Justiça Carismática, Academia Carismática, Esquerda Carismática… estamos abandonando a razão?

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https://www.youtube.com/watch?v=JMWP53ZegTM

Daria mais cliques falar apenas de juízes exibicionistas e de uma professora, dizem, “descontrolada”; mas é necessário também que a esquerda faça sua mea culpa

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Acredita que o juiz Sérgio Moro é um herói nacional? E não apenas alguém que deva cumprir tecnicamente suas funções? Talvez seja melhor não continuar lendo – pois se está aqui questionando a eleição de heróis instantâneos, especialmente os que apreciem holofotes tanto quanto a causa que defendem. Da mesma forma, se você é de esquerda e idolatra (e não somente admira) algum colunista, aplaude certa resposta humilhante ou determinadas ações desprovidas de espaço para o contraditório, com argumentos apriorísticos, melhor pensar duas vezes – para não passar recibo – antes de demonizar o articulista.

Este texto não visa agradar algum lado da força. Que se discorde dele, claro. Mas sem impulsos raivosos. Pois ele procura identificar certas tendências que têm aparecido de um extremo a outro do espectro político-ideológico. À direita, é como se tivéssemos importado determinadas práticas da Renovação Carismática, rumo a uma Justiça Carismática, à imagem e semelhança da máscara do Moro. Engajada, de olho nas comoções, e não nos autos. Ou, à esquerda, como se assistíssemos ao surgimento de um pós-modernismo neopentecostal: com militantes vibrando, em grupo, a cada tropeço do suposto adversário, cada vez mais reduzido a estereótipos. Com métodos similares.

É uma espécie de necessidade de aclamação. Ou de participar de uma aclamação. Ou de um descarrego. Conforme determinada crença política, paixão partidária, envolvimento com determinada causa – tornada a causa de todas as causas, objetivo primeiro e último de nossas existências.

A fala da professora Janaína Paschoal, da USP, autora do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, assusta no vídeo acima não pelo que tenha de “surto” – termo que remete também ao machismo. Pois não há nada de surto no discurso dela. A linguagem é calculada, o gestual tem parentescos bastante identificáveis, numa tradição persuasiva bem conhecida por certos pastores e padres contemporâneos. Engana-se redondamente quem não veja estratégia e objetivos nos que apostam nesse tipo de discurso. A aposta de quem emite, essa sim, é no engajamento emocional da plateia, acrítico. Na adesão. Amém? Amém.

Talvez fiquem mais claros os exemplos à direita do espectro político. Pois a esquerda costuma se orgulhar de ter lido alguns livros sisudos, tido acesso a determinadas correntes de pensamento com fartas bases filosóficas, sociológicas etc. De se ter banhado nas tradições e nos meandros da Razão. Mas, infelizmente, e guardadas todas as proporções (nada se comparará ao espetáculo protagonizado por Janaína, aplaudido por Hélio Bicudo), não tem sido primazia dos direitistas promover ou aderir a determinadas ondas. Às vezes com as melhores das boas intenções – mas de boas intenções o inferno de Hegel (ou de Engels) está cheio.

Não é muito fácil a esquerda aceitar que está participando desses movimentos. Que podem ter a própria Janaína Paschoal como vítima. Nessas horas, todos esquecem de combater o machismo – e logo despontam gifs da mulher “descontrolada”.

Vejamos o vídeo abaixo, do Altas Horas: [NÃO PUBLICAR] TROCAR POR FOTO DA MULHER DO MORO

https://www.youtube.com/watch?v=z6BqD4ZGG7c

Notaram o título do vídeo? Filho de mães lésbicas dá “show contra o preconceito”. Vejam bem, show? Em outro título lemos que ele deu uma “lição de moral”. Ora, lição de moral? Estamos em pleno exercício de catecismo?

Observem que, de um ponto de vista inclusivo, a fala do entrevistado está correta. Não é anormal, de fato, ser criado por duas mães. A desconstrução do preconceito é necessária. Mas… da forma que foi divulgada para o país? Nesse estilo meio que de show, de enfrentamento, de torcida? Não que fosse essa a intenção do rapaz. Agora, que o outro – no mínimo na repercussão impiedosa nas redes sociais – teve sua fala reduzida, aniquilada pela multidão (principalmente a virtual), isso é verdade. Talvez até por ter se expressado mal. Ele queria saber mais e… e foi atropelado.

É como se tivéssemos trocado alguns períodos mais longos e certos instantes de reflexão – ou mesmo de compaixão – por unanimidades instantâneas. Demonizamos o que é inconveniente (o verbo “demonizar” não está aí por acaso), o que não se encaixa em determinados cânones, mesmo que sejam determinados cânones da desconstrução: aqueles de São Foucault, São Deleuze ou de Vossa Santidade Derrida. (A história do mundo no último século e meio nos dispensa de maiores exemplos em relação a fanatismos no terreno marxista-leninista.)

Do jeito que vamos, todos teremos direito a 15 segundos de trucidamento. Essa urgência tem sido uma mensagem, em si, e ela beneficia muito mais os primeiros mencionados no texto: os conservadores.

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