Por que repercutimos mais Janaina Paschoal do que Marco Aurélio Mello?

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“Que tempos estranhos estamos a vivenciar”, disse o ministro do STF em entrevista; nestes tempos estamos mais próximos de sua perspectiva ou daquela da professora?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Dois momentos políticos.

1) Uma professora de Direito da USP, autora do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, faz um discurso inflamado, conforme uma tradição específica da retórica (a patética), e causa um fuzuê nas redes sociais. Surgindo como grande pauta nacional. Motiva gifs, memes (em um deles aparece como se estivesse cantando música do Iron Maiden) e avaliações generalizadas sobre seu desempenho. Em boa parte, machistas.

2) Um ministro do Supremo Tribunal Federal concede entrevista ao Roda-Viva, com perorações sisudas sobre os procedimentos legais. Com um discurso racional, equilibrado (mesmo diante de um entrevistador particularmente empolgado), oferece uma perspectiva de análise mais sóbria em relação aos rumos do país, desconectada de um sentido de urgência absoluta, como se tivéssemos a cada momento de revirar as instituições de cima para baixo.

E qual tipo de discurso repercutimos? Nós, defensores da racionalidade na política? O primeiro. Mesmo que para demoli-lo. Ou seja: Janaina Paschoal venceu. É o discurso patético o que comove, provoca, o que gera notícia. Se ela tiver algum objetivo eleitoral (o que não se pode descartar, pelo tipo de discurso adotado), pronto: conseguiu a divulgação espontânea, talvez exatamente o que quisesse. A fala ponderada de Marco Aurélio Mello manteve-se confinada a determinados nichos.

Isso significa que tendemos a promover os discursos movidos pela urgência – e não aquela urgência de fato, como as violações explícitas de direitos humanos. Já seria ruim se somente à direita se rendesse a esse espetáculo das instantaneidades, a essa perspectiva imediatista. Mas a esquerda não deixa de negar seu espaço histórico ao se tornar refém de uma lógica da bolinha de papel (e não a de longos e complexos processos): prestando-se a repetir ad nauseam determinada cena minúscula como se fosse ela maiúscula.

Como naqueles vídeos dos anos 2000 que pinçavam a entrevista de um sujeito simples (antes humilhado por algum repórter policial) e se repetia um trecho de sua fala, transformando-a em música, ou algo parecido, para ridicularizá-lo. (Sim, estou falando do Jeremias. Se o público da internet pudesse, matava mil reputações por dia. O que diz muito mais sobre nossas misérias do que sobre a formação ou expressão daquele rapaz. Ou do próximo cidadão comum a ser espezinhado em nossos paredões midiáticos.)

Não defendo o conteúdo da fala de Janaina Paschoal. Mas a forma é ainda pior. Uma fala calculada para atingir determinado público, com perfil manipulador, esvaziadora de percepções maduras sobre o cenário político. Poderia defendê-la como mulher, como defendo a presidente Dilma Rousseff (e não seu desempenho no governo), já que a postura apoplética do jornalista José Nêumanne no Roda-Viva não gerou as mesmas gozações e os mesmos memes, e ele não será chamado de descontrolado ou possuído. Mas não é este o tema do artigo.

O tema é a nossa singela adesão à agenda do retrocesso intelectual. Ou do retrocesso político. Da regressão a modalidades menos engrandecedoras do fazer político. Mesmo que tenhamos como motivação rejeitar um determinado discurso que consideramos nocivo, perigoso, como o de Janaina, é a ela que estamos dando voz – e mais voz. A metáfora dela sobre dar asas à cobra deu certo, pegou. E a trigésima repetição de Marco Aurélio Mello sobre a necessidade de respeito aos ritos jurídicos não apaixonará o internauta de plantão.

Em determinado momento da entrevista, o ministro do STF pergunta, diante de mais uma pergunta açodada: “Você quer que façamos um paredão na Praça dos Três Poderes?” E é disso que se trata: da nossa opção não apenas por fazermos paredão da presidente da vez, mas de qualquer cidadão, do Jeremias à Doutora Janaína. Talvez os discursos do Pedro Bial sejam mais sábios do que nos acostumamos a imaginar, a colocar matizes e qualidades no participante de Big Brother aparentemente mais vil ou insignificante. Adotamos a lógica das eliminações e nos esquecemos – ao menos na proporção que deveríamos – de celebrar os discursos mais equilibrados. Ou os caleidoscópios mencionados pelo ministro no Roda-Viva.

Se juristas como Fábio Konder Comparato ou Dalmo de Abreu Dallari fizerem mais um discurso sobre a situação político-jurídica (daqueles com longos períodos, em relação aos quais tenhamos de prestar atenção e tomar cuidado para não reduzi-los a uma frase qualquer), quantos de nós repercutiremos? Talvez estejamos agindo como o aluno que dorme na sala enquanto um deles fala, mas fica plenamente acordado em uma aula inflamada. O que pode significar um aval estrutural às falas incendiárias e a um determinado modo – igualmente incendiário – de percebermos a política e a cena pública. Se queremos sangue ou ranger de dentes, ranger de dentes e sangue teremos.

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