Caso Chico Buarque expõe os riscos da “fulanização” da polÃtica
Publicado 25/12/2015 às 09:58
Esquerda cai nas armadilhas da direita ao eleger Sicrano ou Beltrano como os expoentes de nossa barbárie cotidiana; o escracho é despolitizado e anti-civilizatório
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
A polÃtica brasileira corre o risco de se transformar num desfile de crucificados. Da direita à esquerda. De Chico Buarque ao Alvarinho, um dos agressores do músico naquela noite infame no Leblon. Do segurança violento no Metrô de São Paulo, o “gato do Metrô“, ao ex-ministro Joaquim Barbosa. De Lula a FHC. É preciso escolher. Vamos fulanizar – e colocar a cabeça do próximo Sicrano em praça pública – ou fazer um debate polÃtico sério? Quem decidirá os nomes dos próximos alvos?
Há uma agressão a estudantes no Metrô. O que é mais razoável, discutir a violência de Estado contra manifestantes, questionando o governador ou o secretário de Segurança Pública, ou rumar para a suposta façanha de derrubar um segurança bonitão – um distribuidor de bordoadas – a soldo dessa lógica, e facilmente substituÃvel por quem realmente manda descer as borrachadas? A nossa decisão é de dar um zoom no próximo Rambo ou questionar o diretor do filme?
Sim, são injustificáveis os escrachos a ministros e ex-ministros dos governos Lula e Dilma por uma elitezinha branca ignorante e sem modos. Guido Mantega e Patrus Ananias têm o direito de ir e vir. Isso parece que já entendemos. Mas também o ex-ministro Joaquim Barbosa, do STF, já foi hostilizado por petistas em um restaurante. O secretário e ex-senador Eduardo Suplicy (PT) não deveria ser impedido de falar em uma palestra. Mas a blogueira cubana anticastrista Yoani Sánchez também não, certo?
Ou apenas queremos blindar alguns protegidos?
Alvarinho e o ser balbuciante que chama Chico Buarque de “merda” representam as nossas elites violentas e excludentes, como mostram as pesquisas mais elementares sobre seus pais, tios e avós. Mas Alvarinho não pode ser ameaçado ou hostilizado na rua (ou por telefone, ou em rede social), em um mecanismo de espelhamento de suas práticas, por não ter a densidade cultural ou os belos olhos de Chico. A não ser que queiramos todos ser Alvarinhos, aderirmos todos a uma polÃtica diminutiva.
E AS FIGURAS PÚBLICAS?
Sim, em muitos casos não há como não dar nomes aos bois. PolÃtica se faz com polÃticos. Mas há limites éticos para essa abordagem. E critérios. A pessoa é pública? Uma coisa é questionar o histórico do pré-candidato do PMDB à prefeitura do Rio, acusado de já ter batido na mulher. Outra seria abordar o deputado Pedro Paulo em um restaurante para escrachá-lo. O escracho a Paulo significa também o escracho a Chico, ou ao segurança bonitão. Ou a nós – a José, a João, ao próximo escrachável. Ninguém estará ileso.
É como dizia o John Lennon: “Do jeito que as coisas estão indo, eles vão me crucificar”.
https://www.youtube.com/watch?v=10UCIWFe4DM
Já defendi o escracho especÃfico aos torturadores da ditadura. Estava errado. Nomeá-los, sim. Tomar cada um desses psicopatas como alvo preferencial, porém, numa lógica movida apenas a vingança, e não a um projeto de reformulação de nossos códigos de investigação e punição (em um paÃs que ainda tortura e que mata jovens nas periferias), será também um estÃmulo à lógica dos linchamentos. E não por bom mocismo. Mas porque as armas precisam ser outras. A linguagem precisa ser outra.
A fulanização é o fetiche pelos filhos do operário e a piada sobre o defeito fÃsico de um corrupto. Mas é também a minimização da agressão a um candidato à Presidência, quando ele tenha uma careca lustrosa e atenda pelo nome de José Serra. (Essa espécie de orgulho da bolinha de papel.) É a troca neoliberal do Estado, no debate público, pelo indivÃduo, a partir de recortes voluntariosos, conforme nossas preferências polÃticas. É Big Brother. É paredão. É o cidadão como Boninho, a atirar ovos nos passantes. A polÃtica como entrudo.
Sim, precisamos decidir: civilização ou escracho.
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