PolÃcia irritadinha de Alckmin disfarça objetivos eleitorais e planificadores
Publicado 22/01/2016 às 13:06
Comportamento irracional de PMs está a serviço de um projeto para 2018; governador quer ser terceira via para setor mais conservador e intolerante da sociedade
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
São Paulo tem uma polÃcia irritadinha. Estourada. SuscetÃvel, cheia de quereres. “Eu não quero, eu não quero, eu não quero que a manifestação seja por ali, tá?” Uma polÃcia com profissionais impulsivos, vingativos. Comandantes traiçoeiros, que prometem paz enquanto a alguns metros outros estouram bombas. Uma antÃtese do que deveria ser uma polÃcia, portanto. Antropoformizada, alienista radical – somente ela é que está certa. Sob o argumento de proteger a população, que se cubra ela de porradas, que se ameace sua vida. Paradoxal.
Mas toda essa caracterÃstica temperamental da PolÃcia Militar do Estado de São Paulo esconde cada vez mais um movimento inverso – frio e eleitoreiro – do governador do Estado de São Paulo. Sujeito apenas a punições etéreas (alguma condenação do Brasil na Corte Interamericana dos Direitos Humanos, em um futuro distante), ele se vê no direito de usar a tradição truculenta da corporação e a formação precária dos PMs para seus objetivos mesquinhos. O Caldeirão de Hamburgo – o cerco covarde a manifestantes – desafia a democracia, mas dá votos. A irracionalidade é aparente.
Geraldo Alckmin articula na repressão policial planejadamente impulsiva (o Brasil não é mesmo para iniciantes) seu trunfo eleitoral. Como terceira via à direita. Quem precisa de Russomannos e Datenas? O governador paulista consegue com essa truculência teimosa agradar o eleitor de Bolsonaro e a elite paulista – essa elite engordada por uma classe média raivosamente suicida – numa cajadada só. Ou numa sucessão de golpes de cassetete. Uma democracia para aqueles que gostam de democracia pela metade, quem sabe com um polÃtico de direita eleito por um partido socialista (o PSB).
É a polÃtica do cassetete fingido. Alckmin vislumbra o Palácio do Planalto a partir da lógica do gás de pimenta e da defesa incondicional das catracas. Na falta de uma discussão polÃtica séria, densa, diante de uma mÃdia idiotizada e com jornalistas devidamente uniformizados (e com a liberdade de imprensa ameaçada), o tucano aglutina em torno do gás lacrimogêneo o espectro do inimigo fácil, de um inimigo falso: os manifestantes, reduzidos à condição de perigosos. Não apenas os black blocs, todos os manifestantes são proclamados como perigosos nessa máquina de propaganda mortÃfera.
A birra de não querer que a manifestação siga por determinado caminho é acompanhada de movimentos planejados, do fechamento de estações e terminais, de forma a gerar insatisfação dos trabalhadores – a classe média foi ludibriada há tempos – com os estudantes. Como se os policiais violentos fossem honrados cidadãos a serviço da ordem e do progresso. Por mais que seja contraditório, Alckmin afirma seu lado certinho e sua aparência inofensiva a partir da dor, de dentes arrebentados. Como um bedel que convocasse os brigões da escola para colocar ordem no grêmio estudantil.
OS DEMÔNIOS DE SÃOPAULOSBURGO
Geraldo Alckmin lembra um pouco Piotr Stepanovich, personagem central de Dostoiévski em uma de suas obras gigantescas, “Os Demônios” (1872). Um manipulador que se utiliza da violência e da irracionalidade dos parceiros para atingir seus objetivos calculados – ainda que numa lógica paralela, insana. Um sonso, aquele que se faz de bobo, mas neste caso com marionetes fardadas. Diferença básica: o jovem russo era um revolucionário inescrupuloso. Alckmin, um reacionário, com seu aspecto discreto de contador incapaz de levantar a voz, a fina flor paulista dos reacionários.
Sim, a polÃcia de São Paulo precisa ser descrita como excrescência, em sua tradição de guardiã incondicional dos plutocratas e com práticas agravadas pela ditadura de 1964. Mas se não olharmos para 2018 não entenderemos seus últimos movimentos. Eles visam um eleitorado especÃfico, detectado em planilhas. Não à toa se tentou encaminhar as manifestações para a sede da prefeitura. Cada escudo da Tropa de Choque não representa apenas uma defesa paradoxal da ordem; e sim um movimento adiante. Bélico, mas polÃtico. Com uma cuidadosa inversão dos demônios. A juventude que quer inclusão e mudanças precisa ter seu fogo apagado por policiais incendiários.
A história brasileira da infâmia assiste a um governador que pretende chegar ao poder com esse voto do medo, o voto por uma metrópole maquinal, por uma polÃtica que abafe as contradições. Onde as ruas estejam ali apenas para os carros e o transporte apenas para a ida pacata e sem sustos ao trabalho. E onde aqueles que brigam pelo direito à cidade sejam definidos como obstáculo a ser removido (tarefa facilitada por manifestantes menos estratégicos), por uma polÃcia que disfarce nos seus espasmos e excessos sua função de catapulta para burocratas planificadores. Esse voto fascistinha.
(Aguarda-se interpretação para a estratégia misteriosa do prefeito petista Fernando Haddad.)
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