Reitor da USP demoniza “mascarados” para justificar violência da PM

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Excessos de alguns manifestantes não podem servir de justificativa para transformar um espaço de moradia (com crianças, deficientes) em uma praça de guerra

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A reitoria da USP divulgou nota sobre os acontecimentos de ontem. Vamos observar atentamente a narrativa, para identificar até onde o reitor Marco Antonio Zago pode ter razão e onde ele perde completamente as estribeiras, a justificar o injustificável. O texto da USP vai em itálico. Em corpo normal, meus comentários. Vejamos:

Reitoria é invadida violentamente por mascarados

“Mascarados”, caro reitor? Eles são estudantes. Isso me lembra o Willian Bonner, em 2013, falando dos “vândalos e baderneiros” das manifestações pelo passe livre. (Zago compõe uma narrativa para identificar os inimigos: os “mascarados”. Assim, qualquer coisa que os estudantes façam ou tenham feito estará errada.)

Na tarde de ontem (16/06), um grupo de manifestantes, grande parte deles com os rostos cobertos, invadiu violentamente o prédio da Reitoria. Ato contínuo, o grupo forçou a entrada na sala do Conselho Universitário, onde ocorria reunião do Conselho de Graduação, em que se discutia uma proposta para aumentar a inclusão social na Universidade.

O reitor diz que eles invadiram violentamente, mas não demonstra. Os atos de violência precisam ser identificados. Quais? Fica parecendo que o crime maior desse grupo de estudantes foi cobrir os rostos, e não “invadir violentamente”. Lançaram rojões? Quebraram algo? Ameaçaram a integridade física de alguém?

Posteriormente, em assembleia realizada no estacionamento da Reitoria, a maioria dos manifestantes votou pela NÃO ocupação de quaisquer prédios da Reitoria, após o que o grupo retirou-se da edificação.

Aqui se usa a palavra “ocupação”. E não “invasão”. Reconhecendo, em ato falho, que é possível haver uma ocupação democrática, politicamente legítima. Ou seja, uma ocupação.

No entanto, por volta de uma hora depois, um grupo de cerca de 50 pessoas, contrariando até mesmo a decisão da assembleia, tentou invadir o bloco K do prédio da Administração Central, atacando agentes da Guarda Universitária que faziam a segurança do local. Nesse momento, foram danificadas a entrada do edifício e uma viatura da guarda, conforme se vê em imagens amplamente divulgadas pela mídia.

Esta é a parte em que o reitor está coberto de razão. Se a assembleia estudantil decidiu por não ocupar nada, por que os estudantes fizeram o contrário? Em 2011 não foi assim. Houve uma decisão em assembleia – que eu mesmo testemunhei. Alguns setores estudantis precisam decidir se respeitam ou não assembleias. Se não respeitam, que assumam.

Diante do descontrole e do risco postos pela situação, a Polícia Militar – um contingente que não incluiu integrantes da Polícia Comunitária – foi obrigada a intervir, contando com a autorização da Reitoria e o respaldo de decisão judicial, a fim de garantir a integridade física dos agentes da Guarda Universitária e a preservação do patrimônio público. Houve reação por parte dos manifestantes, que passaram a lançar pedras e outros objetos em direção à PM, a qual tomou providências exigidas pelas circunstâncias.

Pois é, por que polícia comunitária se a reitoria pode chamar a Tropa de Choque, né? “Obrigada a intervir”. Claro que a agressão a agentes da Guarda Universitária não tem justificativa, caso tenha ocorrido. A questão é: está valendo transformar a região de uma moradia estudantil – onde moram crianças, mulheres grávidas, pessoas com deficiência – em uma praça de guerra? O reitor quer punir a sala inteira (com palmatória e tudo) porque um grupo de alunos se excedeu? A desproporcionalidade é evidente.

A USP lamenta que, em um campus universitário, ambiente em que se espera respeito e tolerância entre os membros da comunidade universitária, grupos muito reduzidos tentem infligir, pela força, prejuízos aos alunos e servidores da Universidade e, em última instância, a toda a sociedade, que destina recursos à USP na expectativa de que todos se empenhem pelo melhor desempenho possível das atividades de ensino, pesquisa e extensão.

Truco, reitor. Que tal a sociedade fiscalizar a destinação dos recursos da USP? Para que eles não beneficiem, por exemplo, grandes corporações, ou modelos econômicos – como o agronegócio, como se faz em Piracicaba – que têm impactos sociais e ambientais severos? E que tal eleição direta para reitor, para que essa figura não represente apenas um “grupo muito reduzido”? (De fato alguns grupos minoritários de estudantes têm ímpetos igualmente autoritários. Mas não é com bala de borracha que se vai resolver isso.)

Por outro lado, deve ser destacado que a Administração da Universidade não pode assistir, de forma inerte, aos atos violentos e ilícitos perpetrados. Em razão disso, a USP não fugiu ao seu dever de tomar as providências necessárias para a segurança de seus alunos e servidores, além do patrimônio público. 

É o mesmo argumento utilizado pelas polícias de todo o Brasil para reprimir manifestações. Mas somente aquelas que incomodem o status quo. Sim, o “patrimônio público” deve ser preservado. Não a qualquer custo. Não constrangendo e ameaçando centenas de pessoas – que estejam ou não participando do protesto. O suposto “dever” da USP acaba onde começa a violação de direitos elementares. Ou a integridade física dos moradores do Crusp é menos importante que o patrimônio?

Espera-se que ocorrências como as de ontem sirvam, ao menos, para que cada membro da comunidade universitária reflita cada vez mais sobre o que se espera das pessoas que integram uma universidade pública, gratuita e de qualidade incontestável.

Espera-se que violências como a de ontem ensinem o reitor a não chamá-las de “ocorrências”. Que ele reflita mais sobre as pessoas, em particular aquelas que, historicamente, são as que defendem a condição pública e gratuita dessa universidade.

Por fim, apesar das agressões dos que dizem defender a inclusão social, mas que, na prática, sabotam as medidas que vêm sendo adotadas com este fim, a Reitoria reafirma que seguirá firme nessa direção, promovendo medidas que propiciem a inclusão social na USP.

Quem sabota o quê, reitor? Que medidas de inclusão social foram impedidas pelos estudantes? Alguns deles fazem muita bobagem, é fato. Mas quem tem o poder na mão é você, Marco Antonio Zago. É uma falácia dizer que eles lutam contra a inclusão. Podem ser meio atabalhoados e até injustos (como no caso da aula magna com o professor José de Souza Martins, no início do ano), mas são eles que martelam as pautas inclusivas. Não a reitoria.

São Paulo, 17 de junho de 2016.

Reitoria da USP

Respondo na mesma data. Alceu Castilho, jornalista (formado na Universidade de São Paulo) e estudante da USP.

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