A chantagem polÃtica naturalizou-se; é hora de combater a chantagem polÃtica
Publicado 03/12/2015 às 15:28
A disputa por um paÃs melhor não pode passar pela demonização de apenas uma figura polÃtica mais nefasta; e sim pela construção de outros métodos possÃveis
Por Alceu LuÃs Castilho (@alceucastilho)
O Brasil se move há décadas sob o signo da chantagem. Para um sistema polÃtico mais sadio não adianta apenas combater este ou aquele parlamentar mais obsessivo-compulsivo, como se ele fosse a única encarnação desse método. Mas combater sua consolidação, sua aceitação e banalização, por governos de diferentes siglas, estrelas e plumas. O pragmatismo polÃtico naturalizou a chantagem, tornou todo o paÃs sua refém. E se engana quem imagina uma polÃtica mais saudável enquanto essa for a lógica, essa for a linguagem polÃtica dominante, enquanto houver esse milagre da perpetuação de uma minoria voraz.
A chantagem tem uma etimologia controversa. Uma delas mais rústica. Segundo o Dicionário Etimológico da LÃngua Portuguesa, viria de chantar; plantar o chantão, aquela estaca em torno da qual surge nova árvore. Mas há outra versão mais poética – e que vai além da lÃngua portuguesa. A palavra viria do francês “chanter” = cantar. Seria usada no sentido de obrigar alguém a cantar. A chantagem seria uma prima mercantil da cantada. De qualquer forma, o termo ganhou o sentido de se obter algo por meio de ameaça, extorsão, pressão ilÃcita. Na polÃtica, cargos, dinheiro – mas também, na prática, controle de polÃticas públicas. Os chantagistas não possuem a beleza de sermos eternos aprendizes; são exÃmios profissionais da estocada.
A chantagem é, portanto, o canto diário de uma sereia – poluÃda. Uma sereia cuja parte de baixo tenha sido contaminada por resÃduos abjetos (sabe-se lá em que rios terá nadado), mas se expressa de modo melÃfluo por figuras de cabelo acaju, fios implantados e voz serena, muitas vezes com imensa eloquência e capacidade de sedução. A chantagem dá tapinhas nos ombros, conversa no pé do ouvido e usa colunas de jornais como campo fértil para sua perpetuação. PolÃticos e jornalistas muito bem intencionados (outros, nem tanto) caem todos os dias nesse conto do vigário, de vigários engravatados e calculistas. Por vezes, como se vê, mais agressivos e explÃcitos.
A CHANTAGEM É UMA KRIPTONITA
A chantagem suga, engole, exaure. Tem engolido neste paÃs isso que chamamos de democracia, essa ilha cercada de imposições por todos lados. Este paÃs que dá o nome de “democratas” a representantes de um de nossos perÃodos mais tristes, este paÃs contraditório, que celebra nas ruas o nome de seus piores canalhas, este paÃs com essa dialética à s avessas, com esse alastramento de kriptonitas polÃticas, essa demolição calculada de qualquer Ãmpeto de mudanças, essa máquina de moer utopias. A chantagem é serva da perpetuação de um determinado modelo econômico. A chantagem é plutocrata. Concentradora de renda.
A chantagem tem várias expressões. As manifestações de movimentos sociais – manifestações vitais para uma democracia de verdade – são coibidas sob o signo de uma chantagem implÃcita: não ocupem seus espaços (públicos), não saiam da linha, não sejam tão utópicos; porque senão soltaremos os cachorros e o Choque, as balas de borracha e aqueles gases amortecedores de cidadania. As chantagens são ameaças, que cauterizam outros métodos possÃveis. Não ocorrem apenas a partir dos sussurros dos presidentes de plantão do Senado e da Câmara. Mais chantagens, mais controle, menos renovação, menos direitos.
