[Cartas do velho mundo]
10.07.20 – CRIOLO, “JANGADEIRO SEM CURSO PRIMÃRIO”
Um post manipulado do compositor ajuda a compreender a dinâmica das redes de fake news da ultradireita. E insinua a pergunta: até quando a esquerda institucional permanecerá incapaz de reagir e inovar?
Publicado 10/07/2020 às 21:15

Voltou a circular
nas redes bolsonaristas, nos últimos dias, um vÃdeo falseado e
ressignificado do compositor Criolo. A base é a famosa entrevista
concedida ao ator Lázaro Ramos, em 2013. No original, Criolo lamenta
os limites da ascensão social ocorrida durante o governo
Lula. “O que é a ascensão da classe C?†– pergunta. “É
tipo o leite C que a gente tomava e agora temos a A, da [marca]
Fazenda� Na fake, o compositor é apresentado como um “jangadeiro
sem curso primárioâ€. Lázaro Ramos é um “esquerdista/atorâ€
que “ficou mudo, sem reação alguma, ao ver o ‘refrão mentiroso
da esquerda’ desmascaradoâ€. Para que a narrativa fique completa,
a fake afirma: “Detalhe, a GLOBO cortou esta entrevista surpresa, e
não deixou ir ao ar!â€. Na vida real, o diálogo foi produzido e
transmitido pelo Canal Brasil, que tem entre seus sócios a Globosat.
* * *
Acompanhar, por algumas semanas, algumas das redes do bolsonarismo ajuda a dissecar a estrutura da imensa teia de “fake news†– que, finalmente, começa a ser desbaratada. De cada uma delas (e são milhares) participam algumas dezenas ou centenas de pessoas. A imensa maioria não poderia ser qualificada como integrante de uma “milÃcia digitalâ€. Mantém-se quase sempre passiva – embora as redes sejam abertas a interação. Apenas reproduz, credulamente, os conteúdos difundidos. Em minha experiência, foi comum encontrar, replicadas em grupos onde participam seguidores do “capitão†(os de famÃlia, por exemplo), as mesmas mensagens que cicularam na rede de difusão bolsonarista.

Mas há, é claro, os milicianos – as figuras centrais das redes de fake. Um pequeno grupo de participantes publica os conteúdos que serão reproduzidos pelo grupo. Apresentam-se apenas pelo primeiro nome ou por apelido. Precisam simular que são pessoas sem vÃnculos polÃticos, indignadas e preocupadas apenas com o futuro do paÃs e das “pessoas de bemâ€. Quando questionadas (ou mesmo provocadas), não respondem – o que leva a crer que sejam, em parte, robôs.
A produção de conteúdo é intensa. Nos tempos de mobilização bolsonarista, é comum haver, digamos, vinte novas peças de criação por dia – sem contar a reprodução de fotos (verdadeiras ou falsas, de atos bolsonaristas, por exemplo), que pode levar este número às centenas. Quem produz tais conteúdos? As investigações do STF, da CPI das fake news e da imprensa estão mostrando que há uma vasta cadeia de criadores de mentiras. Ela engordou muito, com dinheiro público, após as eleições. Muitos de seus “publicitários†agora aboletam-se em cargos bem remunerados, em gabinetes da presidência da República, de diversos ministérios e de dezenas de parlamentares.
Seria ilusório, porém, pensar que é uma estrutura tosca, construÃda sem apoio de especialistas. Os conteúdos, que muitas vezes parecem primitivos, são construÃdos com foco e algum talento. Não há dispersão – nem temática, nem estética. As centenas de peças novas produzidas todos os meses convergem na construção de uma narrativa que poderia ser resumida, com alguma simplificação, em quatro eixos: a) não há classes sociais nem desigualdades estruturais; b) os seres humanos “de bem†são naturalmente bons; e seriam felizes, se deixados “livres†para competir e negociar; c) esta felicidade, porém, é importunada pelos “bandidosâ€; pelas regras sociais equalizadoras; pelo Estado que as estabelece; e pelos “parasitas†que nele se abrigam; d) para se libertar desta tirania, os indivÃduos “de bem†precisam de lÃderes fortes e autoritários como Bolsonaro.
