Maria Lúcia, vÃtima de fascistas em BH, tem a coragem que nos falta
Publicado 15/12/2015 às 08:09
Pedagoga vai com criança protestar contra golpe e é expulsa por manifestantes fascistas; esquerda indiferente tem certeza que as coisas não vão piorar?
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
Observem o vÃdeo acima. A pedagoga e sindicalista Maria Lúcia Barcelos estava numa manifestação a favor do impeachment, no domingo, em Belo Horizonte. Em sua camiseta branca, uma frase: “Xô, golpe”. É expulsa, quase linchada. E é linchada verbalmente. Os manifestantes de verde e amarelo a xingam de “vagabunda”, “filha da puta”, “lixo”, “petista de merda”.
Pouco antes das agressões, como mostra reportagem do jornal Hoje em Dia, Maria Lúcia estava de mãos dadas com uma menina de uns 4 anos. Sua filha? Não sabemos. O que dá para saber é que, enquanto a polÃcia retirava a pedagoga do tumulto (sem nenhum esforço de rechaçar os fascistas mais agressivos), a menina não mais lá estava. Terá assistido a tudo aquilo?
TEMPOS INSANOS
Aos que não conseguem enxergar alguma democracia em nosso paÃs, cabe assinalar que ela se encontra na foto; a ausência dela, no vÃdeo. E pobre do paÃs que naturaliza cada agressão como essa. Agressão a uma mulher, violência contra uma criança (sim, aquilo pode ter sido traumático), retirada do direito que elas tinham de ir e vir, tudo com aval policial aos que xingam e assediam. Pobre do paÃs que assiste a escaladas fascistas e se mostra distraÃdo.
Não custa lembrar que um fascista pode ser sempre fascista e meio. Em São Paulo, duas mulheres que ousaram ficar com os seios de fora na Avenida Paulista, e teriam ateado fogo numa bandeira do Brasil, foram igualmente ameaçadas por manifestantes mais exaltados – e machistas e intolerantes. Isso que elas eram favoráveis ao impeachment. Os distraÃdos não percebem que se trata de uma tendência?
E não, a violência praticada contra indÃgenas, a juventude negra, povos tradicionais não pode ser utilizada como argumento para que se tolere um golpe. Golpes, como tais, parlamentares ou não, levam os Estados a diminuir ainda mais a margem já escassa de direitos dos cidadãos; os mesmos indÃgenas e jovens negros estarão entre as mais prováveis vÃtimas de gente que não respeita as regras mais elementares de convivência.
A não ser que esses brasileiros orgulhosos da própria indiferença – talvez inspirados em ideias supostamente revolucionárias – queiram ver o circo pegar fogo. Sentados na sala de jantar, com a boca escancarada cheia de dentes. Enquanto Maria Lúcia peita os fascistas.
A ESQUERDA INDIFERENTE
Escrevo tudo isto também aos que têm ironizado a invocação da palavra “democracia”, por este e outros articulistas, quando nos referimos à necessária defesa do Estado de Direito, e não de uma presidente especÃfica. Como se nos tornássemos petistas por defendê-lo; e como se não soubéssemos que essa democracia está cercada de coerções por todos os lados.
Desprezam a utilização do termo com base no fato de que violações ocorrem, diariamente, em todo o paÃs – um fato. Ora, o caso de Maria Lúcia mostra que, sim, como deveriam ensinar a história e a dialética, tudo pode sempre ser pior. Aqueles que dão de ombros em relação à queda de uma presidente eleita (por mais inepta que ela seja) vivem numa fantasia – a de que nada mudará.
Sempre muda. Pois não existe vácuo na polÃtica. Caso aqueles que não têm resquÃcios de compromissos democráticos – como os usurpadores de plantão – cheguem ao poder, muita coisa como essa pode acontecer. Em escala. A direita não se acanhará em ocupar os espaços – já que parte da esquerda está mais preocupada em passar a mão na cabeça dos black blocs.
A menina com vestidinho e laço de fita (aquela que aparece na foto, mas não no vÃdeo) talvez preferisse que houvesse mais gente defendendo Maria Lúcia e a democracia – defendendo as filhas de Marias e Clarices. Sem prejuÃzo de outras causas. Apenas porque dessa causa dependem todas as demais. A democracia é uma criança que não pode ser retirada da foto.
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