punho. Dali, a menos de 10 metros, era de onde saia o terror em forma de arma quÃmica.
Caminhei em direção a eles, um passo, talvez dois. Aos berros, mandaram-me voltar. Consegui ver que as pistas da avenida do outro lado estavam livres, bastava contornar o gradil que isolava o buraco para afastar-me do centro do massacre de terror.
Consegui chegar à retaguarda, onde outra linha de policiais com mais escopetas e menos escudos estava posicionada. Novamente meu rumo foi definido por um berro vindo de um policial militar. Deveria me posicionar atrás da linha e não na lateral.
Parei em frente à igreja, os olhos ardiam, mas sem lágrimas. Centrei-me em respirar vagarosamente para não absorver mais gás tóxico. As mãos tremiam. O pior passou”. (João Lacerda)
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