Mortos por causa da chuva? Que um jornalismo sério discuta o direito à terra
Publicado 12/03/2016 às 12:02
Apresentadores com caras compungidas poderiam convencer seus chefes a pautar os temas que poderiam, nos próximos anos, ajudar a salvar outras vidas
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
A matança de brasileiros pobres por soterramento e afogamento continua. E a imprensa tergiversa. Como se fosse a chuva a culpada. Tivéssemos um jornalismo sério, bem informado, comprometido com os direitos humanos elementares, estarÃamos discutindo o direito à terra – na cidade e no campo. Pois é pela não efetivação desse direito que essas pessoas morreram. E outras centenas vão morrer, nos próximos anos, em São Paulo, Petrópolis ou na próxima encosta ocupada por espoliados. Não é tragédia. É massacre.
De nada adianta apresentadores da Globo fazerem caras compungidas, soltarem exclamações de falsa surpresa. Como se essas cenas não fossem previsÃveis. Como se o direito de cada ser humano a um pedaço de terra não tivesse sido usurpado – como já nos ensinava Rousseau – por um punhado de espertalhões. Como se os camponeses não tivessem sido expulsos do campo, seja por pressão econômica, seja a bala, por jagunços ou policiais, em um processo histórico escandaloso de grilagem de terras. Que continua.
E como se essas pessoas não tivessem de morar em algum lugar. Já que não podem desafiar as leis da FÃsica. Elas precisam trabalhar – a serviço dos que as exploram – para manter esse sistema sórdido. E, sim, viver embaixo de um teto. Onde? Se as terras sem risco de desmoronamento estão ocupadas pelo capital, se a nossa Justiça segue optando pelos despejos, se os nossos Pinheirinhos se multiplicam? Empurramos boa parte de nossos trabalhadores para condições subumanas de moradia e ainda nos surpreendemos quando a chuva precipita nosso cinismo.
Qualquer geógrafo, geólogo ou engenheiro sério dirá que essas pessoas não poderiam morar onde elas moram. Ou que a ocupação foi ordenada, e não desordenada: ordenada a favor dos que têm dinheiro. E qualquer editorialista, editor ou pauteiro só se lembrará desses brasileiros, de forma protocolar, quando houver vÃtimas em escala. Sem contar ao leitor que o jornal patrocina esse sistema, legitima diariamente essa lógica da expulsão de seres humanos para as bordas, para o limite do razoável, para as zonas de risco. Cada morto leva também a assinatura da página de um jornal.
E prosseguimos com essa contagem mórbida: 20 mortos? Oito? Vinte e cinco? Com as narrativas espetaculares de alguém que perdeu o pé para sobreviver, de um ser humano que morreu para salvar a geladeira. Não, essas narrativas não são engrandecedoras, elas não promovem o ser humano. Elas naturalizam como se fossem erupções uma dinâmica que é estrutural, cÃclica, esse moedor de carne de nossas cidades expandidas para poucos. Essas crianças e esses adultos e esses idosos estão sendo diariamente ameaçados – mas a imprensa não fotografa essa faca no pescoço.
Estamos acumulando uma dÃvida. Cada uma dessas mortes por afogamento, esmagamento, pela falta de saneamento (as mortes por dengue ou por diarreia fazem parte do mesmo quadro sinistro) é o resultado de uma polÃtica sistemática de entrega dos bens naturais – como a terra – a um punhado de acumuladores obsessivo-compulsivos, que apenas de modo cênico manifestam-se com pesar pelas dúzias de eliminados. E não podemos nos colocar apenas durante algumas horas por ano do lado das vÃtimas. Esta é a nossa narrativa, este é o nosso fardo, esses são os nossos assassinatos em série.
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