25 considerações sobre a lista de polÃticos de Sérgio Machado
Publicado 16/06/2016 às 12:52
Um olhar inicial para citados em delação homologada convida a reflexão sobre “elite branca”; reflexão posterior questiona quais desses serão convenientemente rifados
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
O Estadão desta quinta-feira traz na capa o rosto dos 25 polÃticos mencionados por Sérgio Machado na lista de delação homologada. Seriam aqueles envolvidos em esquema de corrupção da Transpetro. Seguem algumas considerações:
1) A lista é significativa, mesmo que consideremos – como deve ser – cada um daqueles brasileiros inocentes, até prova em contrário, em relação aos crimes apontados pelo ex-presidente da Transpetro. Simbolicamente significativa.
2) Está lá o que o ex-governador paulista Cláudiio Lembo já definiu como “elite branca”. Mesmo que alguns deles (Heráclito, Garibaldi, Sarney) dificilmente sejam identificados como brancos em um paÃs europeu.
3) A lista é masculina. E a presença de duas mulheres (uma do PT e uma do PCdoB) apenas confirma a regra.
4) A presença excepcional de um negro (igualmente do PT) também confirma a regra. A elite é branca.
5) Uma dessas mulheres, deputada fluminense (Jandira), e o único negro da lista (Edson), também deputado pelo Rio, aparecem como peixe fora d’água. Não combinam com o restante.
6) Não combinam porque, acusações à parte, defendem causas justas. Que causas os demais 23 da lista defendem? Sejam elas quais forem? Que temas nobres podemos associar a Jucá, Renan, Lobão?
7) Na outra ponta, temos os nomes previsÃveis. Recorrentes. Aqueles que aparecem em tudo que é lista. Que surpresa temos ao ver os nomes de Lobão, Jucá, Renan, Sarney, Raupp, Jader, Aécio? Nenhuma. São figurinhas fáceis do álbum.
8) Ato falho: o Estadão publica em tamanho menor sete desses rostos. Dois deles são o negro e uma das mulheres. Porque são mulher e negro ou porque não têm centralidade em uma narrativa maior? (A de um esquema efetivo de corrupção?)
9) Dois desses rostos em cÃrculos menores são tucanos: Teotônio Vilela Filho e o falecido Sérgio Guerra. Vilela sobrevive do nome do pai falecido, o “menestrel das Alagoas” da música de Milton Nascimento. Estão escondidos por não terem centralidade ou porque são tucanos?
10) Sim, outro tucano aparece logo no topo da lista: Aécio Neves. Mas também, né. O cara foi candidato à Presidência da República nas últimas eleições. Preside o partido. Aparece em tudo que é evasão de diálogos pouco republicanos. Como escanteá-lo?
11) Ao mesmo tempo, Aécio pode ser um dos rifados por essa mesma elite branca. O boi de piranha necessário. No caso, boi de piranha plumado e com bico longo. Quais seriam os outros polÃticos rifáveis da lista? Aqueles menos populares em seus partidos? Ideli? Chalita?
12) Todos os polÃticos listados, por outro lado, podem compor uma lógica da rifa. Se alguns forem preservados a regra continuará valendo. Podemos estar vivendo um momento em que a tal elite branca faz uma reciclagem de si mesma, para sobreviver. Como no Leopardo (1958) de Giiuseppe Tomasi di Lampedusa: “Se queremos que tudo permaneça como está, é preciso que tudo mudemos”.
13) A frase do escritor italiano foi imortalizada em filme de Luchino Visconti (1963). Constatação: os listados não têm nada do glamour retratado pelo diretor italiano. DifÃcil imaginar alguém dessa lista num baile aristocrático. (E não somente pela feiura do Heráclito e do Lobão.)
14) Deixei passar o 13º item sem falar do PT. Que tem alguns nomes na parte de baixo da lista: Marco Maia, Ideli, Vaccarezza. Não aparecem na lista: Dilma, Lula, Dirceu. Ou mesmo Mercadante, Mantega, Genoino.
15) A lista também não tem condenados no mensalão. De Bob Jefferson aos petistas e pepistas. Mas não era esse “o maior escândalo de corrupção da história”? (E que história é essa de mensalão do PMDB? Vamos contar isso direito?)
16) A lista traz arautos da moralidade. Como Agripino Maia, do DEM. Ou Aécio. Gente que enche a boca para falar da corrupção de partidos especÃficos – aqueles ainda não tão vinculados à elite branca.
17) A lista é suprapartidária. Talvez excessivamente suprapartidária. Sim, tenho simpatia por Jandira (ainda que não por seu partido), mas o que mesmo o PCdoB está fazendo no meio dessas feras?
18) Mas voltemos aos arautos da moralidade. A lista é encabeçada pelo mordomo. Por Michel Temer. Mas, mas… Michel Temer? Sei que este não será o tópico mais original deste texto. Por outro lado… Michel Temer? (O presidente interino golpista? Esse que está implodindo ministérios e polÃticas sem ter sido eleito? Michel Temer?)
19) Vou utilizar outro item para reiterar a presença de Michel Temer na lista. Será que as fotos dos 25 polÃticos não poderiam ser substituÃdas por uma foto imensa de Michel Temer? Michel Temer com a faixa presidencial, acusado de corrupção. Michel Temer, o Acusado. Michel Temer na Lista da Propina.
20) Do presente ao ausente: cadê Eduardo Cunha? (O jornal informa ao lado que ele estuda acordo de delação. Teremos outros 25 acusados? Ou 250?)
21) Não daria para fazer 250 itens relativos a uma acusação sobre 250 pessoas. Mas isso nos convida a uma reflexão estrutural: trata-se somente de pegar este ou aquele corrupto, aquela figurinha mais carimbada ou mais rifável? Ou o presidente cÃnico de plantão? Vamos engaiolar algumas centenas de corruptos e pronto?
22) Quais os mecanismos que levam esses senhores respeitáveis a compor essa amostra de 25 polÃticos acusados de corrupção? Afinal, esses são os polÃticos. Os mediadores. Ou corrompidos. Onde está a turma do dinheiro? Ela ganhará lista similar? (Não estou falando somente dos empreiteiros, igualmente mais ou menos rifáveis nestes últimos e curiosos tempos.)
23) Eu não poderia deixar de falar dos ruralistas, não é mesmo? Eles estão na lista: Temer, Renan, Sarney, Lobão, Aécio, Maia I, Maia II, Alves I, Alves II, Heráclito, Jader, Jucá, Raupp, Vilela. Nossa. Só aqui já deu 13. E acho que esqueci alguém. E por quê? Porque nossa aristocracia polÃtica é ruralista. Nessa proporção.
24) O item acima nos inspira também a falar dos clãs: clã dos Maia, dos Alves, dos Vilela, dos Calheiros, dos Sarney. Entre outros. Por coincidência a lista traz 25 pessoas, o número do DEM. A lista é um enorme PFL. Engordado com os filhos bastardos do PMDB. Aristocracia sem glamour. Decadência sem elegância.
25) A palavra “delator” vem do latim delatus. Por sua vez, particÃpio passado de deferre. Sim, denunciar, acusar. Mas também levar de um lugar para outro. (Inicialmente não tinha conotação negativa. Significava o relato de algum ilÃcito – algum escravo fugitivo, por exemplo. Depois vieram os aproveitadores.)
Ou: é preciso mudar a elite branca para que ela continue a mesma.
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