Não li, mas comentei (e compartilhei) – um clássico dos tempos de internet

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“Não li e não gostei”. Aquela expressão rabugenta sempre fez algum sentido, pela ironia embutida. Atualmente, em tempos zuckerberguianos (um discípulo pragmático do Doutor Pangloss, de Voltaire, o professor do Cândido que hoje seria o primeiro a dar joinhas em todos os posts possíveis), temos uma frase aparentada: “Não li, tá, mas curti”. Ou: “Não lemos, mas compartilhamos”.

Há algo de mais profundo em meio à superficialidade da internet. O que poderíamos interpretar desses compartilhamentos no escuro, dessas aprovações a algo que não se teve acesso? Em boa parte dos casos o internauta até conhece o autor, sua linha de pensamento. E confia – nem pensa que naquele dia ele possa ter escrito uma receita de bolo no texto, como contrabando.

Mas p

(…)

Alguns são velocistas. Você ainda está vivendo aqueles instantes (alguns poucos segundos) em que se pergunta se não terá feito algo errado, digitado alguma coisa equivocada, quando… incrível, um compartilhamento e uma curtida. Seria humanamente impossível a pessoa ler o primeiro parágrafo, que fosse, mas ela já decidiu avalizar seu texto e disponibilizar para centenas ou milhares de pessoas.

E há os que comentam. Uma ousadia ainda maior, já que não se leu o texto. Esses se subdividem entre os que não leram e gostaram e os que não leram e não gostaram. Argumenta-se a partir do… bom, a partir do que mesmo? Da história de vida, da imaginação, dos preconceitos – principalmente dos preconceitos. E não só que se argumenta – vocifera-se, agita-se, vem à tona um arsenal de certezas.

E então ficamos sabendo, pelo comentarista, que tal autor publicou tal coisa – mas o link está no texto, foi repercutido e analisado, em alguns casos foi tema central da sua reflexão, que eventualmente terá durado algumas horas. Ou então é a mesma pessoa que curtiu e compartilhou e que diz algo completamente inverso à sua linha de raciocínio, mas elogiando.

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