Brasil precisa de uma CrÃtica da Aceleração CÃnica
Publicado 19/11/2016 às 02:55
O cinismo no Brasil virou um atropelo. Uma disparada. Uma manada de cÃnicos tomou o Planalto, referendada por cÃnicos de toga e por multidões de cÃnicos polÃticos
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
O filósofo alemão Peter Sloterdijk escreveu sua “Critica da Razão CÃnica” em 1983. Mais de 30 anos depois, podemos usar o mote para pensar na extensão do cinismo em terras brasileiras, nestes tempos recentes. A ética das conveniências – uma ética à s avessas, portanto – tem sido invocada por atores polÃticos de diversos matizes. Particularmente pelos que pretendem preservar o estado atual das coisas. Como os cÃnicos descritos pelo alemão.
Não falo dos cÃnicos originais, claro. Como o grego Diógenes, aquele da Lanterna. Assim como outros termos (“prudência”, por exemplo), a palavra cinismo foi ganhando, ao longo dos séculos, um contorno oposto. De uma postura libertária, provocativa, contestadora, iconoclasta, foi aos poucos se tornando isso o que está aà – uma palavra em sintonia com as práticas cotidianas da burguesia. Ligada a um fingimento – mas um fingimento conservador, quase violento.
Sloterdijk fala de cinismo na imprensa, na universidade, na religião. Até no sexo. Fala de cinismos. E, claro, fala de cinismo na polÃtica. Seria desnecessário enumerar todos os casos recentes na história do Brasil. Estão bem à vista. Basta olhar para a TV e vislumbrar a face do ministro Geddel Vieira Lima. Ou relembrar os momentos pouco grandiosos da entrevista do presidente Michel Temer a vendedores de secos e molhados no Roda Viva, da TV Cultura, na última segunda-feira.
O que estou questionando aqui é a súbita aceleração. O cinismo no Brasil virou um atropelo. Uma disparada. Uma manada de cÃnicos tomou o Planalto, referendada por cÃnicos de toga (cÃnicos clássicos, cheios de mesura), e por multidões de cÃnicos polÃticos, antes incomodadÃssimos com a corrupção-do-PT e agora um tanto distraÃdos em relação a acusações que envolvam o presidente-poeta, seus ministros ou tucanos de altas plumas.
Lembram-se daquele cinismo do futebol? Aquele cinismo quase saudável, que a gente exercita quando defende somente o nosso time, maldiz as decisões estapafúrdias apenas do juiz que nos prejudicou? Pois bem, agora vivemos um estado de 90 minutos vezes 90 minutos de cinismo: o cronômetro simplesmente não parou, e aqueles músculos nos cantos da boca ficaram meio que congelados. Com isso passamos a defender – nas redes sociais e nas ruas – posições que sabÃamos ser indefensáveis.
Por cinismo explÃcito. Por ampla gama de falta de informações. Por ingenuidade ou por oportunismo, tudo junto. Mas no máximo a partir de um caleidoscópio ambulante que corre a partir de pernas cÃnicas. As pessoas que comemoram a saÃda de médicos cubanos talvez se refiram de modo condoÃdo à morte de brasileiros pobres nos rincões do paÃs. E talvez sejam as mesmas que acham graça na cena de um ex-governador sendo preso em pleno hospital, em plena maca.
Esse caleidoscópio cÃnico move-se rapidamente a partir de um simulacro de verde-e-amarelo rumo a uma imensa mancha preta – mas preta de fascismo. Misto de entropia e buraco negro. A luz no fim do túnel apenas ofusca – ou serve de flash para nosso exercÃcio diário de disparar sorrisos (em meio a selfies paralisantes) enquanto os esboços de coesão social se esfacelam. O pacto coletivo possÃvel simplesmente se esboroa. A crise está à vista. Sim, ela é econômica. E é polÃtica. E é cÃnica. Não olhem agora, mas ela já nos engoliu.
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