Reflexões sobre fascismo (I) – Umberto Eco
Publicado 25/02/2016 às 03:12
“Uma das caracterÃsticas dos fascismos históricos tem sido o apelo à s classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação polÃtica”
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
O artigo completo do escritor italiano (1932-2016) está no Opera Mundi: “Umberto Eco: 14 lições para identificar o neofascismo e o fascismo eterno“. É longo. Fruto de uma conferência proferida em 1995, na Universidade Columbia. Mas vale pinçar alguns pontos para pensarmos em outros fascismos possÃveis.
Qual seria o papel da classe média?
6. O Ur-Fascismo provém da frustração individual ou social. O que explica por que uma das caracterÃsticas dos fascismos históricos tem sido o apelo à s classes médias frustradas, desvalorizadas por alguma crise econômica ou humilhação polÃtica, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. Em nosso tempo, em que os velhos “proletários†estão se transformando em pequena burguesia (e o lumpesinato se auto exclui da cena polÃtica), o fascismo encontrará nessa nova maioria seu auditório.Â
A expressão Ur-fascismo é definida também como “fascismo eterno”.
O quarto e o quinto ponto também valem ser destacados para se refletir sobre certas intolerâncias emergentes:
4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar crÃticas. O espÃrito crÃtico opera distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade cientÃfica percebe o desacordo como instrumento de avanço dos conhecimentos. Para o Ur-Fascismo, o desacordo é traição.Â
5. O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo cresce e busca o consenso desfrutando e exacerbando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou que está se tornando fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascismo é, portanto, racista por definição.Â
Sei que estamos em uma ordem regressiva (e incompleta) em relação aos 14 itens, mas pensemos agora no terceiro item:
3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. A ação é bela em si, portanto, deve ser realizada antes de e sem nenhuma reflexão. Pensar é uma forma de castração. Por isso, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes crÃticas. Da declaração atribuÃda a Goebbels (“Quando ouço falar em cultura, pego logo a pistolaâ€) ao uso frequente de expressões como “Porcos intelectuaisâ€, “Cabeças ocasâ€, “Esnobes radicaisâ€, “As universidades são um ninho de comunistasâ€, a suspeita em relação ao mundo intelectual sempre foi um sintoma de Ur-Fascismo. Os intelectuais fascistas oficiais estavam empenhados principalmente em acusar a cultura moderna e a inteligência liberal de abandono dos valores tradicionais.Â
Reunirei aqui, nos próximos dias, algumas reflexões de intelectuais sobre o tema, diretas ou indiretas.
Como diz o próprio Eco em seu artigo: “Não esqueçam”.
LEIA MAIS:
Reflexões sobre fascismo (II) – Thomas Mann
Reflexões sobre fascismo (III) – Camus, Graciliano, Adorno, Fellini…
Reflexões sobre fascismo (IV) – Sartre, Brecht, Sabato, Monsalve
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