Novo filme dos Irmãos Taviani nos convida a refletir sobre nossas pestes
Publicado 06/05/2016 às 12:25
“Maravilhoso Boccaccio” se inspira nos contos do escritor florentino para refletir sobre males contemporâneos; discriminação, violência e invisibilidade estão entre os temas
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
Paolo Taviani avisa: “Maravilhoso Bocaccio” (2015) é um filme sobre a peste. Não apenas a peste do século 14, retratada no “Decameron” de Giovanni Boccaccio, mas aquela contemporânea. O mais novo dos Taviani (Vittorio está com 86, ele com 84) está de olho no que acontece na Itália, claro, mas o filme que estreou ontem em São Paulo nos convida a refletir sobre as diversas aplicações possÃveis da metáfora no cenário brasileiro.
Cineastas do porte de Paolo e Vittorio Taviani certamente estão fazendo referência à “Peste” de Albert Camus (1947), onde o flagelo representava diretamente o fascismo. E, se há neofascismo na Europa, há também no Brasil. E como reagir a ele? Os dois diretores – comunistas – sempre propuseram a arte como um dos antÃdotos. (Nesse sentido, chega a ser desolador ver a sala vazia em plena estreia de um filme de dois dos maiores cineastas vivos.)
Qual seria a fuga possÃvel? A versão dos Taviani para o “Decameron” foca em uma saÃda idÃlica de dez jovens de uma Firenze tomada pela peste – e pela discriminação. No campo, contam histórias. Histórias de novas discriminações, crueldades, mas também de amores improváveis, de amizade, como a amizade de um jovem empobrecido com um falcão (sim, a ave). Uma realidade um tanto distante dos simulacros contemporâneos – mas é de um cinema utópico que estamos falando.
“Maravilhoso Bocaccio” é também um filme sobre invisibilidade. Sobre o espaço oculto, aquilo que não se vê ou não se percebe. Não só diretamente, como no primeiro episódio, brilhantemente estrelado por Kim Rossi Stuart, um idiota que acredita ter se tornado invisÃvel ao tocar em uma pedra mágica. Mas indiretamente. Em um dos cinco episódios não se percebe um coração que continua batendo. Em outro um menino brinca de cabra-cega, prenunciando uma tragédia que oscila entre o amor e a amizade.
Fascismo e invisibilidade caminham juntos. No Brasil, não é preciso ter muita imaginação para identificar quais seriam nossos empesteados, os brasileiros diariamente discriminados. A começar dos povos indÃgenas, passando pelos camponeses ou por aqueles que professam determinadas convicções polÃticas. A nossa fuga para o campo não é exatamente idÃlica, mas uma caça (nossos falcões não são amigos), representa a destruição daqueles que poderiam nos alertar sobre o alastramento da peste urbana.
Boccaccio acabou se tornando mais conhecido pelo erotismo. Mas Paolo e Vittorio Taviani chegam a apagar a luz (fechando as janelas do quarto) em uma cena em que os dois protagonistas estão prestes a transar. E não por pudor. É que eles optam por valorizar o que há de sublime – ou maravilhoso – na obra-prima do escritor florentino. Eles apostam na narrativa, na contação de histórias como um recurso de resistência. Cabe a quem pensa em resistir ouvir, humildemente, o que os dois cineastas sábios têm a dizer.
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