Carta aos jornais que descobriram, com atraso, a degola de um bebê indÃgena
Publicado 07/01/2016 às 12:26
“Querida Grande Imprensa, eu queria lembrá-la de outras pautas indÃgenas esquecidas; crianças mortas, povos confinados, apartheid; nunca será tarde”
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
Querida Grande Imprensa,
Vejo que, finalmente, você percebeu que um bebê de 2 anos foi degolado em Santa Catarina. O Estadão até publicou um texto, nesta quinta-feira, lá nos confins de uma página interna, três dias após a jornalista Eliane Brum acabar de escancarar o caso, em sua coluna no El PaÃs Brasil – e uma semana após identificarmos, na mÃdia contra-hegemônica, a omissão dos grandes jornais. Expus essa angústia, no dia 31 de dezembro: Eu, leitor, à espera de notÃcias sobre um bebê indÃgena assassinado. Pena que O Globo não deu as matérias do G1 na edição impressa. A Folha a gente segue aguardando.
E nem era tão longe, né? Foi ali, em Santa Catarina. Mas que bom que deu tempo. Nunca será tarde demais. Aproveitando, então, o interesse demonstrado pela morte de VÃtor Pinto, e supondo que não seja ocasional a preocupação com o bebê Kaingang, sugiro que a Senhora coloque em pauta outros exemplos do massacre sistemático praticado contra os povos indÃgenas no paÃs. Um caso antigo, ainda mais antigo que a história de Estadão, Folha, O Globo – todas as suas histórias somadas. É a história de um genocÃdio – de cabeças arrancadas, etnias inteiras dizimadas ou extintas, confinadas, espoliadas.
Por exemplo, o massacre dos Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do Sul. Estão para ser despejados 4 mil indÃgenas na região de Japorã. Eu adoraria ir ao local, mas não tenho recursos. Vocês, que têm encolhido o tamanho dos jornais sem reduzir o preço, talvez ainda tenham algum troco para enviar bons repórteres (sei que ainda os têm) à região, para contar a história completa – antes que famÃlias inteiras sejam mais uma vez humilhadas. Mas fiquem um bom tempo: tem muita aldeia para visitar. O massacre dos Guarani Kaiowá é o maior da América do Sul, ao lado dos Mapuche, no Chile. Várias lideranças indÃgenas foram assassinadas. Crianças são discriminadas.
E não é o único caso, sabiam? Há tantos outros pelo paÃs. Lembro-me que a Folha esteve em Humaitá (AM), há dois anos, cobrindo o apartheid contra os Tenharim, na Transamazônica, região do Rio Madeira. Bom, sei que não foi essa a abordagem do jornal, mas de fato o que acontece por lá é um apartheid. Poderiam enviar novamente um repórter, questionar o fato de não terem reconstruÃdo a sede da Funai, ou da Secretaria de Saúde IndÃgena – incendiadas por uma população furiosa, instigada por comerciantes, fazendeiros e madeireiros. Carros e barcos foram queimados. E a população indÃgena ainda vive com medo.
Acreditam que não se trata do único caso de apartheid? Esse caso mesmo de Santa Catarina decorre de uma segregação. Um colunista gaúcho chegou a ser condenado, chamou os Kaingang de “sujos, ignorantes e vagabundos“. Há tantos outros casos, de norte a sul do paÃs, que clamam por ser relatados para um grande público. No nordeste de Minas Gerais, membros da etnia Maxakali são espancados e mortos. O SBT fez uma matéria, em agosto, mas não precisam se acanhar. A história ainda existe e sempre pode ser contada de outra forma: Ãndios são vÃtimas de agressão e assassinato no nordeste de Minas Gerais.
E tem os Tupinambá de Olivença, na Bahia, os Saterê-Mawé no Amazonas, povos diversos em Santarém, no Pará. Seria exaustivo enumerar todos os casos. Estamos diante de um fenômeno que não pode motivar apenas coberturas episódicas, somente quando acontece algo mais grave – e nem isso tem ocorrido. Trata-se de algo sistemático. Que poderia motivar editoriais frequentes, menção pelos colunistas mais importantes, reportagens de fôlego, acompanhamento regular dos conflitos e das iniciativas da Funai, do Ministério Público, das organizações indigenistas. Mas não somente uma vez por ano, para ganhar prêmios de jornalismo, vamos combinar?
RACISMO E GENOCÃDIO
Sabe, Grande Imprensa. Não é por fúria revolucionária que pedimos isso. É pela preservação de direitos elementares, consagrados no pós-guerra por paÃses capitalistas. Pelo próprio sistema. Pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não sei se recordam, mas promulgamos também uma Constituição, em 1988. Não é um documento incendiário. É bastante tÃmido em relação à nossa desigualdade no campo e à nossa dÃvida histórica para com camponeses, quilombolas, povos tradicionais e originários. Mas estão garantidos lá os direitos indÃgenas. O direito à demarcação de terras – terras deles. Para não falar no direito à vida.
E os temas estão relacionados, sabiam? Acho que já falei do Mato Grosso do Sul. Lá morrem muitas crianças por desnutrição (fome), atropelamentos ou falta de atendimento médico. Ontem mesmo – 6 de janeiro de 2016 – morreu um bebê de 1 ano em Coronel Sapucaia: Sem ambulância, criança indÃgena de um ano morre em acampamento. Seria inimaginável um espaço nos jornais, um canto de página que fosse? Só provisoriamente, até fazerem uma reportagem de maior fôlego sobre o tema. Quem sabe com chamada de capa. A mortalidade infantil indÃgena tem aumentado no Brasil. Não é constrangedor o veÃculo mais atento ao tema ser o espanhol El PaÃs?
Sobre o bebê degolado em Imbituba, espero também que a Senhora cumpra sua função civilizatória, tomando todos os cuidados para que não se linche midiaticamente o assassino confesso. Os direitos do rapaz precisam ser garantidos, pela polÃcia e pela Justiça, pois são os direitos de todos nós. Ele parece ser uma pessoa confusa. E é claro que precisa ser punido com rigor. Agora, não foi ele quem criou esse ódio. Sua condenação não purgará todas as culpas do Brasil e do Ocidente em relação aos povos indÃgenas. A Matheus apenas o que é de Matheus.
Como lembrou ontem a mãe do VÃtor, foi por algum motivo que ele escolheu um bebê indÃgena para matar. E não por uma força externa, pelo satanismo, como já querem nos fazer crer. Escolheu porque a cultura (local, regional, nacional) é a do racismo. Essa é a palavra correta. E as pessoas que perpetuam o racismo contra indÃgenas não são exatamente confusas. Sabem muito bem o que estão fazendo. Elas fazem parte do poder polÃtico, do poder econômico. São proprietárias de terras, boa parte delas usurpada. São deputados, senadores. Não se esqueça delas, sim?
Atenciosamente,
Um jornalista.
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