Não, não está legal a capa da Galileu com um “bandido morto”
Publicado 28/01/2016 às 22:49
Por mais que revista da Globo se posicione contra linchamento de negros e pobres, edição parte de pressupostos mais do que questionáveis, que naturalizam distorções
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
Não. Nem por hipótese é possÃvel aceitar a ignomÃnia da frase “bandido bom é bandido morto”. A revista Galileu deste mês propõe uma abordagem mais progressista para o tema que a média da grande imprensa, é bem verdade. Mas com vários senões. Que muito defensor de direitos humanos ainda não percebeu. A própria manchete traz pressupostos perigosos: “O bandido está morto. E agora?” (Com a imagem de um modelo negro amarrado – linchado – e morto, cheio de sangue.)
E quais seriam esses pressupostos? ImplÃcitos ou explÃcitos?
1) Quem mata é a população.
Sim, também vivemos no paÃs dos linchamentos. O sociólogo José de Souza Martins detalhou o tema em livro recente (Editora Contexto, 2015). Mas quem mais mata no Brasil esses que o senso comum chama de “bandidos” não são os populares. É a polÃcia. Particularmente a PolÃcia Militar. São os grupos de extermÃnio, as milÃcias – formadas também por policiais.
Ao cruzar o tema do linchamento com a estupidez do “bandido bom é bandido morto”, portanto, a revista da Globo opõe excluÃdos contra excluÃdos. Todos nivelados por baixo – na suposta bandidagem e na insanidade dos linchamentos. Desta forma, exclui-se uma oposição muito mais importante em relação à frase famosa. Aquela entre os excluÃdos e os defensores armados dos privilégios de classe – as polÃcias.
2) Os bandidos é que são mortos.
Não. Nossa polÃcia mata indÃgenas, camponeses, mata jovens que nunca se envolveram com nenhum crime, mata adolescentes, crianças, faz abordagens truculentas de acordo com a cor e a classe social, mata pessoas das favelas que não são nem nunca foram bandidas. E o mesmo vale para populações furiosas. Mata-se por homofobia, por ódio. E a partir de incitações calculadas ao ódio.
Sim, ótimo que a revista Galileu se posicione contra também a matança de acusados ou condenados por algum tipo (geralmente violento) de crime. São direitos elementares, consagrados em paÃses do Ocidente que igualmente promovem a desigualdade – e que visam oferecer mais segurança, e não menos, para toda a população. A defesa não é do banditismo, mas de um mÃnimo de civilização.
A imagem dessa capa chocante, porém, acaba naturalizando a ideia de que o que ocorre pelo paÃs é apenas o justiçamento de pessoas que cometeram crimes. Não tem sido essa, necessariamente, a realidade nos últimos séculos. Nem das populações em fúria nem das forças de segurança. Mata-se e humilha-se de baciada, sem consultar a ficha criminal. E depois se transfere a responsabilidade para “os bandidos”.
3) Os bandidos estão mortos.
Não, os bandidos não estão mortos. E não estarão. Esqueçam disso, não se enganem. Não estamos assistindo a uma guerra parecida com o que os Estados Unidos fazem contra o que chamam de “terror”. E que bom que não estamos – pois se trata justamente de preservar o direito à defesa, direito que joga a favor de todos, das pessoas honestas e desonestas. Nem os EUA conseguiriam matar “os bandidos”.
O que assistimos é a um massacre da bandidagem de varejo, dos instrumentos utilizados pelo crime organizado para perpetuar seu poder econômico – que, por sinal, circula muito facilmente pelo circuito financeiro, é absorvido em paz pelo nosso modo de produção. É uma falácia a ideia de que a polÃcia esteja eliminando malvados em prol “do bem”. A polÃcia está defendendo determinadas classes sociais.
4) Bandidos são apenas os “bandidos pobres”.
Bandidos de colarinho branco não serão mortos, pela polÃcia, sob nenhuma hipótese. Para eles costuma valer o Estado Democrático de Direito. Com longos processos, salvo em casos especÃficos de corrupção. Mas sem mortos. Ou chamaremos de bandidos apenas determinados traficantes, de preferência aqueles que empunham fuzis ou vivem em arremedos de bunkers nas favelas?
Patifes históricos da sociedade brasileira estão livres, leves e soltos. Tem até polÃtico procurado internacionalmente que, no Brasil, não sofre nenhuma ameaça policial – nem jurÃdica, diga-se de passagem. Estão protegidos. Por uma Justiça que privilegia brancos e ricos. Não é que somente o negro e pobre (não necessariamente bandido) é morto. A elite branca é punida apenas por amostragem.
BANDIDOS QUE NÃO SÃO CHAMADOS DE BANDIDOS
Estamos, portanto, diante, de uma capa de revista que não se completa como algo progressista, civilizatório. E não se trata apenas de reconhecer nela um trabalho “menos pior” que o de veÃculos de comunicação sem resquÃcios de boas intenções – e promotores escancarados da barbárie. E sim de começar a esclarecer, de fato, a população sobre aberrações diversas que giram em torno da ideia de “matar bandidos”.
Vivemos em um paÃs que tem grupos de extermÃnio em todas as Unidades da Federação. Isto não é pouco. Não costuma ser lembrado nem por organizações internacionais especializadas em direitos humanos. As milÃcias são uma das expressões mais evidentes do crime organizado à brasileira, mas nossa imprensa (grande, pequena, alternativa) não as chama de máfias. E por quê?
As palavras são importantes. Que a palavra “bandido” deixe de ser associada unicamente ao assassino ordinário, aos estupradores, aos varejistas da violência. Se quisermos falar mesmo de bandidagem graúda perceberemos que as peles desses senhores não será tão negra quanto a do modelo da Galileu ou a das pessoas demonizadas diariamente pelos programas jornalÃsticos do mundo cão.
Mesmo os corruptos são chamados assim, de “corruptos”. Como se estivessem num patamar superior. Mesmo que desviem merenda escolar ou verbas da saúde, mesmo que vendam rifles da polÃcia e do Exército para aqueles que chamamos de bandidos. Os chefes de milÃcias e de grupos de extermÃnio, do jogo do bicho e da exploração sexual, entre tantos outros canalhas, agradecem por tanta seletividade.
PS: A frase “bandido bom é bandido morto” foi consagrada pela Scuderie Le Cocq, esquadrão da morte criado nos anos 60 no Rio. Considero-a associada à violência policial, justificando-a, e não à cultura dos linchamentos.
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