Crônicas do Golpe: “A Patada” x “A Patranha”
Publicado 29/03/2016 às 10:37
Em plena ditadura, redatores brasileiros utilizavam jornal do Tio Patinhas para questionar papel da mÃdia; na democracia, jornais de verdade perpetuam status quo
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
Muito antes da Veja, uma revista decidiu a sorte e a fortuna da editora Abril: chamava-se Pato Donald. Foi com os direitos de reproduzir o gibi da Disney que o italiano Victor Civita começou a erigir seu império de comunicação.
Quac, quac, mil vezes quac! As exclamações suscetÃveis do pato fizeram parte de muitas infâncias. E de muita teoria marxista da conspiração. Em 1971, o chileno Ariel Dorfman e o belga Armand Mattelart escreviam um clássico apocalÃptico: “Para ler o Pato Donald”. Sobre a ideologia da Disney, portadora das maldades do capitalismo. Mickey era descrito como agente da CIA. Tio Patinhas era o sÃmbolo do sistema, a nadar em seu mar de moedas.
Estudante de Comunicação Social nos anos 90, fui um crÃtico dessa interpretação. E por vários motivos. A começar da hipertrofia do emissor em relação ao receptor. Eu era fã da famÃlia Pato – Patinhas, Donald, Huguinho, Zezinho, Luisinho, Vovó Donalda – e nem por isso deixara de desenvolver uma perspectiva crÃtica dos meios de comunicação. Via exageros naquela leitura, depois retrabalhada também pelo sociólogo José de Souza Martins. (O Mickey, sim, o Mickey era um tÃpico agente da CIA.)
Cheguei a escrever sobre o tema, no trabalho final do curso de Comunicação Comparada. Escolhi uma edição de Disney Especial, que era uma coletânea temática de histórias já publicadas em outros gibis. Mais especificamente, Disney Especial “Os Repórteres”. Surpresa: constatei que boa parte daquelas histórias sobre o universo das redações jornalÃsticas era, digamos, subversiva. Mais especificamente aquelas produzidas no Brasil. Não é que os roteiristas brasileiros satirizavam o poder dos donos da imprensa?
Dois jornais competiam entre si: “A Patada” e “A Patranha”. O primeiro, cujo nome dispensa apresentações, era o jornal do Tio Patinhas. O segundo pertencia ao seu principal rival, Patacôncio. Patranha significa mentira. Sim: o jornal de Patinhas buscava a verdade. (Bom, nem sempre: uma das graças da FamÃlia Pato era que os heróis se tornavam vilões, e vice-versa.) Ele mesmo era o chefe de redação e ficava possesso com as enrolações dos repórteres Donald e Peninha – a dupla por quem o leitor nutria, naturalmente, sua simpatia.
APOCALÃPTICOS E INTEGRADOS
Cortemos para a cena polÃtica atual. Onde temos um pato – o pato da Fiesp – como um dos sÃmbolos do movimento golpista, esse que busca pretextos legalistas para derrubar uma presidente eleita. E lembremos de um clássico da comunicação social anterior à obra de Dorfman e Mattelart, mas muito mais significativo: “ApocalÃpticos e Integrados” (1964), de outro italiano, Umberto Eco. (O fato de Umberto Eco ter morrido exatamente neste ano reforça a importância do livro e do tema.)
Importante: anos antes do chileno e do belga, Eco mostrava-se bem menos maniqueÃsta, ainda que crÃtico ao poder dos mass media. Identificava o poder persuasivo, paternalista, dos meios, mas sem tomar o leitor como uma tábula rasa. ApocalÃpticos eram exatamente aqueles que viam a indústria cultural como intrinsecamente negativa; integrados, os que aceitavam esse consumismo especÃfico sem perspectiva crÃtica.
Em 2016, temos os jornais brasileiros fundidos em uma só proposta polÃtica: apocalÃptica e integrada. ApocalÃptica em relação ao governo de plantão, descrito como a gênese de todos os males (ignorando os movimentos da economia mundial e a crise de 2008; a história do Brasil e quaisquer outros fatores). Integrada, em relação ao mercado – tomado como uma entidade mais importante que a democracia. E à s favas os escrúpulos narrativos.
HorrÃvel pensar que a mÃdia brasileira não chega nem ao nÃvel de “A Patada”. Sim, temos ainda nos jornais chefes autoritários e temperamentais, mas sem o espÃrito jornalÃstico descrito pelos redatores dos anos 70, quando, nos veÃculos reais, jornalistas brasileiros desafiavam a ditadura e contavam histórias de opressão contra povos indÃgenas e camponeses. (Sem falar que os donos engravatados dos jornalões não têm a metade da graça do Tio Patinhas.)
E temos, semana após semana, jornais e revistas que muito orgulhariam Patacôncio, o dono de “A Patranha”. Pois o golpe que está aÃ, sem militares como em 1964, afirma-se como golpe judiciário e midiático. Coube aos meios de comunicação de massa, nos últimos anos, construir uma narrativa que combinasse os objetivos polÃticos e econômicos dos donos (e de seus anunciantes) com os medos e preconceitos dos leitores. Curiosamente, filhos da Guerra Fria, com o petismo sucedendo o comunismo como espantalho conveniente.
HERÓIS E VILÕES
Forçoso reconhecer que os leitores e telespectadores regrediram em relação à queles dos anos 60 e 70. Por certo não são uma tábula rasa. Mas, com muito mais informações à disposição, e cada vez mais à direita do espectro polÃtico, repetem os mantras desse jornalismo manipulador de uma forma subserviente, sem nuances observadas antigamente pela própria indústria cultural. As técnicas nem mudaram tanto assim: de Clark Kent (como exemplificava Eco) a Sérgio Moro, ainda temos a meganarrativa dos super-heróis.
E temos os vilões, vilões bem definidos. Que não será o capitalismo, não será a poderosa e capilar estrutura da corrupção e do capital ilÃcito (perfeitamente integrada à engrenagem capitalista), não será a crise mundial. E sim uma “crise” construÃda, atribuÃda à atual presidente e ao seu antecessor – mesmo que esse tenha navegado em tempos de crescimento econômico. Lula e o PT são os vilões necessários para a perpetuação das patranhas do capitalismo à brasileira e de seus agentes polÃticos, com o PMDB e o pato do Fiesp à frente das historinhas que se repetem como farsa.
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