Roger, Huck e Fernanda não são lá muito defensáveis; mas será essa a agenda crÃtica possÃvel?
Publicado 23/02/2016 às 22:12
Autores mais densos e debates mais ricos nos permitiriam entender melhor de onde vêm aquelas figuras tão tristes, de onde surgiram e a que servem esses ruÃdos
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
Não se trata aqui de defender o obscurantismo polÃtico de Roger, do Ultraje a Rigor. Ou o convite boçal de Luciano Huck para as jovens brasileiras ficarem com estrangeiros, definidos como “prÃncipes encantados”. Ou as diatribes improvisadas de Fernanda Torres sobre feminismo; menos ainda sua curiosa percepção sobre machismo. Muito pelo contrário. Mas de tentar identificar uma overdose da reação a esses personagens, como se coubesse a eles pautar a agenda nacional. E, aos que têm algum histórico de pensamento crÃtico, apenas reagir.
Do jeito que as coisas vão, estamos assim: os reacionários propõem e os revolucionários reagem. Em uma curiosa inversão de papéis. Ou estarÃamos distraÃdos em relação ao debate polÃtico nas redes sociais? Talvez algum arqueólogo das redes identifique, daqui a uns 20 anos, uma mobilização incrÃvel de internautas arejados, nesta semana de fevereiro de 2015, bem menos a reboque, mais pró-ativa. Mas o que deu para observar por aÃ, em termos de crÃtica internética de costumes, foi mais ou menos isso.
Quase nenhum esforço de discutir notÃcias relevantes sobre direitos humanos terá tido tanto alcance quanto a percepção ultrajada do vocalista, que se viu tratado pelos Rolling Stones como “lixo”. Assim como a titulação do lÃder indÃgena Ailton Krenak como doutor honoris causa da Universidade Federal de Juiz de Fora não terá gerado 1% do burburinho causado pelo apresentador global, mesmo que o apresentador ria sozinho (dos hackers aos huckers) desse marketing espontâneo. Sim, o artigo da atriz precisava ser desconstruÃdo. Mas o problema maior está em Fernanda ou na agenda – machista – dos meios de comunicação?
A excessiva personalização tem nos desviado do necessário combate aos verdadeiros centros do poder. E, em alguns casos, a reação a essas ideias espasmódicas pode significar apenas uns pontapés em cachorros mortos, ou ao menos defuntos caninos no nosso cÃrculo retroativo de amizades. Isto na melhor das hipóteses. Pois a pior significa a elevação de figuras politicamente irrelevantes (como o vocalista que se considera genial) a patamares que elas não merecem. Como se doze ou treze disparates de Roger fossem mais relevantes que qualquer esboço de ideia de Umberto Eco.
O próprio intelectual italiano nos terá alertado sobre certos nivelamentos por baixo do debate contemporâneo, mas insistimos em cair neles como patinhos. Como se preferÃssemos dar mais visibilidade a uma rima pobre de alguma música infantilizada dos anos 80 a qualquer verso de Walt Whitman. Em uma espécie de SÃndrome de Marylou. São os simulacros de Huck (as casas e carros aleatórios como sÃmbolos de seu falso bom mocismo) a erigir um falso debate encantado numa falsa rede contestatória – com Fernanda ou algum desinformado de plantão dedilhando alguma pauta caótica.
Estou tentando evitar aqui menções a FHC ou Lula (já que se falava de prÃncipes encantados) porque, nesses casos, sabemos que quase não há diálogo possÃvel entre os torcedores. E porque estamos aqui a debater outro fenômeno, o dos tristes monólogos culturais. Está bem, vou mudar a frase: tristes monólogos do entretenimento, que amplificamos com nossa boa vontade, à s vezes até com certo ódio e rancor, um tanto contraproducentes para qualquer estratégia de construir uma agenda contestatória positiva. Mesmo os tristes tópicos de Huck-Roger (o Brasil em tempos de Huck-Roger) talvez ganhassem graça se fossem rebatidos com luvas de pelica. Mas não. Dobramos a meta, só que à s avessas.
Afundamos na areia movediça, entramos para os subterrâneos do entretenimento sórdido (penso na descida de Fernando Vidal Olmos aos subterrâneos de Buenos Aires, no “Sobre Heróis e Tumbas” de Ernesto Sabato) como se estivéssemos destinados a esse cadafalso. Debate-cloaca. Debate regressivo, com o sorriso franco e puro de Huck a nos pautar o descenso. Quando poderÃamos estar trocando um Roger por um Darcy Ribeiro, por exemplo. Um Huck por um Karnal. Não pelas pessoas – mas pelas ideias. Até porque melhores autores e debates mais ricos nos permitiriam entender melhor de onde vêm aquelas figuras tão tristes, de onde surgiram e a que servem esses ruÃdos.
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