E não é que nos tornamos todos uns convenientes Ãrbitros de VÃdeo?
Polêmica em torno do VAR na Copa ilustra nossa crença absoluta na tecnologia e nossa sede justiceira, enquanto enxugamos diariamente o gelo das injustiças
Publicado 18/06/2018 às 10:46
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
Viramos todos Ãrbitros de VÃdeo. CorajosÃssimos. E não somente em relação à Copa do Mundo. Foi o que nos restou, neste mundo de violências e desigualdades brutais: julgar casos pontuais de cidadãos flagrados – diante de câmeras – dando cotoveladas, cometendo uma sequência de faltas machistas, impedindo uma criança de comer. A partir dessa crença inabalável na tecnologia, em uma Grande Verdade das Cenas Registradas, satisfazemos nossa sede de justiça, imaginando um combate adequado à Fome, ao Patriarcado e a cada lance profundamente injusto (ou que julgamos profundamente injustos) de um jogo de futebol.
Os alvos dessa sanha virtual representam o novo ápice da maldade imputável. Mesmo que o movimento de massa seja movido pela mesma lógica medieval das chibatadas imediatistas. A lógica é a de crucificar apenas o segurança que impediu a criança de comer (como se os patrões não o instruÃssem a isso, e como se não houvesse previsão de aumento da mortalidade infantil por fome nos próximos anos), empalar o árbitro do jogo do Brasil em praça pública – todos subitamente muito entendidos em regras de futebol – e aguardar uma punição exemplar do Vladimir Putin em relação aos inglórios machistas brasileiros em Moscou.
FLAGRADO VIRTUALMENTE É FLAGRADO MORTO
O caso do grupo de jovens que tomou uma jovem russa como se fosse um tÃtere – colocando palavras chulas, em português, em sua boca – torna-se um dos mais delicados dessa enumeração porque, obviamente, a atitude dos rapazes é indefensável. O problema está no decorrente espraiamento de uma justiça virtual à “bandido bom é bandido mortoâ€. O desejo de uma punição mundial, geral e irrestrita à queles que, não mais do que de repente (e em função da própria evasão confessa de suas violências), tornaram-se os Grandes SÃmbolos de Tudo o Que Está Errado Neste Mundo.
Movimentos de linchamento, por definição, não se percebem como linchamento – percebem-se como justiça. E é assim que todos precisamos, ao mesmo tempo agora, por uma causa pactuada como justa, “evidentemente” justa (porque registrada em vÃdeo), correr para as embaixadas, identificar cada centÃmetro da vida pessoal daqueles jovens, até que o último machista seja pendurado no último poste da justiça virtual. Em uma justiça onde não existirá habeas corpus. Ninguém estará a salvo do próximo movimento de crucificação – com as proporcionalidades enviadas à s favas.
NO MUNDO DOS VERDUGOS GOURMET
É claro que é mais fácil participar desse movimento do que criticá-lo. Cada cidadão do mundo que considere essa movimentação infrutÃfera ou injusta ou contraproducente ou mesmo conveniente (para aqueles que promovem violências e tungas em escala) será igualmente candidato a ser pendurado no poste seguinte da justiça virtual, como se estivéssemos construindo um telégrafo paralelo dos condenados possÃveis. Enquanto o poder polÃtico e econômico continua perpetuando seus raptos cotidianos – não necessariamente disponÃveis para gravações instantâneas.
Nós, que nos tornamos esses Ãrbitros Inapeláveis de VÃdeo, esses verdugos gourmet, simplesmente não conseguimos perceber que esse movimento geral – independente da indignação legÃtima contra cada injustiça especÃfica – nos remete muito mais ao nÃvel daqueles que pretendemos combater do que a um mundo onde não aconteçam aquelas coisas que supostamente estamos combatendo. As teclas, nesse caso, são regressivas. São um doping. Digitamos a nova proclamação de justiça como se precisássemos de punidos cÃclicos, punidos possÃveis. Em uma espécie de delirium tremens da justiça pós-moderna.
RENÉ GOSCINNY ESTAVA CERTO
Curiosamente, um dos grandes autores a identificar movimentos coletivos de coragem súbita foi um roteirista de história em quadrinhos, o francês René Goscinny. Mais conhecido pelas aventuras de Asterix, o Gaulês, ele escreveu para o belga Morris algumas dezenas de roteiros para a série Lucky Luke, onde um cowboy se vê às voltas não somente com os bandidos do Velho Oeste, mas também com os valentões de plantão, prontos a enforcar todos aqueles que atravessarem o caminho dos justiceiros (mesmo que hipócritas, mesmo que covardes).
Não cito o Velho Oeste à toa. A lógica em curso não está tão distante daquela do tempo dos Irmãos Dalton e da Calamity Jane. De ações aparentemente inofensivas (ofender um juiz que não deu o pênalti tal) a outras nem tanto (criminalizar para a eternidade atos que deveriam estar em outros tribunais), estamos nos movendo a partir de uma lógica parecida com aquela dos caçadores de recompensas. A disparamos mais rápido que a própria sombra – expressão consagrada por Goscinny – o nosso Senso Inabalável de Justiça.
MUITO ALÉM DO VAR
No centro desse tribunal mundial, vÃdeos.
E que, portanto, as nossas elites espertalhonas tratem de espalhar mais vÃdeos incontestáveis e mais bodes expiatórios, convenientes para perpetuar o mundo brutal que está aà – um tanto mais complexo do que aquele identificável em nossos segundos justiceiros.
Esse mundo é composto de um punhado de gente que rouba terras, destrói nosso planeta e tunga diariamente nosso trabalho nas fábricas e nas contas correntes. Vende os bens naturais, mata presos e presas de tuberculose, despeja veneno em camponeses, confina indÃgenas, assassina nossas crianças e jovens de periferia com “balas perdidas†e “autos de resistênciaâ€.
A luta diante desse arsenal e desse genocÃdio é muito mais complexa. Não dá para chamar Putin, apelar para a embaixada (as bravatas têm pouca eficácia), o vilão tem muito mais poder que o do segurança no shopping.
E é por isso que será mais fácil brincar de VAR. Os donos do poder têm advogados graúdos (os reais e os midiáticos), suficientemente espertos para impugnar os vÃdeos ou simplesmente alterar o foco – enquanto o Neymar dá mais um salto no ar.
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