Linchadores de esquerda têm no caso da fantasia de Abu sua Escola Base
Publicado 09/02/2016 às 20:40
Diferença em relação ao escândalo dos anos 90 é que não é preciso mais jornalistas ou delegados afoitos para expor alguém indevidamente; internautas fazem tudo sozinhos
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
Este texto será escrito sem imagens do menino negro que, em Belo Horizonte, estava fantasiado de Abu. Ou dos pais, um casal de atores que saiu para a folia vestido de Alladin e Jasmine. E não será acompanhado de fotos porque as considera uma brutal violação dos direitos dessa criança – ou mesmo de seus pais. Estes, acusados de racismo. Pois Abu, no desenho da Disney, é um macaco.
Não verão aqui nem a foto original, com os três sorridentes, nem a foto editada pelo jornal Extra, com a imagem do menino borrada. Pois a criança não cometeu nenhum crime. Não é suspeita de nada. Ao mesmo tempo, não pode ser exposta porque o linchamento virtual ocorrido nos últimos dias definiu a atitude dos pais – a de desfilar com a criança – como racista. Sem que se respeitasse o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Tarefa difÃcil, na era das imagens. Ainda mais em pleno carnaval. É como se a legião dos bem intencionados tivesse de incorporar tanto a lógica do mundo do entretenimento como a ética invertida do entrudo – optando por atirar ovos e desclassificar os pais que, em sua visão, cometeram um crime. (Mas qual crime? Foram acusados de quê? Quem os denunciará ao Conselho Tutelar? Por qual motivo?)
CAUSAS DETURPADAS
Desta vez não estamos a falar de sites de direita. De programas sensacionalistas de fim de tarde. Mas sim dessa esquerda brasileira cada vez mais adepta de justiçamentos, pronta a amarrar o desafeto ideológico no primeiro poste virtual, sem se importar com os personagens em jogo, em nome de uma determinada causa. Que pode ser a luta contra o racismo, ou contra o machismo. Uma boa causa. E o problema não está na causa.
E sim no açodamento. Na opção pela linguagem do ódio como discurso polÃtico prioritário. Não aquele desprezo pelos opressores mais poderosos. Neste caso não se vê tanta valentia. Quebram-se vidraças de agências bancárias sem menção aos banqueiros (como os do Itaú e Bradesco) que lucram dezenas de bilhões. Não o combate a grandes latifundiários, grandes empreiteiros, megaempresários.
O que está acontecendo é a conveniente eleição de pequenos opressores. Mesmo que sejam supostos opressores. E eles podem ser um casal anônimo, numa foto com uma criança. Podem ser os pais adotivos dessa criança, em um paÃs onde as crianças negras têm mais dificuldade de serem adotadas – exatamente pelo racismo. Estão ali, em pleno carnaval, por que não jogar umas pedras neles?
Um amigo de Belo Horizonte avisa, em sua página no Facebook: ele é pai de uma menina negra e não admitirá que ninguém determine que sua filha – que adora macacos – não possa se fantasiar de um macaco. A reação é sintomática porque não é a reação de um opressor. Pode-se até achar que ele ou Fernando Bustamante (o ator que se vestiu de Alladin) estejam perpetuando uma simbologia indevida. Mas eles têm ou não esse direito?
Onde está o selo de integridade anti racismo para definir quem poderá expor uma famÃlia inteira a essa sanha justiceira? Todos os que xingaram Bustamante e sua mulher (ao que tudo indica, ela mesma afrodescendente) estarão dispostos a ir para a delegacia fazer um BO e ser testemunhas na Justiça contra pais que consideram – sem conhecer o cotidiano dessa famÃlia – racistas, consideram racistas por causa de uma foto?
JULGAMENTOS INSTANTÂNEOS
Houve tempo em que a instantaneidade das notÃcias era mais lenta. Como na época da Escola Base, caso emblemático em São Paulo da falta de ética policial e jornalÃstica. Um delegado precipitado decidiu que os donos de uma escola infantil abusavam de uma criança (eles eram inocentes) e, com o auxÃlio de uma horda de repórteres afobados, os expuseram à execração pública.
Hoje não precisamos nem desses repórteres e nem desses delegados. Fazemos a própria investigação relâmpago e o próprio linchamento, agora com as ferramentas ainda mais velozes das redes sociais. Com um agravante: a esquerda que defendia os direitos humanos ela mesma se dispõe a liderar alguns linchamentos, em nome desses mesmos direitos humanos. A plutocracia deve morrer de rir ao assistir a esse espetáculo.
É hora de muita gente parar e fazer um balanço. A destruição de reputações vai se tornando um exercÃcio diário. E não importa que este ou aquele possam ser, de fato, canalhas. Alguns racistas/machistas/homofóbicos chegam a se aproveitar desses tribunais de exceção para divulgarem suas mensagens de ódio – na lógica do Cavalo de Troia. A extrema valentia instantânea está sendo acompanhada de ingenuidade.
Há algo de muito errado quando a grande imprensa consegue ser mais cuidadosa, em relação a direitos elementares, do que muita gente sábia – ou originalmente sábia – que ocupou as redes sociais. Algo se perdeu. Ligou-se um botão de eliminações cÃclicas e não se sabe bem onde apertar para desligá-lo. Ou não se quer apertá-lo. Pois parece que quem reclamar disso poderá ser o próximo a ser eliminado.
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