Matheus, 5 anos; Ana Beatriz, 5 anos; Ryan, 4 anos; descansaremos em paz?
Publicado 04/04/2016 às 21:37
Todos foram baleados; Matheus jogava bolinha de gude quando foi morto, no sábado, sob a clássica alegação policial de que havia “confronto”; famÃlia nega
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
Três casos recentes de crianças baleadas e mortas em municÃpios do Rio.
Matheus Santos Moraes, 5 anos. Jogava bolinha de gude na rua quando foi baleado, no sábado, em Magé. Enterro foi no domingo. Os policiais descansarão em paz?
Ryan Gabriel, 4 anos. Estava na porta da casa do avô, em Madureira, na capital, em pleno domingo de Páscoa. O governador do Rio descansará em paz?
Ana Beatriz Duarte e Sá, 5 anos. Atingida por bala perdida no dia 10, em São Gonçalo. Descansaremos em paz?
DO DESCANSO AO DESESPERO
As informações estão em texto do portal G1: ‘Ele não vai voltar’, se desespera mãe de menino morto em Magé, RJ
Desesperar, jamais? O que aprendemos nestas décadas de democracia para poucos, da chacina da Candelária ao genocÃdio nos becos?
“Como eu sou de famÃlia pobre e humilde, vai ficar por isso mesmo e meu filho não vai voltar”, disse a mãe de Matheus, PatrÃcia. Empregada doméstica.
A Anistia Internacional lançou em agosto um relatório com o seguinte tÃtulo: “Você matou meu filho“. Sobre homicÃdios cometidos pela PolÃcia Militar na cidade do Rio, em 2014 e 2015. Principalmente na favela de Acari – palco, no sábado, de mais uma chacina, com cinco mortos.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) também lançou uma campanha no ano passado, no Dia da Consciência Negra (20 de novembro), sobre execução de adolescentes. Negros. A imprensa não repercutiu.
“SE NOS IMPORTÃSSEMOS”
Reproduzo aqui texto publicado no Facebook em setembro, antes da inauguração deste blog. Trata do assassinato de Herinaldo Santana, 11 anos. Também negro, também filho de uma empregada doméstica:
Primeiro, os fatos.
Herinaldo VinÃcius de Santana tinha 11 anos e R$ 0,60 no bolso. Corria por um beco no Complexo do Caju, no Rio, quando foi visto por um policial da Unidade Pacificadora. Herinaldo foi executado. Suas últimas palavras: “Quero minha mãe”. Ele saÃra para comprar uma bolinha de pingue-pongue. ‪#‎pingue‬
Segundo, as hipóteses.
‪#‎pongue‬ Se Herinaldo morasse no Leblon. Se sua mãe não fosse uma empregada doméstica. Se a cultura da pacificação não fosse movida a metralhadoras. Se Herinaldo tivesse um sobrenome pomposo. Se o principal jornal carioca não inventasse que havia um tiroteio. Se a preocupação em outra notÃcia, diante do protesto de moradores, não fosse o impacto no trânsito. Se Herinaldo fosse branco. Se algum leitor boçal não escrevesse contra as “crianças”, entre aspas. Se outro leitor inclassificável não escrevesse que, na foto, ele fazia “pose de bandido”. Se Herinaldo estudasse no Colégio Dom Pedro II. Se não estivéssemos tão embotados. Se gritássemos, se chorássemos. Se a vida de Herinaldo fosse vista como mais importante que a cotação do dólar. Se ele tivesse bem mais que 60 centavos no bolso. Se os governadores (esses chefes de polÃcia) fossem fiscalizados. Se os secretários de Segurança Pública fossem rigorosamente escrutinados. Se não suportássemos cada risinho e cada lugar-comum dessas autoridades. Se os sinos de nossa sociedade cÃnica dobrassem por Herinaldo. Se os sinos do nosso jornalismo não estivessem desafinados. Se o nome de Herinaldo se tornasse um sÃmbolo. Se houvesse mais movimentos por crianças livres, periferias livres. Se a população das periferias recebesse a parte que lhe cabe da riqueza nacional. Se essa riqueza não fosse expropriada há 515 anos por um punhado de cÃnicos, por uns poucos matadores de excluÃdos. Se a mãe de Herinaldo pudesse estar por perto dele, se ela ainda o amparasse, se seu grito fosse ouvido. Se a nossa noção mesquinha de democracia (de democracia para poucos) não ajudasse policiais despreparados a apertar o gatilho. Se produzÃssemos menos armas, mais bolinhas de pingue-pongue. Se não exportássemos armas. Se nos importássemos. Se esta foto se tornasse história, se esse sorriso nos inspirasse vergonha, se o sangue de Herinaldo nos ajudasse a arrebentar esse silêncio.
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