Por que a corrupção em Belo Monte não ganha o mesmo destaque que a da Petrobras?
Publicado 09/04/2016 às 17:37
Porque não se trata somente de combate à corrupção; interesses econômicos na demonização da estatal são os mesmos que naturalizam modelo predador de usinas
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
Quando veremos uma capa de revista sobre a corrupção na usina de Belo Monte?
Embora o projeto originado na ditadura militar seja uma das maiores obras de infraestrutura já feitas no paÃs, as notÃcias sobre corrupção na hidrelétrica não chegam aos rodapés das notÃcias sobre corrupção na Petrobras. Por quê?
Porque o interesse da grande imprensa não é combater a corrupção. Nem mesmo apenas o de combater a corrupção em governos do PT. Este objetivo existe, claro, já que outros grupos polÃticos são considerados ainda mais convenientes para a perpetuação do capital, mas não é qualquer corrupção (do PMDB, do PP, do PT) em governo petista que merecerá amplo espaço.
Ocorre uma sobreposição de interesses, portanto. A velha bandeira liberal da privatização está implÃcita na tomada da corrupção na Petrobras como objetivo primeiro e último das investigações jornalÃsticas (se é que há, de fato, investigação jornalÃstica neste paÃs) e policiais. O assunto é importante? Claro que é. Mas não há como negar o recorte temporal – investigar o governo FHC não dá, não pode.
Da mesma forma, Belo Monte só seria tomada como bandeira caso um escândalo como o da Petrobras não estivesse na mÃdia. Como ele está, por que destacar um batalhão de repórteres para essa cobertura especÃfica? Vai que alguém questione o modelo de construção da hidrelétrica, não é mesmo? (Impositivo, pouco democrático no que se refere aos povos indÃgenas e populações tradicionais da região.)
O que se está dizendo aqui é que o interesse público é invocado apenas na medida em que vá ao encontro do interesse privado. As delações relativas a Belo Monte (que mencionam figuras importantes da história recente da República) são noticiadas, mas sem o mesmo Ãmpeto. Vemos editoriais questionando a gestão da Petrobras e sua condição de estatal, mas a lógica por trás da usina será preservada.
A imprensa cobre corrupção com aquele peculiar método holandês do dedo no dique. E não admitirá que aqueles ambientalistas chatos e movimentos sociais radicais estavam redondamente certos.
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