Bela Gil “reverte” consulta sobre agrotóxico; bem-vindos à teledemocracia
Publicado 02/03/2016 às 05:07
Só não estarÃamos trocando o sisudo mundo das decisões técnicas por um tempero de opiniões de celebridades porque a Anvisa já fez mais de mil consultas públicas
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
Uma disputa emocionante. No placar, 66% das pessoas estão a favor do agrotóxico carbofurano. Mas eis que a apresentadora Bela Gil reverte o placar: com a ajuda de seus seguidores no Facebook, agora somente 29% são favoráveis; 69%, contra. E o placar da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não para. Neymar entra na disputa em defesa do veneno: agora 53% dos brasileiros aprovam sua utilização. Mas a grama está pesada. José de Abreu volta para o Twitter para reprovar o pesticida. E empata o placar! Quem desempatará esse jogo? Luciano Huck? Lobão? Olavo de Carvalho? (Haverá morte súbita?) Gregório Duvivier? Gabriel Jesus? Jout Jout?
Apenas o primeiro trecho do parágrafo acima é verÃdico. Neymar, José de Abreu e Jout Jout não participaram desse levantamento eletrônico, encerrado no dia 24, diretamente dos computadores da Anvisa, em BrasÃlia. Bela Gil, sim. Mas eles bem poderiam ter participado. Afinal, lá estava uma questão relevante, que diz respeito a dezenas de milhões de brasileiros: a utilização ou não de um veneno que pode ser prejudicial à saúde. Por que não convocar uma celebridade para dar opinião, ou os seguidores de Tamiel ou Dona Geralda, do Big Brother Brasil?
Porque deverÃamos estar numa democracia séria. E ela não se torna mais séria porque somente Bela Gil participou desse espetáculo.
A liberação do agrotóxico não ganhou nem perdeu nada com isso. No fim das contas, a decisão será feita por cinco técnicos. Talvez não tão influenciáveis por uma decisão de internautas (diga-se, a correta) aos 45 do segundo tempo. Em outras palavras: a teledemocracia tem seus limites. A Anvisa informa que já fez 1.200 consultas públicas, que estão disponÃveis em seu site. Mas seguramente não tiveram 1% da viralização do post sobre a reviravolta protagonizada por Bela Gil.
Somente no dia 29 de fevereiro, por exemplo, foram ao ar cinco consultas, quatro delas sobre agrotóxicos: o flutriafol, o formetanato, o bifentrina e o teflubenzurom. Tomemos o bifentrina. “Extremamente perigoso para ambientes aquáticos“, informa o Ministério da Agricultura de Portugal, onde é utilizado como acaricida. “Não aplicar a terrenos agrÃcolas adjacentes a cursos de água”. Mas eu mesmo só soube desse agrotóxico agora, dei um Google – escolhi um dos quatro produtos – e caà nessa informação. Já estou apto para votar?
MODELOS DE NEGÓCIO
O consumo de alimentos com agrotóxicos – muitos deles proibidos na Europa – não faz parte do currÃculo do ensino básico no Brasil. Crescemos sem informações fundamentais para a nossa saúde. Meios de comunicação? Nosso público noveleiro talvez não saiba que o pimentão, o tomate e a alface estão entre os alimentos com mais veneno acumulado. Quem os fabrica. Quem lucra com isso. Que modelo de apropriação das terras e dos recursos naturais – como o agronegócio – se utiliza de mais agrotóxicos.
Como pedir, então, para uma população inteira (ou, vá lá, essa amostragem particularmente volúvel) se engajar numa eleição – ou veto – de um determinado pesticida, como se o carbofurano estivesse indo para um paredão? Sim, uma consulta pública não é só isso. Da maneira que foi divulgada a “consulta da Bela Gil”, porém, ficou parecendo que estávamos diante de um plebiscito decisivo. Problema central: terÃamos milhares desse tipo de plebiscito para fazer, em diversas áreas do governo. Inviável.
Imaginem a Aneel abrindo uma consulta pública para a construção, ou não, de uma usina nuclear na caatinga. Ou no Parque do Xingu: “Vocês acreditam que seria legal uma usina no Parque do Xingu?” Ou a Anatel abrindo um plebiscito fofo sobre a punição a polÃticos – mas somente aqueles de um determinado partido – que tenham concessão de meios de comunicação. Ou o MEC pedindo a opinião da distinta população sobre a utilização das obras de Monteiro Lobato no currÃculo escolar.
Tudo isso se trata de puro nonsense, claro. De hipóteses absurdas, para explicitar a fronteira entre um sistema sério de consultas públicas e, digamos, uma polÃtica do entretenimento. As consultas que estiverem em andamento ou que forem abertas não podem depender – como em um Big Brother Brasil – do humor desta ou daquela celebridade. As atribuições da Anvisa precisam ser conhecidas, sem espetáculo (mas com comunicação eficaz) e sem manipulação da boa fé do consumidor. E sem que o exercÃcio da cidadania seja confundido com um clique.
Que a discussão sobre agrotóxicos seja ampliada para o mencionado circuito das dezenas de milhões de brasileiros. Para que o povo seja ouvido ele precisa, antes, ser bem informado. Só que o modelo atual de comunicação de massa que temos não fornece essas informações. Que cada brasileiro possa ouvir, portanto, médicos, quÃmicos, nutricionistas (Bela Gil, aliás, não é nutricionista), agrônomos, especialistas de diversas áreas sobre os efeitos de cada um desses pesticidas na nossa saúde. Nos rios. No cotidiano das comunidades originárias e tradicionais.
Porque não, John Travolta, nós não poderÃamos estar trocando esse esboço de democracia que temos por uma gangorra de certezas súbitas, pautadas por alguma celebridade de plantão, das boas intenções da Bela à próxima opinião salivante do Bolsonaro.
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