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Por que
tantas pessoas aparentemente sensatas sucumbem a falsidades
grosseiras,mo o Criolo transformado em “jangadeiro sem o primário�
Já se disse, com propriedade, que elas desejam acreditar.
Mas em estudos recentes – e numa entrevista
que Outras Palavras republicou
ontem – , a cientista social LetÃcia Cesarino vai além. Se é um
fenômeno de massas, não basta
interpelar os indivÃduos: é
preciso encontrar as
causas polÃticas,
raciocina ela.
Na trilha de Ernesto Laclau e Chantall Mouffe, LetÃcia enxerga uma crise tanto na democracia que herdamos da Revolução Francesa quanto nas dinâmicas econômicas que conformavam as classes sociais dos séculos XIX e XX. Como a crise ainda não pariu nem classes nem instituições novas, abre-se um vazio. Torna-se possÃvel “construir uma identidade de povoâ€. A direita o faz a partir de dois elementos: um “inimigo†(no caso brasileiro “o petismoâ€, ou “a corrupçãoâ€, cujos sÃmbolos maiores eram o “pixulecoâ€) e a suposta unidade em torno da “nação†(“meu partido é o Brasilâ€).Para tanto, a Comunicação tem papel central: nem o emissário da mensagem (o “lÃderâ€), nem os receptores (o “povoâ€) existiam, enquanto tal, antes do laço comunicativo que os une.
É por isso que os discursos inflamados, para multidões, foram tão centrais para Hitler ou Mussolini; e que o papel do microfone, ou do rádio, é exercido hoje pela rede social. É por isso, também, que o conteúdo do discurso importa pouco, em ambos os casos. O importante é estar presente. Ninguém fará, num comÃcio, o fact-checking do discurso do fuhrer; nem questionará, na rede social, se o rapaz de pele escura e túnica branca é de fato um “jangadeiro sem o curso primário†– e antiesquerdista.
* * *
Laclau e Mouffe afirmam claramente que, nas atuais circunstâncias polÃticas, cabe um populismo de esquerda. Também é possÃvel criar um povo a partir de ideias e projetos com sentido oposto à s do neofascismo. Por exemplo, a igualdade, a luta contra a oligarquia financeira; a descolonização; os Comuns; o papel redistributivo do Estado; o antipatriarcalismo.
Por que, então, a esquerda brasileira parece tão amorfa e paralisada? Vale levantar duas pistas. A imensa dianteira da direita nas redes sociais revela uma enorme desarticulação do campo oposto. Choca não ter surgido, até hoje, o mÃnimo esforço de responder à s fake news por meio de uma rede que some verdade e criatividade. Não seriam necessários recursos vultosos. Bastaria, por exemplo, articular a informação de profundidade produzida por mÃdias alternativas sérias com a capacidade comunicativa de uma Tatá Werneck, um Pedro Cardoso, uma Dani Calabresa, um Gregório Duvivier, um Fábio Porchat – todos claramente antifascistas.
A segunda ausência, mais grave, é de polÃtica antissistêmica. A esquerda brasileira parece cada vez mais melancólica e enamorada de seu passado. Em um leque de paÃses que vai do Chile à Inglaterra; da Argentina aos Estados Unidos; da Colômbia à Espanha; do LÃbano à Coreia do Sul, as forças polÃticas e movimentos antissistêmicos constroem pautas novas, baseadas nos sujeitos sociais embrionários que surgem no século XXI. Aqui, uma esquerda que foi governo até há quatro anos parece reduzir seu horizonte ou a eleições; ou dedicar-se a disputas internas cada vez mais estéreis.
De tal forma que se produziu uma inversão bizarra. Nas redes sociais da direita formou-se um exército de tiozões com pensamento reacionário e sem experiência polÃtica alguma – mas empenhado em sair de sua bolha e comunicar-se com o mundo, Enquanto isso, grupos de esquerda desperdiçam seu tempo escasso digladiando-se entre si mesmos, com frequência, sobre o papel histórico de Stálin ou a importância da Coreia do Norte na geopolÃtica contemporânea.
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