Reflexões sobre fascismo (IV) – Hannah Arendt

“A ralé odeia a sociedade da qual é excluída”, dizia a __ alemã; para atacar os judeus, a aristocracia apresentou à ralé “uma série de escândalos e fraudes públicas” Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho) Nada substituiria uma leitura completa e atenta de “As Origens do Totalitarismo” (1951), um clássico de Hannah Arendt. Mas tomemos um trecho do livro da filósofa alemã – centrado no nazismo e no stalinismo – que nos convida a refletir sobre certos mecanismos políticos (ainda atuais) de demonização de adversários e de utilização das massas menos esclarecidas; ou mais raivosas. Ao diferenciar “ralé” de “povo” ela aponta algumas dessas tendências: A ralé é fundamentalmente um grupo no qual são representados resíduos de todas as classes. Ê isso que torna tão fácil confundir a ralé com o povo, o qual também compreende todas as camadas sociais. Enquanto o povo, em todas as grandes revoluções, luta por um sistema realmente representativo, a ralé brada sempre pelo “homem forte”, pelo “grande líder”. Porque a ralé odeia a sociedade da qual é excluída, e odeia o Parlamento onde não é representada. Os plebiscitos, portanto, com os quais os líderes modernos da ralé têm obtido resultados tão excelentes, correspondem à tática de políticos que se estribam na ralé. Um dos mais inteligentes líderes dos adversários de Dreyfus, Déroulède, clamava por uma “República através do plebiscito”. A alta sociedade e os políticos da Terceira República haviam apresentado à ralé francesa uma série de escândalos e fraudes públicas. Invadia-os agora um tenro sentimento de familiaridade paterna por seu rebento, um sentimento misto de admiração e medo. O menos que a sociedade podia fazer por sua filha era protegê-la com palavras. Enquanto a ralé tomava de assalto as lojas dos judeus e os agredia na rua, a linguagem da alta sociedade fazia com que a violência, intensa e verdadeira, parecesse inócua brincadeira de criança. O mais importante dos documentos contemporâneos a esse respeito é o “Memorial Henry” e as várias soluções que propunha para a questão judaica: os judeus deviam ser despedaçados como Marsias na lenda grega; Reinach devia ser jogado vivo num caldeirão de água fervente; os judeus deviam ser cozidos em óleo ou furados com agulhas até morrerem; deviam ser “circuncidados até o pescoço”. Um grupo de oficiais revelou-se muito impaciente de experimentar um novo tipo de canhão nos 100 mil judeus do país. Entre os subscritores havia mais de mil oficiais, inclusive quatro generais da ativa e o ministro da Guerra, Mercier. O número relativamente alto de intelectuais” e até de judeus que constavam da üsta é surpreendente. As classes superiores sabiam que a ralé era a carne da sua própria carne, e o sangue do seu próprio sangue. Até um historiador judeu da época, embora houvesse visto com os próprios olhos que os judeus não têm nenhuma segurança quando a ralé impera nas ruas, falou com secreta admiração do “grande movimento coletivo”. Por outro lado, nem tudo é desesperança:
A redução do homem a um feixe de reações separa-o tão radicalmente de tudo o que há nele de personalidade e caráter quanto uma doença mental. Mas quando, como Lázaro, ele se ergue dentre os mortos, reencontra inalterados a personalidade e
o caráter, exatamente como os havia deixado. Como o horror não altera o caráter do homem nem pode deixá-lo melhor ou pior, também não pode tornar-se a base de uma comunidade política ou de um partido.
LEIA MAIS: Reflexões sobre fascismo (I) – Umberto Eco

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