Sim, era açúcar; caso Imbassahy ilustra o quanto perdemos o bom senso
Publicado 31/08/2016 às 12:02
Espécie de “Blow-Up” à s avessas, investigação nas redes não passou de suposição; apego excessivo a um detalhe ocorre enquanto ocorre um golpe, estrutural
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
Viramos caçadores de imagens fugidias. Durante a sessão de anteontem no Senado, subitamente decidiu-se, nas redes sociais, que o deputado federal Antonio Imbassahy (PSDB-BA), postado logo atrás do senador Aloysio Nunes (PSDB-SP). portava um papelote de cocaÃna. E essas conclusões súbitas têm-se tornado irrevogáveis. Como se fossem a verdade absoluta e como se fossem… relevantes.
Um olhar atento para o vÃdeo do G1, em alta resolução, mostra que o objeto que o deputado batuca na mesa é retangular – e branco. CompatÃvel com um sachê de açúcar. E não com um papelote de cocaÃna. (Droga muito consumida em BrasÃlia, no Congresso e fora dele, e em todo o Brasil.) O leitor mais teimoso poderá ter certeza do contrário. Mas estará sendo leviano se acusar sem provas.
No filme “Blow-Up” (1966), de Michelangelo Antonioni, o protagonista descobre um crime, em um parque, a partir de ampliações sucessivas de uma foto. Neste nosso arremedo de investigação, damos um close e decidimos que o parlamentar está cometendo um crime. Porque sim. Ou porque é tucano. Naquele caso havia a ampliação de sentido, uma ressignificação – do banal para o relevante.
No Brasil, em 2016, ocorre o contrário. Estamos em pleno processo de votação de impeachment de uma presidente eleita com 54 milhões de votos. Estamos diante de um golpe. De algo extremamente estrutural para os rumos do paÃs. E, de repente, não mais do que de repente, voltamos nossos olhos para as mãos de um único parlamentar – como se fôssemos observadores de tÃteres.
A denunciar hipocritamente (em boa parte dos casos) a suposta hipocrisia do deputado. Ora, Imbassahy e tantos outros são hipócritas e cÃnicos pelo que eles vêm fazendo com a polÃtica brasileira, com essa implosão da democracia. Não por batucar um saquinho. E, se fosse cocaÃna, seria ele o vilão, como consumidor? Claro que não. Não era ele o dono do helicóptero com 500 quilos da droga.
É claro que a polÃtica antidrogas precisa mudar. Que ela tem interesses geopolÃticos, convém aos aparelhos repressivos. Que ela é responsável por um duplo genocÃdio no Brasil: o que acontece nas periferias, com jovens assassinados por policiais, e nos presÃdios – onde essas pessoas são despejadas em condições subumanas para morrerem de tuberculose ou facada.
Mas não pode ser uma mão que balança um saquinho a notÃcia deflagradora desse debate. Temos chacinas o suficiente para que – observem que o cinismo nos ronda – tomemos esse fato banal (e suposto) como o fato a nos debruçarmos. Até porque a decisão que estava sendo tomada ali do lado – a do impeachment – pode significar uma piora também nos mencionados genocÃdios.
O curioso é que os que estão a julgar e linchar o deputado são os mesmos que abominam a condenação sem provas de Dilma Rousseff. Ou pelo menos a condenação desproporcional. Contraditório, claro. E tÃpico do momento linchador em que vivemos. Passamos a tomar as imagens aparentes como expressões da realidade. E perdemos o senso de proporção – esse que era tão caro a Michelangelo Antonioni.
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