A semana em que Bolsonaro piscou para o Centrão

O presidente está hospitalizado. Mas em Brasília, seu filho e dois de seus ministros ofereceram 5 bilhões, e ações contra a Lava Jato, para estreitar os laços com o que chamavam, até há pouco, de “velha política”

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Algo moveu-se, esta semana, nos bastidores da política. Menos popular a cada pesquisa de opinião pública, e convenientemente distante dos holofotes, por estar internado no Hospital Vila Nova Star (em São Paulo), o presidente Bolsonaro autorizou uma operação em Brasília. O objetivo é claro: estabelecer, com o Centrão, um acordo que compense o declínio nas ruas com alguma estabilidade no Parlamento. Se a operação for bem-sucedida, haverá um preço: o Palácio do Planalto cederá de vez aos jogos fisiológicos do “presidencialismo de coalizão”, contrariando inclusive a parte de seus apoiadores mais favorável à Lava Jato

O senador Flávio Bolsonaro, o ministro chefe da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, e o ministro da Casa Civil, Ônix Lorenzoni, viveram intensas negociações com o Congresso, informam as repórteres Julia Lindner e Camila Turtelli, de O Estado de S.Paulo. A bateria de encontros privilegiou os líderes do Centrão e visou dois objetivos. Do ponto de vista mais imediato, abrir caminho para a vitória do governo em três votações importantes, nas próximas semanas: a contrarreforma da Previdência e o aval às nomeações do deputado Eduardo Bolsonaro para o posto de embaixador nos EUA e de Augusto Aras para Procurador-Geral da República. Mas as conversações, mostram os jornalistas, têm também sentido de longo prazo. Buscam “normalizar” as relações entre o governo e o Legislativo, estabelecendo a troca de favores que marca, desde FHC, o chamado “presidencialismo de coalizão”

Em encontros que envolveram os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, David Alcolumbre, os três negociadores do governo ofereceram ao menos dois mimos aos parlamentares. Primeiro, a liberação de R$ 5 bilhões em emendas, valor prometido durante as votações da contrarreforma da Previdência na Câmara. O governo quer ganhar tempo, porque o ministério da Economia é, no arranjo de “ajuste fiscal”, o dono do cofre – e só promete abrir os cofres em maio. Mas a vinculação entre o dinheiro e as votações é claro. Exatamente por isso, o Planalto está sendo aconselhado a só submeter neste mês o nome de Eduardo aos senadores.

O segundo mimo – e este envolve também o Judiciário – é sepultar a chamada “CPI da Lava Toga”. Ela foi inflada pelo partido do governo (PSL), mas é vista pela maioria dos parlamentares (especialmente os do “Centrão”) como forma de pressionar os ministros do STF (em especial Gilmar Mendes e Luís Toffoli) mais contrários aos métodos da Lava Jato. Ao longo da semana, coube a Flávio Bolsonaro dissuadir seu partido do apoio à Comissão, o que gerou choques internos, expressos por exemplo pela senador Juíza Telma (MT). Além desse movimento do filho do presidente, a própria indicação de Aras à PGR foi vista como um aceno aos políticos, já que o procurador criticou o chamado “ativismo político” de alguns de seus pares – o que foi entendido como um recado à Lava Jato.

Enquanto o ministro da Casa Civil, Ônix Lorenzoni, assegurava aos deputados a liberação dos R$ 5 bilhões prometidos pelo governo há meses, o general Luiz Eduardo Ramos afirmava que deseja uma relação de longo prazo com os parlamentares. “Tem de ser coerente; ou está aliado com o governo, ou é contra”, disse ele. E José Neto, líder na Câmara do Podemos, um dos partidos mais fiéis ao Planalto (e mais sequiosos por cargos) completou: “o governo não quer mais namorico: quer casamento de papel passado”.

Já Carlos Bolsonaro, sempre segundo o Estadão, partia para o monitoramento dos parlamentares a partir de seu comportamento nas redes sociais. Ao invés de acabar como o “é dando que se recebe”, o governo Bolsonaro parecia disposto a “atualizar” a prática. Quem sabe, prepare um aplicativo: mistura de Mercado Livre (para compre e venda de votos) com Tinder – mas só para “namoro sério”…

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