O desabafo de uma indÃgena: “Eu não quero ser como vocês”
Publicado 12/01/2016 às 16:32
https://www.youtube.com/watch?v=XIQv7c8JeFU
Silvia Nobre Waiãpi reage ao assassinato do bebê Vitor Kaingang com discurso emocionado; atriz, fisioterapeuta, tenente do Exército, ela cobra governo e sociedade
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
Qual o lugar de VÃtor Kaingang? Ele foi assassinado aos 2 anos no dia 30 de dezembro, na rodoviária de Imbituba (SC). Qual o lugar dos indÃgenas em nossa sociedade? O desabafo emocionado da tenente (atriz, fisioterapeuta) SÃlvia Nobre Waiãpi sobre a morte de VÃtor traz embutida essa reflexão – ou a denúncia de que nós, brancos, não oferecemos nenhum lugar aos povos indÃgenas. Na cidade, não pode. E, no campo, as terras são tomadas. Por exemplo, pelo agronegócio.
A degola de VÃtor não motivou grande comoção no paÃs. O principal jornal do paÃs, a Folha, só descobriu nesta terça-feira o assassinato, em texto seco sobre o pai do bebê Kaingang: Acabou com o meu mundo, diz Ãndio pai de bebê esfaqueado no litoral de SC. E é exatamente essa indiferença um dos temas do desabafo de SÃlvia, da etnia Waiãpi, do Amapá, que já fez pontas como atriz na Globo, é fisioterapeuta e tenente do Exército:
“Eu não quero ser como vocês. Não. Não assim. Que silencia diante de tanta dor e que não tem coragem pra ficar do lado daquilo que é certo”.
Pela importância do depoimento, transcrevemos o texto do vÃdeo (que começa com uma saudação em seu idioma). Embora possa ser questionado em alguns aspectos, como na associação entre direitos humanos e defesa de bandidos, trata-se de um tapa na cara da civilização ocidental:
“Não, não está nada bem.
Não vim aqui dizer o quanto que estou feliz, o quanto que eu venci na vida, ou que a sociedade é linda.
Eu vim aqui falar do VÃtor. VÃtor Kaingang.
Uma criança de 2 anos que foi degolada em plena praça pública, enquanto mamava no seio da mãe.
Eu queria saber aonde está a Comissão de Direitos Humanos, que até agora não se manifestou.
Só nós, indÃgenas, estamos nos manifestando, repudiando esse ato grosseiro, inimaginável.
Uma criança de 2 anos sendo degolada em praça pública!
Ah, porque ele é Ãndio.
Ele não podia ir pra cidade.
A famÃlia dele não podia ir pra cidade.
Os Ãndios não podem ir pra cidade.
Nós lutamos tanto por inclusão social, e o que nós vemos é sabe o quê?
Que quando nós vamos pra cidade, a cidade não nos aceita.
Mas querem plantar em nossa terra.
Querem invadir as nossas terras.
Pra quê?
Pra plantar o arroz, pra plantar o feijão, pra produzir a soja, pra plantar a banana, plantar tudo que vocês comem na cidade.
Que vocês podem ir no supermercado pra comprar.
Então você tem o direito de invadir, você tem o direito de usar aquilo que era nosso e que é nosso.
Mas nós não podemos ir na cidade.
Porque nós seremos degolados.
Você sabia que aquilo que você come, na sua casa, está manchado de sangue?
Sabe por quê?
Porque os homens do agronegócio mandaram matar o nosso povo!
Pra você poder comer…
E só vocês que têm direito à comida.
Só vocês que podem comer. Eu não posso.
Eu não tenho direito à água gelada, eu não tenho direito à energia elétrica, porque eu sou Ãndia.
Parabéns, sociedade.
Por que vocês não fazem nada?
Porque não é o filho de vocês.
Era só uma criança indÃgena.
Menos um. Menos um Ãndio na sociedade.
Mas eu duvido que se fosse UMA CRIANÇA BRANCA, branca, uma não indÃgena, todos estavam aÃ, nas praças, andando, contra, fazendo manifestação.
Hipócritas!
Que dor…
Que dor.
Isso nunca vai acabar.
Nós ainda estamos em 1500.
É loucura imaginar isso, mas nós ainda estamos em 1500.
Aonde um cidadão brasileiro se acha no direito de degolar uma criança indÃgena, enquanto mama no colo da mãe.
Vai ficar como?
VÃtor Kaingang vai desaparecer da história?
Querem eliminar VÃtor Kaingang.
Assim como vocês eliminaram o Galdino. O Galdino Pataxó.
Queimado vivo em BrasÃlia.
Parabéns, sociedade.
Eu não sei o que dizer.
Eu não sei dizer pra vocês que dói.
E nenhum de vocês de direitos humanos foi consolar a mãe do VÃtor Kaingang.
Vocês, parlamentares, vocês que fazem as leis, por que vocês fazem tantas leis se vocês não cumprem?
E essa criança vai ficar como?
E essa mãe vai ficar como?
Ela não tem direito a voz.
Ela não tem direito a identidade.
Ela não tem direito a cultura.
Porque ela é Ãndia.
Porque ela é Ãndia.
Gente, é inadmissÃvel que você fique na sua casa, que você não cobre nada de ninguém.
Vendo um povo ser assassinado.
Nós não somos bandidos.
Nós temos uma forma diferente de pensar e de agir.
Foram vocês que vieram pra cá.
Vocês são fruto desse povo que veio pra cá nos destruir.
Por favor, faça alguma coisa.
Porque nós, indÃgenas, estamos fazendo. Eu estou fazendo.
Nós estamos estudando. Nós estamos fazendo tudo aquilo que podemos.
Pra não permitir que isso de novo aconteça.
Que nunca mais isso aconteça.
Mas o que há de se esperar de um paÃs que vai fazer legislação a favor de bandido?
Porque é isso o que tá acontecendo.
Sociedade, acorda.
Sociedade, acorda. Era uma criança indefesa, gente.
Mamando no colo de sua mãe.
E se aproxima um não Ãndio, um branco, e corta a garganta dela.
Se fôssemos nós, ah, era um bando de selvagens.
São selvagens. É só isso que nós ouvimos.
Que somos selvagens, que somos sujos, que não sabemos falar bem o português.
Eu estou falando bem o português, eu falo bem português.
Eu não quero ser como vocês.
Não. Não assim. Que silencia diante de tanta dor e que não tem coragem pra ficar do lado daquilo que é certo.
É inadmissÃvel perceber que nós estamos em 2016 e parece que voltamos no tempo.
Ou parece que nunca saÃmos de 1500.
Justiça para os Kaingang.
Justiça para VÃtor.
Se a polÃcia mata um bandido, o governo tem que indenizar a famÃlia.
E a vÃtima? Quando um bandido mata um cidadão brasileiro.
E VÃtor?”
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