Sérgio Machado e Romero Jucá: diálogo entre um fazendeiro e um minerador
Publicado 24/05/2016 às 13:26
Pivôs da crise têm atividades tão pouco republicanas quanto suas conversas; ex-diretor tem fazenda questionada pelo MST; ex-ministro é um conflito de interesses ambulante
Por Alceu LuÃs Castilho (@deolhonoagro*)
No dia 18, quarta-feira, 2 mil famÃlias de sem-terra que ocupavam desde março a fazenda Santa Maria, no oeste do Paraná, foram expulsas pela polÃcia do governador Beto Richa, a mando do Judiciário. Um dos donos da fazenda, ao lado dos irmãos? Sérgio Machado, ele mesmo, o ex-presidente da Transpetro – agora famoso por causa das conversas pouco republicanas com o senador Romero Jucá (PMDB-RR). “Homens, mulheres, crianças e até um cadeirante foram expulsos com extrema violência para garantir uma propriedade adquirida com dinheiro oriundo da corrupção”, resume o jornalista Aluizio Palmar.
Do outro lado do Brasil, Jucá. Dono de TV (em nome dos filhos), minerador. Entre outras cositas más. “Em 1987, em plena epidemia de malária e gripe, trazida pela invasão de garimpeiros, o então presidente da Funai, Romero Jucá, alegando razões de segurança nacional, retira as equipes de saúde da área Yanomami”. É um trecho do relatório final da Comissão Nacional da Verdade. Resultado? Aumento de 500% dos casos de malária. “Mais de 4 mil yanomamis morreram de malária, tuberculose, de assassinato”, resume o lÃder indÃgena David Kopenawa.
Avancemos no relatório:
– O caso mais flagrante de apoio do poder público à invasão garimpeira se deu na gestão de Romero Jucá à frente da Funai, na região do Paapiu/Couto de Magalhães, onde o garimpo se iniciou a partir da ampliação de uma antiga pista de pouso pela Comissão de Aeroportos da Região Amazônica (Comara), em 1986. A Funai e os demais agentes públicos abandonaram a região, deixando a área livre para a ação dos garimpeiros.
Diz o relatório que a inoperância da Funai na retirada dos garimpeiros, agravada pela expulsão dos profissionais de saúde, “teve como consequência direta as mortes decorrentes de conflitos”.
CONFLITO DE INTERESSES
A fortuna de Romero Jucá vem em boa parte da mineração. A maior parte dos bens foi transferida ainda nos anos 90 para os filhos, sócios de 12 empresas. O que não o impede de fazer projetos de lei relativos ao setor. Ele é autor de uma PEC que permite a exploração mineral dentro das reservas indÃgenas. Essa prática – muito comum no Congresso – atende pelo nome de conflito de interesses. E tudo pode sempre ser pior: David Kopenawa diz que Jucá e sua famÃlia incentivam a invasão de terras indÃgenas por garimpeiros.
O senador foi afastado do Ministério do Planejamento não por seu histórico peculiar. mas porque foi flagrado em uma conversa conspiradora. Golpista. O que um polÃtico como ele pode planejar? A serviço de quem? Neste texto de 2013 explico a teia de interesses que liga polÃticos à s mineradoras. Especialmente do PMDB – o partido que chega mais um vez por vias tortas ao poder. Conto também uma curiosa história – enterrada pelo STF – sobre a relação entre Romero Jucá e uma empreiteira (sempre as empreiteiras), a Diagonal. O ministro Dias Toffoli não viu problema nenhum no caso.
Machado e Jucá resumem a face violenta e ilegal do Brasil rural. Esse da grilagem, da invasão de terras indÃgenas, da expulsão de camponeses. E que sempre acaba ganhando o aval do Judiciário. Ou do governo de plantão – golpista ou não. Das incursões do ex-presidente da Transpetro pelo oeste do Paraná (região que também dizimou indÃgenas, ao longo do século 20) à s estripulias de Jucá, temos um mesmo Brasil arcaico. Que, em meio ao nosso sistema polÃtico ruralista, costuma ser muito bem representado em BrasÃlia.
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