Hipertrofia do debate sobre babá abafa incitação golpista da mÃdia
Publicado 14/03/2016 às 15:35
https://www.youtube.com/watch?v=E8QdcNLO29U
Debate à esquerda sobre cena polÃtica é atropelado pela era da imagem e pela necessidade de se eleger vilões anônimos; donos do Estadão e da Globo agradecem
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
Fato 1: um casal caminha de verde e amarelo com seu cachorro, durante protesto anti Dilma no Rio, ao lado da babá negra (de branco), a conduzir um carrinho com dois bebês. A fotos em rede social viralizam. Fato 2: um dos maiores jornais do paÃs pede “Basta!”, nesse mesmo domingo, com as mesmÃssimas palavras do Correio da Manhã no dia 31 de março de 1964. Fazendo coro à torcida explÃcita da grande imprensa – Globo à Frente – por uma derrubada de governo incitada por gente como Ronaldo Caiado e Jair Bolsonaro.
Qual dos dois fatos motivou desde ontem o grande debate nacional, Ã esquerda? O primeiro. E o que isso significa?
Significa que o pós-modernismo venceu. Conseguimos tornar as discussões relativas ao mundo privado (e a sua própria evasão) mais importantes que a identificação das megatendências do mundo público. Agimos como se a posição do Estadão não tivesse relevância, embora o público recorde em São Paulo coincida exatamente com o dos leitores desse jornal. Jogamos a euforia dos comentaristas da Globo para debaixo do tapete, como se a posição da famÃlia Marinho – e a da Fiesp, por exemplo, ainda na linha da fiscalização dos poderosos – não fossem relevantes no contexto golpista.
Do lado do casal e da babá, ninguém perguntou a ela se queria virar notÃcia nacional, como se fosse um Ãcone da senzala contemporânea. E dá-lhe toda sorte de anacronismos. Por exemplo, ao se justificar essa balbúrdia toda em relação à foto com o fato de que se tratava de um banqueiro. (Mesmo do ponto de vista pós-moderno, olha o machismo aÃ, gente.) Ora, essa informação é posterior. Inicialmente não se sabia quem eles eram – e ainda não sabemos quem são as mulheres. Portanto estamos fazendo análises anacrônicas – aquele pecado mortal dos historiadores.
De qualquer forma, não me parece que estejamos fazendo uma crÃtica cotidiana do universo dos banqueiros. Sobre quem eles financiam, quem eles tentam derrubar. (Especialmente os banqueiros graúdos: o oposicionista Itaú, o governista Bradesco, sócio da Vale.) De alguma maneira precisamos hipertrofiar a importância da foto do casal, a foto que, alegam, se originou de um meme, de uma charge. A vida imita o meme, e a ele precisamos nos voltar, fazer reverência – como se estivesse ali a chave para se entender a história do Brasil e todo seu momento polÃtico.
Claro que poderão dizer que os dois fenômenos são importantes. Mas o que estou dizendo é que o segundo tema foi solenemente ignorado, que há uma desproporcionalidade. A crÃtica à esquerda se tornou subitamente metonÃmica, sem capacidade de tentar elucidar o processo, identificar atores centrais. Isto para não falar da necessidade de escracho, de identificar algum vilão (como o banqueiro), em detrimento de chatas e sisudas pretensões de se discutir processos mais amplos – sem o zoom conveniente e reducionista de uma foto avulsa.
Por certo há quem esteja fazendo tudo isso. Mas a concorrência é desleal. Há uma fissura, uma comoção, uma urgência despertada pelo meme que virou foto, como se fosse um totem, como se não fosse possÃvel discutir os protestos de março de 2016 sem nos debruçarmos sobre essa imagem. Nos tornamos reféns dos sÃmbolos – da mesma forma que, no campo oposto, se faz culto ao Pixuleco, ou aos patos da Fiesp ou mesmo aos caminhões da Tropa de Choque. (Houve fila para tirar fotos com um tanque ao fundo, como mostra o vÃdeo postado antes do texto, em versão mais radical das selfies com policiais.)
Aviso: tanques atropelam.
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