Uma empanada, por favor. A minha, sem celular

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Crônica sobre uma tentativa de momento introspectivo em um balcão de bar; um smartphone invade espaço que já foi de reflexão, observação, um relativo silêncio

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Depois da aula, passei no Bar do Seu Zé. Instalei-me no balcão. Uma cerveja e uma empanada, por favor. Ah, que bom, hoje tem copo de vidro. Em tempos idos grudávamos no balcão – nós, os melancólicos – para ficarmos sozinhos, em meio aos múltiplos ruídos do bar. Depois chegaram nos botecos as TVs, cada vez maiores, cada vez mais planas, com pleno estímulo das cervejarias. Um drama em si, uma heresia, mesmo para quem gosta de futebol e quer ficar supostamente sozinho no balcão – mas rodeado de gente.

Hoje aboletou-se um ser de outra espécie ao meu lado. Um bípede com duas maquininhas eletrônicas, devidamente reenergizadas, baterias no último, dois celulares pretensamente espertos gritando, uivando, invadindo, violando meu espaço, iniquizando (sempre é tempo para inventar uma palavra), gritando, uivando, berrando, com música, com vídeo, com uma voz feminina em timbre improvável – um ser humano e seu apêndice invadindo o espaço tradicional do balcão.

Comi minha empanada. Escarola, queijo e bacon. Tomei minha cerveja. Estava gelada. Meu ouvido esquerdo se esforçava ao máximo para abstrair, distanciar-se dali, mas lá estava o estrondo, essa dinamite contemporânea, e esse exibicionismo atroz, ubíquo, lá estava aquele homem (vislumbrei um cinquentão, careca, de óculos) deslumbrado com aquela possibilidade de comunicação e fazendo questão de exibi-la, assegurando-se de que todos ao lado (todos os solitários num balcão na Vila Madalena) o ouvíssemos, ouvíssemos sua granada.

Pensei em tempos idos. Quando um balcão era um balcão. Quando prestávamos atenção na coleção de cachaça e nada nos incomodava, o que está mesmo escrito ali? Que desenho é aquele? Mas não. Tzzzbluffgagaga. Pkrtttt. Timbre improvável. Grrrrrrrkplochtzatza, um celular maldito, um homem maldito, eu quero meu balcão, não quero neste momento meu travesseiro, quero apenas aquele meu balcão de antigamente, será pedir demais? Meu balcão, kzlplof, rrrrrrrrrrrrrrrrrrzzpftkatz, o demônio ao meu lado, o Aleph do som de todos os infernos.

E não era um adolescente. Era um cinquentão adesista. Mais um bico na cerveja e eu disse a ele, seu grande canalha, seu sequestrador, grileiro de balcões, seu ogro impiedoso, pare de pisar nos meus ouvidos, suma daqui, vá fazer barulho na sua casa, entre azulejos, este é um lugar íntimo, intimista, aqui costumava ser o meu balcão. Não disse, claro, pensei – fulminando-o com os olhos, mas claro que ele não percebeu, ele estava dialogando com o próprio mundo barulhento. Um mundo com um timbre improvável.

Tomei mais um gole, arrebentei a empanada. Esperava mudar o mundo, com o cotovelo no balcão (antigamente eu costumava mudar o rumo do país e do mundo incrustado no balcão), mas me derrotei ali, mundano, impotente. E desisti da solidão. Entabulei uma conversa com a balconista, sobre filhas, sobre o tempo, sobre os bares e balcões que mudaram, não voltam mais, enquanto o gigantesco insensível e intruso se levantava para pagar a conta, sem ritual, sem um protocolar e encenado tempo de espera, de hesitação, sem algum olhar significativo para a fileira de cachaças.

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