Massacre de indÃgenas no MS é também um massacre midiático
Publicado 15/06/2016 às 13:39
Estadão noticiou em 77 palavras um atentado de fazendeiros que deixou um morto e vários feridos, entre eles um menino de 12 anos; em 2013, mataram Denilson, de 15
Por Alceu LuÃs Castilho (@deolhonoagro)*
O Estadão traz no pé da página A8, hoje, lá no cantinho direito, a seguinte notÃcia: “Ataque deixa um Ãndio morto e cinco feridos”. Contei 77 palavras na notÃcia, incluÃdos, os artigos, preposições e palavras inevitáveis, como “Mato Grosso do Sul” e “terra indÃgena Dourados Amambaipeguá I”. Não encontrei o nome do morto. “Uma liderança indÃgena”. Deu tempo de registrar o “o ataque de 70 fazendeiros armados em 60 veÃculos”.
Quase uma palavra para cada fazendeiro.
Esse descaso da imprensa representa uma metralhadora à s avessas. O pé de página é a vala – quando muito – onde os jornais brasileiros enterram as centenas de Guarani Kaiowá mortos nos últimos anos, entre assassinados, atropelados, mortos por problemas básicos de saúde e os que, em meio ao confinamento histórico do qual são vÃtimas, se suicidaram. Cada uma das 77 palavras significa o silêncio entre cada bala assassina.
Ontem foi assassinado Clodiodi Aquileu Rodrigues de Souza, de 23 anos. Com dois tiros. Outros três indÃgenas correm risco de vida. Uma criança de 12 anos, Josiel Benites, foi baleada no abdômen. Vejamos este trecho do relato do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), bem mais completo que o do Estadão:
– Em filmagens feitas pelos próprios Guarani e Kaiowá é possÃvel ver uma centena de homens armados, queimando motos e demais posses dos indÃgenas. A maioria dos indivÃduos está vestida com um uniforme preto; nas filmagens, é possÃvel ouvir gritos de: “Bugres! Bugres!â€, forma pejorativa usada para se referir aos indÃgenas na região sul do paÃs. Caminhonetes circulam como moscas ao redor dos homens de preto e das enormes fogueiras usadas para incendiar tudo o que antes era o pouco que estes Guarani e Kaiowá possuÃam.
Voltemos para 2013. Mas ainda em Caarapó. Nesse mesmo municÃpio do Mato Grosso do Sul, onde proprietários rurais declaram uma quantidade de terras superior à área do municÃpio (e a gente acha que mora num paÃs normal), foi assassinado Denilson Barbosa, de 15 anos. Com um tiro na cabeça e outro no pescoço. Ele e mais dois indÃgenas estavam indo pescar – e os fazendeiros não deixam.
O texto do Cimi de 2013 (apenas três anos atrás, mas, para a imprensa brasileira, um passado distante e inexistente) informa que, nessa reserva, 5 mil Guarani Kaiowá vivem em 3.594 hectares de terra. Menos, por exemplo, que a quantidade de terras pertencentes, no mesmo Estado, ao senador cassado DelcÃdio do Amaral. Os indÃgenas aguardam demarcação. (O estudo relativo à TI Amambaipeguá foi aprovado em maio pela Funai. Às vésperas do golpe. Terá sido coincidência a nova investida dos fazendeiros?)
É preciso ser justo com a imprensa. Nos anos 70, em plena ditadura, eram bem mais frequentes as notÃcias sobre violações de direitos de indÃgenas e camponeses, ou sobre os assassinatos e massacres no campo. Em 2016, ao longo de governos golpistas ou democraticamente eleitos (todos eles indiferentes ao massacre dos Guarani Kaiowá), os jornais consideram Denilson, Josiel ou Clodiodi brasileiros de menor importância.
É como se os chamassem de bugres, tal qual os fazendeiros assassinos. Aos berros. Quase um carro para cada um. “Bugres, bugres, bugres! Sabem qual a parte que lhes cabe neste jornal? Este pé de página!” (Risos do editor. O redator se esforça em condensar a notÃcia nas 77 palavras possÃveis e ela nem chega ao mesão, onde se decidem as notÃcias da primeira página. Lá temos Dunga, Eduardo Cunha, Tia Eron, Temer, Haddad, Sarney, Jucá. Romero Jucá, o ex-presidente da Funai? Sim, Jucá. A polÃtica brasileira se repete como extermÃnio.)
O maior massacre de 2016, um dos maiores dos últimos anos, ganha sua dose jornalÃstica de escárnio. Hashtag: jornalismo bugreiro. #jornalismobugreiro
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