Bebê indÃgena: investigação principal precisa ser contra o racismo
Publicado 11/01/2016 às 19:06
Hipótese de satanismo pode ajudar a explicar caso isolado; mas desvia polÃcia da obrigação de investigar casos de racismo contra indÃgenas em SC e no Brasil
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
O delegado que investiga o assassinato do bebê Kaingang em Santa Catarina insiste na hipótese de satanismo como motivo para a degola de VÃtor Pinto, de 2 anos. Ele estava com a mãe na rodoviária de Imbituba (SC), quando foi atacado por um jovem que, tudo indica, seja Matheus Silveira. Vejamos este tÃtulo no UOL, com texto do Estadão (a Folha continua sem querer saber do caso): Acusado de matar bebê indÃgena integraria um grupo satânico, diz delegado.
Nada contra essa linha adicional de investigação para o crime especÃfico. Mas apenas a condenação de um jovem perturbado por problemas psiquiátricos pouco ajudará o combate ao racismo contra os povos originários, caso este não apareça como motivo. Afinal, foi escolhido um bebê indÃgena – e não um bebê branco – para o suposto ritual. Não estou falando de hipótese remota: os Kaingang relatam casos de racismo em vários municÃpios de Santa Catarina, particularmente em rodoviárias.
Vou mais além: as investigações sobre racismo precisam ser feitas mesmo na hipótese de que a degola não tenha tido motivação racial. Os crimes de racismo precedem e sucedem o desolador assassinato de VÃtor. Trata-se de necessidade de preservar outras crianças, outras mulheres, outros homens – povos inteiros que são vÃtimas de discriminação em Santa Catarina. Ou a polÃcia acha que basta solucionar o crime do dia 30 de dezembro? Temos mais que um crime: temos uma cultura multiplicadora de crimes.
O raciocÃnio vale para outras Unidades da Federação. A violência contra indÃgenas não costuma ser associada à palavra “racismo”. E já está mais do que na hora. Os crimes de racismo contra negros são mais numerosos, até porque eles constituem metade da população. Povos indÃgenas e ciganos, por exemplo, enfrentam uma invisibilidade ainda maior do racismo do qual são vÃtimas há séculos. Não há hierarquia: todos são vÃtimas e todos precisam ter seus direitos preservados. Não à toa, povos indÃgenas de Curitiba fizeram manifestação por justiça e contra o racismo no caso de VÃtor.
Se estamos falando de algo que acontece em todo o paÃs, cabe a singela pergunta: por onde anda a PolÃcia Federal? Que as polÃcias de Santa Catarina, São Paulo, Amazonas, Mato Grosso do Sul – todas as polÃcias estaduais – apurem também os casos de ódio e intolerância contra indÃgenas. Serão úteis. Mas a PF não pode continuar assistindo de camarote algo que é generalizado, enraizado. O apartheid tem escala nacional. E é em tal escala que precisa ser combatido.
Quando se fala de PolÃcia Federal estamos falando do Estado brasileiro. De atribuições que vão além da polÃtica do governo de plantão – um dos piores deste perÃodo democrático no que se refere à polÃtica indigenista. Por outro lado, caberia a esse governo se pronunciar de modo eloquente em relação a VÃtor. E isso não foi feito. Apenas o Ministério da Cultura emitiu uma nota. Secretaria da Igualdade Racial, zÃper. Dilma Rousseff, silêncio. E o povo Kaingang espera mais do que investigações acima de qualquer suspeita de crimes de racismo.
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