Brasil agora tem uma esquerda “valente”, caçadora de estagiários

estagiario

Estudante de Engenharia foi demitido da empresa após escrever contra feministas

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Em vez de defender trabalhadores e debater temas econômicos, vem aí a “esquerda que pede a cabeça de pecadores”; combater o capitalismo ou o Estado, nem pensar

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Durante a ditadura de 64, milhares de jovens, senhores e senhoras ousaram desafiar os tanques e coturnos. Foram exilados, torturados, assassinados. Não que o enfrentamento revolucionário fosse o único caminho. Houve quem desafiasse o sistema de outra forma. Com um jornal, com textos, com músicas. Foi também por essa legião de resistentes que pudemos voltar ao esboço de democracia que vivemos (com todos os seus defeitos) durante 30 anos. E que hoje é um títere na mão leve de farsantes.

Antes, durante a era Vargas, outros brasileiros corajosos arriscaram seus pescoços em nome de ideais. E de compromissos perenes. Basta pensar nos homens descritos por Graciliano Ramos em “Memórias do Cárcere” para se ter uma ideia da tenacidade, da capacidade de resignação, da necessidade de desenvolvimento de códigos (e de silêncios), de respeito aos companheiros – pois se sabia que a luta era longa e que qualquer vacilo podia ser fatal. Falhava-se, sim, sem dúvida – mas não sem um certo senso de disciplina.

O Brasil de 2017 assiste a uma nova espécie de esquerda, ou pós-esquerda, ou esquerda-implosiva (se é que se pode falar aqui de esquerda), finalmente sintetizada no Glorioso Caso do Linchamento do Estagiário. Parem as máquinas: um estagiário postou fotos de seu trabalho, acompanhadas de frases sexistas. É ele, portanto, o vilão. O vilão possível. Esqueçam de Alexandre de Moraes e dos golpistas, do PMDB (e de qualquer ideia de partido) e de genocidas de direitos – temos um jovem estagiário para linchar nas redes sociais.

Que se retire não somente o emprego do estagiário, mas que se escalpele seu futuro. Nenhuma dignidade será possível (pensa essa esquerda) a esse jovem nas próximas décadas. É preciso condená-lo rápido, nomeá-lo, pendurá-lo  em nossos postes virtuais. Assim como não bastou que a jovem médica que disse barbaridades sobre Marisa Letícia da Silva fosse demitida. Há uma necessidade de marcar e queimar os hereges – enquanto os verdadeiros genocidas do Brasil continuam dormindo tranquilos.

Afinal de contas, o que é hoje um “emprego”, não é mesmo? Nesta era fluida esquecemos das relações de trabalho. Muito embora um metalúrgico tenha morrido prensado, na segunda-feira, em Pindamonhangaba (SP). Ou um jovem de 22 anos, pai de um filho, tenha morrido eletrocutado, na terça-feira, em Patrocínio (MG). Ou dezenas de motociclistas morram toda semana para mover essa máquina (ainda uma máquina de moer carne), a mesma que extermina presidiários por meio da tortura – das condições de vida abjetas – e da tuberculose.

soterrado

Em Criciúma, um trabalhador foi soterrado. Quem liga?

Insisto nas condições de trabalho porque essa classe média que recebe a pizza do motoboy sem problematizar sua trajetória profissional e que encara as lutas identitárias como causa única, primeira e finalidade de seus atos (nenhum problema com suas lutas, mas com suas maximizações míopes) abandonou os temas econômicos, as opressões advindas das relações sociais de produção. Abandonou a luta de classes. Esqueceu-se dos patrões – e passou a procurar a próxima selfie escrota do estagiário de plantão.

PÓS-ESQUERDA

Poderemos dormir tranquilos com as milhões de crianças que ainda trabalham no campo? Com os camponeses e indígenas expulsos de suas terras, que têm suas casas destruídas, seu modo de vida inviabilizado? Com os trabalhadores da soja ou da cana que morrem esmagados em silos ou têm seus braços amputados em jornadas assassinas? Poderemos. Desde que localizemos os tais vilões possíveis, como os pais adotivos que ousaram fantasiar o filho de Abu durante o carnaval, há um ano. Ou alguma adolescente que tenha escrito alguma barbaridade homofóbica.

Isso enquanto adolescentes vão parar em alguma pós-Febem (netos dos camponeses expulsos por grileiros, tataranetos dos escravos) e as populações da periferia levam seus baculejos do dia a dia. E enquanto o governo implode o ensino médio, a previdência e a CLT.  “Ah, mas as lutas não são excludentes”. Claro que são. Basta observar a desproporcionalidade. Os novos lutadores intrépidos escolheram determinadas bolhas – menos do que as esferas de Ernst Bloch, portanto, esferas líquidas – nas quais eles podem exercer seu Perfeito Senso de Justiçamento, a justiça que as elites política e econômica permitiram a eles. Muito além do STF. Um clique, um paredão.

Não temos mais patrulhas ideológicas. Temos caçadores de Pokémon, patrulheiros dos pecados efêmeros (ainda que inseridos em narrativas absolutizantes), como se a cada momento pudesse aparecer um novo alvo a ser exterminado, ou exibido como troféu. Desde que se enxugue gelo o bastante, e desde que se faça de conta que, assim, estamos lutando efetivamente contra o patriarcado ou o racismo ou a homofobia. E desde que se não fale em exploração do trabalho, em gentrificação ou land grabbing, em pagamento eterno de dívidas, em pilhagens que nos obriguem a repensar o sistema – seu nome, capitalismo.

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