Duas histórias de destruição de aldeias indÃgenas: uma, por jagunços; outra, pelo Estado
Publicado 10/02/2016 às 14:23
Justiça e fazendeiros disputam primazia pelo desprezo aos povos originários; polÃcia e pistoleiros cumprem função idêntica; pergunta-se qual a diferença para as vÃtimas
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
As histórias assustam pela similaridade. Duas aldeias indÃgenas são destruÃdas. Depois os povos voltam – já com terra arrasada, para reconstrução. Uma, no Mato Grosso do Sul. Outra, na Bahia. No caso sul-mato-grossense a destruição foi feita por jagunços, a mando de fazendeiros; no caso baiano, pela polÃcia (Federal, Militar), a mando da Justiça. Pergunta para a sociedade brasileira: qual dessas realidades é a pior? A institucional ou a paramilitar?
Em um dos casos a aldeia tinha posto de saúde e escola. E não foi naquela destruÃda pelos jagunços. Foi na Terra IndÃgena Comexatibá, no extremo Sul da Bahia. A Justiça suspendeu as liminares de reintegração de posse – mas somente três dias depois a destruição das casas pela PolÃcia Federal e pela PolÃcia Militar. Um juiz decidiu, em julho, pela destruição; um desembargador, pela retomada. A vÃtima foi o povo Pataxó.
MATO GROSSO DO SUL
Em comum, a violência. Em Coronel Sapucaia (MS), os jagunços destruÃram com fogo as barracas e os pertences dos indÃgenas Guarani Kaiowá. “O ataque foi intenso, até documentos pessoais foram queimados“, relatou uma liderança indÃgena da aldeia Kurusu Ambá, “e os pertences que não foram queimados, eles levaram embora”. Animais foram mortos.
O ataque dos pistoleiros aconteceu no dia 31 de janeiro. Os indÃgenas retomavam uma fazenda que fica em território tradicional. Levaram tiros. Em 2007, 2009 e 2015, lideranças indÃgenas foram mortas por causa do mesmo conflito, que aguarda a morosidade da Fundação Nacional do Ãndio (Funai), em BrasÃlia.
É o mesmo acampamento onde, em janeiro, uma criança morreu por falta de atendimento médico. O retorno para a aldeia carbonizada ocorreu na quinta-feira (4). Ao lado, na terra Guaiviry, outros pistoleiros em duas caminhonetes também distribuÃram tiros. “A criançada está ficando tudo com medo“, afirmou uma liderança.
BAHIA
A foto acima mostra o momento da destruição da aldeia Cahy, dos Pataxó, no dia 19 de janeiro. Três dias depois, a pedido do Ministério Público Federal, o desembargador federal Cândido Ribeiro suspendeu as ações de reintegração de posse na TI Comexatibá. Curiosamente, o motivo foi a escola destruÃda pelos policiais. Considerou-se que haveria risco de interrupção do direito de mais de 500 alunos indÃgenas à educação.
Saem os policiais, entram os jagunços. Após 32 famÃlias indÃgenas retornarem em barracas de lona, no dia 27 de janeiro, um grupo de pistoleiros passou por quatro vezes na aldeia. Cinco homens em um carro teriam gritado: “Vocês vão cair, vão cair”.
REPERCUSSÃO
A maior parte das informações acima é do Conselho IndÃgena Missionário (Cimi). À exceção de uma notÃcia no G1, no caso da Bahia, e apesar da cobertura da imprensa regional, procuram-se notÃcias na grande imprensa.
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