Massacre de Pau D’Arco e Massacre de BrasÃlia: duas faces de um paÃs que regride
Publicado 25/05/2017 às 13:05
O assassinato de dez camponeses no Pará remete o Brasil aos anos 90; o Exércico reprimindo manifestações na capital, aos anos de chumbo; tudo no mesmo dia
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
Em Pau D’Arco, no Pará, dez camponeses foram mortos pela polÃcia, nesta quarta-feira. O mesmo número do Massacre de Corumbiara, em Rondônia, em 1995. No ano seguinte foram mortos 19 sem-terra em Eldorado dos Carajás, também no Pará. As duas matanças marcaram o governo de Fernando Henrique Cardoso. Por isso é preciso que se dê o nome de massacre, com todas as letras: o Massacre de Pau D’Arco já passa a ser uma das marcas do governo de Michel Temer.
Outra marca desse presidente transitório ficará gravada para sempre na história brasileira da infâmia. A indefensável e intempestiva decisão – curiosamente corroborada por um ministro que já foi de um partido comunista, Raul Jungmann – de autorizar o uso do Exército para reprimir uma manifestação. Isto em um paÃs supostamente democrático. Ocorreu ontem, em BrasÃlia. Mas demorará a ser esquecido.
O Massacre de Pau D’Arco foi precedido, há menos de dois meses, pelo Massacre de Colniza, no Mato Grosso, com 9 mortos. Somando os dois já temos o número do Massacre de Eldorado dos Carajás, o maior deste último perÃodo democrático. No ano passado, no aniversário de 20 anos desse massacre, a Câmara votava o impeachment de Dilma Rousseff, em nome oficialmente de Deus e da famÃlia. Temer tornava-se presidente interino. Condição da qual ele parece não querer abrir mão.
Com os novos massacres no campo o Brasil retrocede duas décadas.
Com a repressão verde-oliva em BrasÃlia, quatro. Ou cinco.
Cabe assinalar que o aumento da violência no campo, já uma realidade constatável, tem como combustÃvel o pacote de maldades agrárias da bancada ruralista e do (como diz o advogado Luiz Henrique Eloy, do povo Terena) governo ruralista. Os fazendeiros e madeireiros estão assanhados.
Registre-se, também, que boa parte dos assassinatos polÃticos no campo tem girado na órbita da Liga dos Camponeses Pobres, que prega uma revolução agrária e adota métodos de ocupação mais ostensivos – o que a torna presa preferencial de ruralistas raivosos.
Curiosamente, o golpe de 1964 ocorreu, em boa parte, pelo medo de algo muito mais palatável, para as elites econômicas, que a revolução agrária: a reforma agrária, algo próprio do capitalismo, mas pintada por embusteiros como coisa de comunista.
Embusteiros, em 2017, não faltam. A ponto de um governador, Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), e um presidente da Câmara de um partido que já foi a Arena, Rodrigo Maia (DEM-RJ), desautorizarem a versão do ministro da Defesa, Jungmann, para a entrada em cena dos coturnos.
De embuste em embuste e de truculência em truculência, e com o festival de destruição de direitos dos últimos meses, o Brasil não retrocederá somente 20 ou 40 anos. Talvez uns 150. Não à toa já tem monarquista entusiasmado por aÃ. Eles devem olhar para Temer e pensar: se até ele pode, por que não nós?
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