A chantagem polÃtica não é filha ou sobrinha da corrupção, mas sua controladora. Em casamento de comunhão de bens com os financiamentos de campanha, lÃcitos ou ilÃcitos. CÃnica, a chantagem brincará com a palavra “corrupção” como quem brinca de gato e rato, um gato brincando com sua presa, utilizando a palavra como arma, argumento, gatilho – pois ganhará com isso, mesmo que sejam os chantagistas os principais beneficiários dessa corrupção. A chantagem se perpetua também no sistema eleitoral e (populista que é, ótima atriz que é) chantageia também eleitores. Estes passam a se mover por medo – medo de perder direitos, perder segurança, medo do pior. A chantagem gera uma gigantesca SÃndrome de Estocolmo.
A CHANTAGEM É UM VÃRUS
A chantagem tem um partido favorito. Tão senhor de seus métodos que nem postula os cargos principais – os cargos dos chantageados. Prefere se multiplicar em dezenas de parlamentares, ministros, diretores, superintendentes. A chantagem é um vÃrus. Ingênuos foram os que identificaram 300 picaretas. Ela tem 300 x 300 chefetes e um punhado de chefões, acostumados a colocar a faca em pescoços incautos ou calejados. O sistema polÃtico chantagista sucedeu a truculência explÃcita da ditadura militar. A chantagem não necessariamente está no Executivo; a não ser quando ele se torne uma coalizão de chantagistas. (Sob risco de morrerem por autofagia e overdose.)
A chantagem tem suas conjunturas. Joga suas luzes sobre determinada presidente, determinado dono do cofre ou da caneta. Como não tem nada a perder, está sempre apta a destruir reputações. (Pode ser um senador ou deputado. A chantagem é um escorpião. Para se reproduzir, precisa ciclicamente sacrificar alguns bois de piranha.) A chantagem é psicopata. Sem pudores e escrúpulos. Imputará aos outros sua falta de pudor ou sua falta de escrúpulos, para que passe impune. Troca seus hospedeiros (principalmente aqueles que se revelem menos simpáticos a suas pressões) para passar despercebida.
E a chantagem é genocida. É por causa dessa minoria de chantagistas (minoria na sociedade, entenda-se, não no poder) que vemos o genocÃdio dos povos indÃgenas e o genocÃdio dos jovens negros, a destruição dos biomas e a ausência de reformas urgentes: agrária, urbana. Porque a chantagem é conservadora. Não apenas perpetua o horror, ela se move a partir do horror. Claro que a chantageada (ou o chantageado da vez) pode ser uma inepta insensÃvel a esse massacre; mas os chantagistas são incorrigÃveis, na origem, não possuem qualquer histórico de defesa remota dos direitos fundamentais. Os chantagistas promovem o terror com mão leve e voz doce – ao menos com quem convenha.
A CHANTAGEM É RETICENTE
O Brasil precisa acabar com essa avalanche de chantagens para ser mais Brasil. Um todo, um conjunto, e não uma polpa tóxica movida a interesses individuais, imediatistas e ávidos. A chantagem é a parte de nossa extrema direita que se disfarça de centro. Que engole partidos que já foram de esquerda ou de centro-esquerda. A chantagem promove a cizânia. Inventa FlaxFlus onde não existem, para parasitar tanto os Flas como os Flus, os Bavis e os Grenais. A chantagem é manipuladora. Para combatê-la é preciso assentar a poeira (cada vez mais poluÃda) e multiplicar o discernimento. Com menos exclamações e mais sabedoria. Pois a chantagem é reticente.
O Brasil não nasceu sob o signo da chantagem. Acostumou-se a ela, está sendo devorado por ela. Para combatê-la é preciso que cada cidadão seja menos ingênuo e mais capaz de identificar os predadores estruturais, que aprenda a separar o joio do trigo. Que não ceda aos chantagistas. Mesmo que os chantageados sejam ineptos ou antipáticos. Ou que deles discordemos. Pois são eles e elas – e não os chantagistas de plantão – que conseguirão, eventualmente, reverter o processo. Não por serem os melhores (procuram-se os melhores), mas por não compactuarem com essa implosão. Para combater a chantagem é preciso que cada cidadão seja potencialmente um estadista.
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