E a Tensão Pré-Golpe chega ao Século 21
Publicado 15/04/2016 às 17:15
Nós, que achávamos que a democracia estava consolidada, temos agora de lidar com a perplexidade, e com sentimentos ambÃguos de revolta e tristeza, asco e esperança
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
O que passava pela cabeça dos brasileiros no dia 30 de março de 1964? Apenas esperavam? Escreviam? Participavam de reuniões, articulavam manifestações? Sofriam, como sofremos hoje, ao observar esse misto de farsa e insanidade, esse desfile de usurpadores? Faziam cálculos? Tinham ideia do que viria, das duas décadas de obscurantismo, de que uma geração (a minha) seria criada sob o signo do medo?
Ao observar o cenário polÃtico, a dois dias de um golpe anunciado, tento entender o turbilhão interno, a tensão que já afetou meu braço (nada menos que meu instrumento de trabalho) e gera uma aflição à qual não estou acostumado. Como se eu estivesse andando sobre o gelo, como se algo estivesse para trincar em vários pontos, e as ilhas de conforto (as nossas ilhas de democracia) fossem se distanciando no horizonte.
Ontem escrevi sobre traições, traições polÃticas – de Brutus a Calabar, de Tulius Detritus a Michel Temer. Ninguém deu bola. Escrever sobre o quê? Comunicar o quê a mentes igualmente aflitas, supostamente com tensões similares? Imaginar algum consolo possÃvel, algum jogo do contente? Repercutir a ação conjunta dos movimentos sociais pelo Brasil, sendo redundante e sem o menor cálculo sobre suas consequências?
Como falar de tensão pré-golpe em plena execução do golpe, sendo o dia 17 de abril – o dia do massacre de Eldorado dos Carajás, o dia de luta pela reforma agrária – apenas o gran finale dessa operação grotesca? Se essa tensão que sentimos já significa, em si, reação a uma violência, a uma sequência de golpes? Quando essa tensão já significa um olho roxo (imaginário), um braço espancado (quase isso), esperanças cauterizadas?
Como expor a perplexidade no momento em que ela se desenha de braços dados com a repulsa, com o mais completo asco, em meio a um sentimento de aversão que poucas vezes senti na minha vida? (Lembro-me de uma vez que entrevistei Paulo Maluf em sua casa, nos Jardins. Sentei-me ao lado dele, no mesmo sofá, estávamos em três entrevistadores. E me lembro perfeitamente do desprezo infinito que senti.)
O pesadelo vivido há 50 anos, de um paÃs que permitia que um ser como Maluf representasse algo, fosse um prefeito, construÃsse um Minhocão, esse pesadelo daquela face cÃnica destruindo a minha cidade, em nome da ordem e do progresso, ele se concretiza agora, por meio de uma face que consegue ser mais cÃnica que a dele: a de Eduardo Cunha. Quem precisa de generais de pijama com civis de cara lavada?
Eu ia para a escola, nos anos 70, e cantava o hino, em fila. Agora vejo as pessoas enroladas em bandeira acreditando nesse discurso anticorrupção. Talvez nem mais acreditando tanto assim, mas vivemos numa década em que as pessoas se recusam a dar o braço a torcer, não é mesmo? Já sabem que a Presidência da República será tomada de assalto por uma quadrilha, mas ainda fazem de conta que não.
E fico triste ao pensar que aos golpistas incorrigÃveis se somaram os tais isentões, outros brasileiros (supostamente mais bem informados) que igualmente minimizaram esse assalto. Movidos por rancores mais ou menos justos, eles agora assistem à iminência desse golpe um pouco mais calados. Eu diria quase envergonhados. Arriscando uma frase aqui, outra ali, de um longÃnquo mea culpa.
Ou talvez isso já seja um delÃrio pré-golpe da minha parte? Um esboço de esperança atávica de que haja unidade mÃnima na adversidade? Um esboço que logo se implode ao lembrar de alguns desses rostos, de certas petulâncias, de certos fanatismos monotemáticos, como se um paÃs pudesse ser apenas o show de horrores que já foi, como se aqueles mencionados cÃnicos não pudessem promover horrores ainda piores?
Ambiguidades. O golpe que ainda não veio e já veio. Dúvidas. Sobre o cenário polÃtico nos próximos dias – nas ruas, no campo. Sobre o papel das polÃcias. Sobre essa violência federativa. Sobre o jogo de descolorir promovido pelo binarismo polÃtico. Certezas. De que muita coisa já se perdeu nessa farra à s avessas, nesse hospÃcio sem doçura, nesse teatro de marionetes entristecidas. De que todos já perdemos, eu já perdi, e de que meu braço dói a cada toque no teclado.
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