SP: a quem interessam as notÃcias sobre “depredação” nas escolas?
Publicado 06/12/2015 às 21:09
Existe risco de alunos que se mobilizaram em SP serem responsabilizados por um problema de segurança pública anterior à s ocupações, que foram pacÃficas
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
Como jornalista, sou a favor da liberdade de expressão e da circulação de informações de interesse público. Se houve algum tipo de destruição em escolas, que isso seja noticiado. Mas com responsabilidade. Não de forma a culpar os estudantes que as ocuparam; muito menos todos os estudantes que ocuparam todas as escolas. Até porque a versão dos alunos é bem diferente. Interessa muito aos derrotados polÃticos passar à população a ideia de que as ocupações não foram tão pacÃficas e politizadas (e artÃsticas, culturais) como vimos nas últimas semanas.
Vejamos o caso de Osasco, neste sábado. Foi o segundo caso em uma semana. TÃtulo no G1: “Osasco registra novo caso de escola estadual depredada“. SubtÃtulo: “Governo culpa manifestantes por vandalismo na escola Francisca Peralta. Alunos que ocupavam o espaço afirmam que não fizeram depredação”. Atentem a um detalhe: não é que eles somente afirmam que não fizeram depredação. Eles acusam diretamente um grupo de jovens que entrou nas escolas e os ameaçou.
Temos, então, que o governo paulista “acusa”. Mas cadê a Ronda Escolar? Cadê a legião de policiais que foi colocada nas primeiras ocupações, sob o pretexto de “oferecer segurança aos manifestantes”? Na EE Fernão Dias Paes, que se tornou sÃmbolo do movimento, chegou-se a ter quase uma centena de policiais fazendo um cordão em volta da escola. Uma coisa é retirar uma tropa que ameaçava quem não precisa de tropa. Outra, retirar a segurança mÃnima. Por que ela foi retirada?
Está em jogo a velha pecha “de vândalos”, “baderneiros” ou “depredadores” para desqualificar a imagem de manifestantes. E a imprensa cumpre um papel importante na perpetuação deste discurso. Como mostrei neste artigo de 2013: “As elites vândalas, a imprensa baderneira e os policiais bandidos“. Desqualificava-se todo um movimento por causa de alguns manifestantes mais violentos, numa lógica de demonização – nunca feita na mesma intensidade para os atos violentos de Estado.
Note-se que os próprios secundaristas deste novembro histórico em São Paulo evitaram o confronto. Durante protesto no Palácio dos Bandeirantes, afastaram-se dos black blocs que pressionavam as grades da sede do governo. Essa opção foi decisiva para atingirem seus objetivos. Eles mudaram a estratégia e passaram das ruas para as ocupações de escolas, organizadas, pacÃficas, ordeiras; chegaram a pintar escolas e tornar o espaço muito mais atraente do que antes o Estado oferecia.
Por que eles depredariam, então? Por que as lideranças não interviriam? O próprio texto do G1 conta que a Escola Estadual Coronel Antônio Paiva de Sampaio também foi alvo de “vandalismo”. Segundo o insuspeito Fernando Padula, aquele chefe de gabinete da Secretaria da Educação que falou em “guerra” contra os estudantes, foram movimentos polÃticos (e não estudantes) os responsáveis pela destruição. Mas, se foi assim, por que não usar a palavra “sabotadores”, e não vândalos?
DO LOCAL AO GERAL
Notem que os dois casos ocorreram em Osasco – onde o governo estadual já mostrou que não tem lá muito controle. O municÃpio foi, ao lado de Barueri, palco da chacina que deixou 23 mortos, em agosto, após a morte de um PM e um Guarda Civil Metropolitano. Uma cidade com um grupo de extermÃnio atuante, formado por policiais, não pode ter um grupo de extrema direita que sabote uma iniciativa polÃtica bem-sucedida de esquerda, voltada para a preservação de direitos?
Não sabemos se foi isso. Falta investigação. De qualquer forma, porém, sob ambas as hipóteses – grupo polÃtico de extrema direita ou mesmo um grupo de extrema esquerda – terÃamos um fenômeno localizado. Não algo que possa colocar em questão a imagem de um movimento com outros objetivos e ampla capilaridade, que começou em Diadema e em Pinheiros e logo se espalhou para todos os cantos da metrópole e para outros municÃpios do Estado. Em ordem.
Agora, com a desocupação das escolas, corre-se o risco de se multiplicar esse discurso da “baderna” e da “depredação”. Alguns tentarão macular a evidente vitória polÃtica dos secundaristas. Os jornais têm duas opções: 1) fazer jornalismo; 2) bancar discursos chapa-branca de autoridades com interesse direto em desqualificar essa luta, transformar essas novas lideranças – centenas de lideranças – em “depredadores”. E os que defendem a resistência e uma real democracia precisam ficar atentos.
Até porque, como vemos nesta notÃcia do próprio G1, duas escolas municipais foram invadidas e depredadas durante o feriado de Tiradentes, em Serrana (SP). Em abril, portanto. (As escolas estavam sem vigilantes.) E não é preciso fazer muita pesquisa para trombar com casos similares. Em todo o Estado de São Paulo e em todo o Brasil, ao longo das últimas décadas. O governo e a imprensa vão culpar os estudantes de novembro e dezembro?
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