Despejo de camponeses em RO; despejo de indÃgenas na BA; “despejos”
OutrasPalavras
Publicado 21/01/2016 às 14:43
Brasileiros vivem no paÃs dos Pinheirinhos invisÃveis; quatro anos após reintegração famosa em São José dos Campos, pessoas seguem sendo tratadas como coisas
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
Terra para poucos. Despejo, para muitos. “Despejo”. A palavra sintetiza o desprezo que se tem pelas pessoas expulsas. “Despejar”. Vivemos no paÃs dos despejos. O primeiro dicionário disponÃvel no Google informa: “O que é despejar: v.t. Desobstruir; desembaraçar, desocupar: despejar o lixo das ruas”. O lixo como primeiro exemplo? O lixo como primeiro exemplo.
O dicionário Houaiss não é mais animador. Vejamos duas definições para o verbo despejar: “desvencilhar-se, livrar-se de impedimentos, estorvos ou obstáculos”; “fazer sair, por castigo ou com violência; expulsar”. (“Despejou da sala o aluno turbulento”)
NotÃcia no site Resistência Camponesa: “PolÃcia Militar despeja camponeses em Ariquemes“. Despejo em Rondônia, portanto. Camponeses tratados como obstáculo a ser removido.
NotÃcia no site Amazônia Legal em Foco: “SOS Pataxó: indÃgenas despejados na TI KaÃ-Pequi no extremo sul da BA“. Despejo na Bahia, portanto. IndÃgenas tratados como estorvo. CAPIM Em Rondônia, a PM do governador Confúcio Moura (PMDB) despejou na segunda-feira mais de 50 camponeses. Mulheres, crianças. Estavam em um latifúndio de 6.000 hectares. A ordem judicial previa levar todos os acampados até a delegacia. Eles dizem que os policiais queimaram os barracos “enquanto riam e diziam que tinham vencido”. Um oficial de justiça informou que, caso não desocupassem a fazenda em 15 dias, estariam cometendo um crime. Uma camponesa respondeu: “Estamos aqui para ganhar um pedaço de terra para a gente plantar. Você tem filho? Eles não vão comer capim, vão comer arroz, feijão, banana, abóbora, mandioca – o que os camponeses plantam. Fazendeiro não planta isso, ele planta capim e capim quem come é só boi”. ESCOLA ABAIXO Na Bahia, a PolÃcia Federal e a PolÃcia Militar cumpriram mandado de reintegração de posse da Terra IndÃgena Pataxó Kaà Pequà Comexatoba, na praia de Cumuruxatiba, em Prado. “Tudo que estava em pé na aldeia de nossos parentes foi destruÃdo”, relatou Sandro Hawaty Tuxá. “Posto de saúde, escola e casas de moradia”. Segundo Tuxá, o território foi declarado Terra IndÃgena no ano passado, pelo Ministério da Justiça. Uma professora da aldeia disse que havia previsão de reintegração em mais dez aldeias indÃgenas na região. PINHEIRINHO, Hà QUATRO ANOS A expulsão dos moradores do bairro Pinheirinho, em São José dos Campos, foi o despejo mais famoso dos anos 2000. Centenas de famÃlias foram retiradas, com violência, da área pertencente ao especulador Naji Nahas – que nunca pagou IPTU à prefeitura. Uma foto da Reuters registrou o momento em que mães saÃam correndo, com os bebês no colo, no inÃcio da invasão policial. Foi no dia 22 de janeiro de 2012 – há quatro anos. Escrevi, na época, sobre os que apoiam ações como aquela: “Vejo cada uma dessas pessoas – muito mais do que metaforicamente – dando socos e pontapés naquelas mulheres de São José dos Campos; derrubando-as ao chão, humilhando-as. Vejo cada uma dessas pessoas atirando aquelas crianças em algum galpão enlameado. Escarnecendo do sofrimento delas, enviando-as para a fogueira, alimentando o fogo com sua violência e seu cinismo”. NO CINEMA O cineasta italiano Vittorio de Sica eternizou um conflito decorrente de despejo em “Milagre em MIlão” (1951). O filme se encerra como fábula, mas parte de bases realistas. Quase se chamou “Os Pobres Atrapalham”. De Sica e o roteirista principal, Cesare Zavattini (um dos criadores do neorealismo italiano) não viam o mundo apenas com lentes econômicas. Caracterizam a burguesia não somente pela violência, mas também pelo do ridÃculo: – Quem são eles? – pergunta o novo dono do terreno, senhor Mobbi. – Pobres – responde o antigo dono. – O que fazem? O diretor buscava na poesia – e na união dos trabalhadores – a possibilidade de superação daquela violência. MAIS DESPEJOS Há outros casos iminentes no Brasil. Em Petrolina (PE), moradores da Vila Chocolate pedem revisão da ordem de despejo. Em AraguaÃna (TO), no ano passado, pessoas há mais de 45 anos no local estavam para ser despejadas por um grileiro. Mas são casos sem visibilidade. William Bonner não modulará a voz por esses brasileiros.
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