Reflexões sobre fascismo (II) – Thomas Mann
Publicado 26/02/2016 às 05:59
“Que se passava, afinal? Que havia no ar? Um espÃrito rixento. Uma irritação aguda”. Descrição feita pelo escritor alemão em sua obra-prima, em 1924, segue atual
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
A obra-prima de Thomas Mann data de 1924: “A Montanha Mágica”. Ali ele já conseguia descrever – em uma cena relativa a um sanatório para tuberculosos na SuÃça – o que poderÃamos descrever como clima do nazifascismo:
“Que se passava, afinal? Que havia no ar? Um espÃrito rixento. Uma irritação aguda. Uma impaciência indizÃvel. Uma tendência geral para discussões venenosas, para acessos de raiva e mesmo para lutas corporais. Querelas ferozes, gritarias desenfreadas de parte a parte surgiam todos os dias entre indivÃduos ou grupos inteiros, e o caracterÃstico era que aqueles que não tomavam parte nos conflitos, ao invés de se sentirem desgostosos diante da conduta dos respectivos adversários ou de servirem de pacificadores, simpatizavam com a explosão de sentimentos e intimamente se abandonavam à mesma vertigem. Ficavam pálidos ou estremeciam ao ver uma cena dessas. Os olhos brilhavam agressivamente. As bocas crispavam-se de tanta paixão. Invejava-se aos protagonistas do momento o direito, a oportunidade para berrar. O premente desejo de imitá-los atormentava as almas e os corpos, e quem não tinha a força necessária para refugiar-se na solidão era irresistivelmente arrastado pelo torvelinho. As brigas por motivos fúteis, as recriminações mútuas em presença das autoridades empenhadas em reconciliar os digladiadores, mas que elas próprias caÃam, com espantosa facilidade, vÃtimas da tendência geral para a gritaria grosseira – tudo isso se tornava frequente no Sanatório Berghof”.
Dez anos depois ele seria expatriado, após tomar uma posição clara contra o regime nazista. Confiram a reação de Mann:
“Um escritor alemão, acostumado à responsabilidade através da lÃngua, deve agora silenciar? Silenciar absolutamente perante o mal irreparável, que no meu paÃs foi e é praticado em corpos, almas e espÃritos, no direito e na verdade, na humanidade e na pessoa? Não foi possÃvel. E assim vieram as manifestações de minha parte contra o programa nazista. Minhas posições contrárias a ele ficaram inevitavelmente claras, tendo levado ao absurdo e ridÃculo ato de meu expatriamento”.
No ano seguinte, 1937, o Ministério de Esclarecimento Popular e Propaganda do regime dizia que o escritor devia ser “apagado da memória de todos os alemães”.
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