Do roubo de merenda em SP à dentista que fura gengivas de crianças

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Ocupação de secundaristas em SP (Foto: Marco Estrella/ Jornalistas Livres)

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Estudantes de Odontologia da USP torturam pacientes para “acalmá-los”; enquanto isso, secundaristas enfrentam corajosamente policiais da Tropa de Choque

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

A crise é ética. E está do lado dos mais fortes. O que têm em comum os ladrões de merenda em São Paulo e as estudantes de Odontologia da USP que não veem problemas em furar gengivas de crianças para “acabar com a birra”? Poder, claro. E um profundo desprezo pelos direitos específicos dessas pessoas, como se elas fossem meros objetos, ou números (no consultório ou na dança dos orçamentos públicos).

A história das torturadoras de crianças está circulando pela internet. Não é o caso de colocar o nome delas. Quem sabe o Ministério Público tenha interesse. Um pouco mais do que certas feministas que cobraram sororidade (solidariedade entre mulheres) como motivo para não expor as estudantes. Não é o caso porque não se deve fazer linchamentos virtuais. Nem de homens nem de mulheres. Mas as crianças, sim, essas devem ser protegidas.

Os nomes dos ladrões de merendas estão sendo investigados. Nenhum ladrão de merenda pode ser considerado ladrão de merenda até prova em contrário. A verba para merenda foi roubada, sabemos, e os ladrões de merenda só poderão ser chamados de ladrões de merenda após uma sentença transitada em julgado (ao contrário do que acontece com pessoas de outros partidos). Mas tudo aconteceu durante o governo de Geraldo Alckmin.

Eu vejo cada um desses ladrões de merenda com um bisturi na mão, perfurando gengivas de crianças enfileiradas. Ou uma seringa Carpule, é esse o nome exato do instrumento odontológico? Perfurando gengivas de crianças pobres – essas que precisam do atendimento de estudantes de Odontologia da USP e precisam de merendas. E que têm suas gengivas roubadas e os bandejões furtados. E que não têm para onde correr – são crianças.

Ontem vimos adolescentes ocupando a Assembleia Legislativa de São Paulo, em protesto contra os ladrões de merenda. E eles estão cobertos de razão. São crianças que cresceram e que talvez tenham tido suas gengivas perfuradas por estudantes torturadores. E que resolveram gritar. Reagir. Unidos, como torturados e furtados precisam fazer, para enfrentar a seringa e a caneta dos opressores cleptomaníacos. Os ladrões de gengiva.

Ao ver a batida em retirada dos policiais da Tropa de Choque quase consegui ouvir o bufo de cada um deles, de cada um desses cidadãos (que talvez já tenham sido torturados por alguma estudante de Odontologia boçal) adestrados para reprimir seus pares. Eles saíram bufando, eu vi isso perfeitamente, frustrados por não poderem reprimir aqueles que gritavam pelo fim da PM – essa instituição perpetuadora da tortura e dos assassinatos.

Assim como as estudantes bateram em retirada diante da viralização – nem sempre muito responsável, como já vimos – do relato cruel (e sob aplausos) do método perfurante de acalmar infantes. Alguns dos apoiadores desse método talvez sejam até progressistas em outros aspectos; tenham sororidade ou outros tipos de solidariedade, talvez queiram a reforma do sistema de segurança pública e punições a políticos que não sejam punições cínicas.

Mas penso nos pesos da covardia. Da percepção cristã (ou foucaltiana, tanto faz) dos males que estão mais próximos de nós às covardias incrustadas no poder, do poder de um dentista no consultório ao poder de alguém que libera verbas orçamentárias para merenda. Em que momento exato se forma um covarde, um torturador de gengivas? A quantos passos da psicopatia está um ladrão gargalhante e engravatado de merendas?

Soa necessário combater esses desvios em duas vias. Sem colocar todo mundo na cadeia – não é de mais torturas que precisamos. As torturadoras da USP talvez repensem seus risinhos após a exposição de suas pequenas grandes canalhices. Mas quem sabe a USP não deva fiscalizar melhor a formação de seus estudantes, não é mesmo? Essa, a primeira via – um combate efetivo às micro-opressões. Que não seja apenas individualizado.

Mas que não nos esqueçamos das macro-opressões. Pois elas constituem esse tecido social que é diariamente violentado – como uma gigantesca gengiva indefesa – por alguns usurpadores de plantão. É de afirmação de poderes gigantescos que se trata. De defesa absoluta da propriedade (mesmo que furtada) que se trata. E são esses macropoderes que perpetuam (pelo exemplo, pela escala) aqueles micropoderes covardes.

Os secundaristas de São Paulo estão certos porque perceberam que (estrategicamente, e no sentido figurado) é melhor segurar o braço do torturador – desobedecer, desafiar – antes que ele descarregue o bisturi. A seringa. A caneta. A arma.

PS: Informou-se posteriormente que a estudante que fez o primeiro post é da FMU. A que concordou e achou o máximo a ideia de furar a gengiva, da USP.

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